O narcisista

Donald Trump, entre a grandiosidade e o desamparo

A fantasia de poder que mascara uma profunda impotência estrutural

No audio source provided.
US President Donald Trump speaks in the Oval Office of the White House in Washington, DC, on July 29, 2026. US President Donald Trump unveiled a $20 billion plan to rebuild and renovate Washington Dulles International Airport. (Photo by Ken Cedeno / AFP)
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Ken Cedeno / AFP)

Nas últimas semanas, estive relendo a duas principais obras do sociólogo e historiador estadunidense Christopher Lasch. Reli sobretudo as minhas anotações de época. 

Refiro-me aos textos de A Cultura do Narcisismo (1979) e O Mínimo Eu (1984). São estudos mais ou menos complementares. 

O primeiro, foi o seu maior sucesso comercial, vencedor do National Book Award. Detalha como o capitalismo tardio gerou indivíduos de personalidade estruturalmente narcisista, preocupados com a sobrevivência tão-somente emocional.

No segundo livro, Lasch aprofunda a tese de que, sob ameaças existenciais modernas, a psique humana recua para uma postura defensiva e minimalista de mera sobrevivência.

Fiquei absolutamente impressionado com a capacidade de previsão do autor. 

Lasch pinta, desenha e escreve com autoridade um diagnóstico antecipatório tão preciso que parecem ter sido escritas com Donald Trump em mente. Ele morreu em 1994, portanto, não teve a menor oportunidade de conhecer Trump antes de este viralizar a grande política USA e o mundo todo. 

Mais do que prever um indivíduo, Lasch previu o sistema sócio-político – Império em declínio – que tornaria um personagem como Trump não apenas possível, mas inevitável. 

Se Lasch precisasse de um estudo de caso clínico para seu primeiro livro, Trump seria o exemplar perfeito.

Lasch diz que o narcisista não tem um eu interior sólido. Ele existe apenas no reflexo da admiração alheia. A obsessão de Trump por ratings (notas de desempenho), pelo tamanho dos públicos em seus comícios, pela cobertura da mídia (mesmo que negativa) e pelo número de seguidores é a personificação disso. 

Ele não busca uma ideologia; busca uma plateia

Lasch criticava a degradação da política em espetáculo vulgar, onde a imagem substitui a substância. Trump levou isso ao extremo: a política tornou-se um reality show – O Aprendiz/The Apprentice em pleno palco da Casa Branca.

A capacidade de manipular a narrativa para uma versão própria, de criar apelidos e de dominar o ciclo de notícias 24 horas é a manipulação das relações interpessoais que Lasch via como prêmio da nova economia burocrática.

O narcisista de Lasch oscila entre a grandiosidade e o desamparo. As hipérboles de Trump (“ninguém sabe mais do que eu”, “vou resolver em 24 horas”) são defesas narcísicas contra a realidade de um Império que já não consegue cumprir suas promessas. É a fantasia de poder que mascara uma profunda impotência estrutural.

Aqui está a conexão mais profunda e sombria, que liga Trump não ao indivíduo, mas ao eleitorado que o elegeu.

Lasch argumentou que, com o fim da crença no progresso, a sociedade se contrai para a sobrevivência imediata. O slogan Make America Great Again não é uma visão de futuro (um sonho do “Eu Soberano” americano) é um lamento reacionário. 

É a tentativa desesperada de um “Eu Mínimo” nacional de se agarrar a um passado mítico porque o futuro parece aterrorizante. A política do “nós contra eles” como sobrevivência. 

O “Eu Mínimo” vive sitiado. A retórica de Trump sobre invasões (imigrantes), saques (globalização) e traição (Deep State) traduz a ansiedade do colapso do Império em uma lógica de sobrevivência tribal. 

Não se trata de construir algo novo, mas de erguer muros para proteger o pouco que resta (o núcleo defensivo da nação).

Lasch dizia que a burocracia moderna desqualificou o cidadão comum, tornando-o dependente de especialistas. A revolta trumpista é a revolta do “Eu Mínimo” contra esses especialistas (cientistas, jornalistas, professores, generais), que são vistos como inimigos. 

Trump, paradoxalmente, assume o papel de anti-especialista especialista – um líder que valida a raiva do cidadão comum e a transforma em uma nova forma de autoridade carismática, mas vazia de conteúdo técnico.

A política do declínio 

Lasch via a história estadunidense como uma trajetória de diminishing expectations (expectativas decrescentes). 

O pós-guerra prometeu o “Eu Soberano” – a classe média próspera, a casa própria, a aposentadoria segura. A desindustrialização e a financeirização sonegam tudo isso. Houve uma corrosão definitiva e aflitiva desta base outrora sólida.

Trump é o sintoma terminal desse império em declínio precisamente porque ele não oferece um plano de recuperação, mas uma catarse de vingança e violência. 

A plateia trumpista não busca políticas específicas. Busca ver os especialistas humilhados, a mídia envergonhada e os inimigos derrotados. 

É a política do rancor, que Lasch identificou como a emoção predominante quando o amor-próprio (narcisista) é ferido pelo colapso trágico da realidade.

A liderança forte é uma ilusão de contenção. Num império que não consegue mais impor sua vontade no exterior (Afeganistão, Iraque, derrota para o Irã, a ascensão da China), Trump personifica a fantasia do chefe durão que traz ordem à casa em chamas, mesmo que, ao fundo, a casa continue a arder. 

Ele é o “Eu Mínimo” projetado em escala nacional: grandioso na defesa, mas encolhido em suas ambições civilizatórias.

Lasch não previu o nome Trump, mas previu o arquétipo que ele ocupa e representa. 

Trump é a fusão perfeita entre o narcisista patológico (que exige o palco) e a cultura do Eu Mínimo (que exige sobrevivência). 

Ele é o líder que uma sociedade em declínio merece – não porque seja um gênio, mas porque é o espelho mais fiel da ansiedade, do vazio e da raiva dessa sociedade.

Hoje Lasch diria que o verdadeiro perigo não é Trump em si, mas o fato de que uma nação outrora confiante tenha se tornado tão psicologicamente empobrecida a ponto de ver em uma figura tão grotescamente vazia o único capaz de salvá-la. 

Trump não é a causa da queda do Império. Ele é a prova viva de que a queda já consumiu a psique coletiva. E a política deixou de ser a busca coletiva para construir o futuro para se tornar um exercício irracional e desesperado de autopreservação emocional.

*Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

|

Newsletter