Dia da Saúde

‘Cultura do cuidado inclui meio ambiente e alimentação’, diz coordenadora do projeto Hortos Agroflorestais no DF

Política pública utiliza princípios da agroecologia em unidades básicas de saúde

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Horto da UBS 11 de Ceilândia, região administrativa do DF
Horto Agroflorestal da UBS 11 de Ceilândia, região administrativa do DF | Crédito: Jhonatan Cantarelle /Agência Saúde DF

Em diferentes regiões do Distrito Federal, cultivar coletivamente a terra também faz parte do sistema de saúde pública. Nos Hortos Agroflorestais medicinais, a lógica do cuidado começa antes do adoecimento e passa pela convivência, pela alimentação e pelo vínculo com o território.

A experiência começou em 2018, na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Lago Norte, a partir da atuação do médico de família e comunidade Marcos Trajano. Em meio ao aumento dos casos de arboviroses, uma área tomada por entulho foi transformada em espaço de cultivo.

Segundo a coordenadora do projeto, Ximena Moreno, a criação do primeiro horto partiu da mobilização da própria comunidade. “O espaço tinha entulho, e a partir do conhecimento em agrofloresta, foi feito um mutirão com moradores para implementar o horto”, relata.

O que começou como uma ação local ganhou escala e reconhecimento institucional. Em 2025, o projeto passou a ser reconhecido como equipamento de saúde pela Secretaria de Saúde, por meio da Portaria nº 137.

Para Ximena, o processo inverte a lógica tradicional das políticas públicas. “Este é um exemplo de uma política insurgente, que surge no território e se consolida por pressão social”, afirma. A participação popular é um dos princípios do SUS. O Dia Nacional da Saúde, nesta quarta-feira (5), inspira reflexões sobre a construção da saúde pública no país.

Agroecologia, solidariedade e saúde

A proposta dos hortos no DF é ampliar a noção de cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS). Os espaços atuam na prevenção, promoção da saúde e no fortalecimento de vínculos comunitários. “A gente fala de uma ampliação da cultura do cuidado, incluindo meio ambiente e alimentação saudável”, explica Ximena.

Embora tenha surgido no Lago Norte, a iniciativa encontrou maior adesão em regiões periféricas do Distrito Federal. Segundo a coordenação do projeto, isso se relaciona com a memória de práticas rurais e com a ausência de áreas verdes nesses territórios.

“Nos lugares onde os hortos têm maior adesão são as periferias, muitas vezes por uma relação mais próxima com a terra e com a ancestralidade”, explica Ximena.

Nesses espaços, os hortos passam a cumprir uma função que vai além da produção de alimentos. “Eles vivenciam o horto como o quintal da casa, um espaço que muitas vezes não existe nesses territórios”, afirma.

Horto agroflorestal do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Créditos: Portal Gov

Para profissionais da saúde, a experiência também aponta caminhos para enfrentar desigualdades sociais mais amplas. “Não é possível construir solução para a violência sem promover solidariedade e cooperação”, afirma o médico Marcos Trajano.

Segundo ele, a agroecologia, que é a base dos hortos, propõe uma lógica contrária à exclusão. “É uma rede que incentiva a criação de espaços onde pessoas possam se reconhecer como parte de um território e, acima de tudo, compreender que espaços coletivos são um patrimônio de todos nós”, pontua Trajano.

Além do cultivo, os hortos se consolidaram como espaços de troca de conhecimentos sobre plantas, alimentação e cuidado. A participação feminina é uma das principais características da iniciativa.

“Cerca de 90% dos participantes são mulheres, e os saberes tradicionais vão surgindo nesse diálogo com os profissionais”, destaca Ximena. A proposta não é opor conhecimento científico e popular, mas integrá-los. “A gente constrói um diálogo entre esses saberes”, pontua.

Cuidado integral

Cleydson Oliveira, 43 anos, é um dos trabalhadores da horta comunitária do Guará II, localizada na Unidade Básica de Saúde 5 (UBS) da região. Em conversa com a reportagem do Brasil de Fato DF, ele afirmou que o projeto foi responsável por retomar seus objetivos na vida.

“Comecei no horto quando decidi dar um basta no uso de drogas. Eu precisava de uma ocupação. E, como eu tinha muita habilidade com plantas, procurei um Caps [Centro de Atenção Psicossocial] que tinha um desses espaços e foi assim que comecei”, conta Oliveira, que já carregava experiência com agricultura adquirida na infância.

Para ele, o cultivo se tornou uma forma de reorganizar a rotina e reconstruir a própria trajetória. “Pra isso a gente precisa ter uma ocupação. Como eu tinha habilidade com plantas, eu procurei esse espaço”, afirma.

Além do trabalho no Guará II, Cleydson mantém um horto próprio no Caps de Ceilândia, onde cultiva ervas medicinais, folhagens e frutos diversos. A renda da produção é destinada a custear o transporte de usuários do Caps que moram longe da unidade. Segundo Cleydson, seu trabalho conseguiu resgatar mais de 300 pessoas das drogas desde que começou na área, em 2011.

Participantes trabalham em plantação no horto agroflorestal do Guará II
Participantes trabalham em plantação no horto agroflorestal do Guará II | Crédito: Ana Gonçalves/Brasil de Fato DF

Para ele, o processo de reabilitação envolve esforço individual e terapia ocupacional. “Eu sou ateu e não acredito muito em divindades. Então eu penso que, para as pessoas, só existe um milagre: querer mudar e encontrar uma atividade para manter a mente ocupada. O horto é uma das melhores coisas porque ninguém é obrigado a participar. A pessoa vem por conta própria, fica duas horas e sai aliviado”, relata.

“O cheiro das ervas, o contato com a natureza e a possibilidade de pegar a terra na mão não têm preço. Acho que as pessoas podem associar o ‘eu quero’ com o horto. As duas coisas vão ajudar muito a lidar com o problema do uso abusivo de álcool e de drogas”, aconselha.

Para o médico de família e comunidade Marcos Trajano, a agricultura biodinâmica é uma ferramenta de inclusão que atua no fortalecimento de vínculos comunitários. “É por meio da solidariedade e de ações que reinserem aqueles que estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica que teremos uma sociedade mais justa. Nesse sentido, a agricultura biodinâmica serve para reconhecer o papel do ser humano no relacionamento com os outros seres”, defende.

Cultivo também enfrenta insegurança alimentar

Os hortos também se inserem no debate sobre acesso à alimentação saudável, especialmente nas periferias. Segundo a coordenação do projeto, a distribuição desigual de alimentos impacta diretamente a saúde da população.

“As regiões periféricas concentram maiores índices de insegurança alimentar”, afirma Ximena. Dados da 6ª Conferência de Segurança Alimentar e Nutricional +2, ocorrida em maio deste ano, revelam que a taxa de insegurança alimentar no DF aumentou de 23,5% para 27% entre 2023 e 2024. Na prática, o número de pessoas nessa condição passou de 747 mil para 845 mil. Já a insegurança alimentar moderada ou grave, caracterizada pela fome, atinge 9% dos domicílios do DF. Esse é o pior índice entre as unidades da federação das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

Uma das estratégias para enfrentar esse cenário é o cultivo de plantas alimentícias não convencionais, adaptadas ao território. “São plantas resistentes, ricas em nutrientes e que exigem poucos insumos”, explica Ximena.

Apesar do reconhecimento como política pública, a consolidação dos hortos no Distrito Federal ainda enfrenta entraves. A principal dificuldade é a ausência de profissionais específicos na estrutura da saúde. “Hoje não existe uma carreira dentro da Secretaria de Saúde que contemple, por exemplo, agroecólogos”, afirma a coordenadora.

Para ela, fortalecer iniciativas como essa é fundamental para o futuro do SUS. “A gente precisa trabalhar antes que as pessoas adoeçam, olhando para os determinantes sociais da saúde e escutando mais a comunidade”, conclui.


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Editado por: Clivia Mesquita

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