Nas últimas semanas, estive relendo a duas principais obras do sociólogo e historiador estadunidense Christopher Lasch. Reli sobretudo as minhas anotações de época.
Refiro-me aos textos de A Cultura do Narcisismo (1979) e O Mínimo Eu (1984). São estudos mais ou menos complementares.
O primeiro, foi o seu maior sucesso comercial, vencedor do National Book Award. Detalha como o capitalismo tardio gerou indivíduos de personalidade estruturalmente narcisista, preocupados com a sobrevivência tão-somente emocional.
No segundo livro, Lasch aprofunda a tese de que, sob ameaças existenciais modernas, a psique humana recua para uma postura defensiva e minimalista de mera sobrevivência.
Fiquei absolutamente impressionado com a capacidade de previsão do autor.
Lasch pinta, desenha e escreve com autoridade um diagnóstico antecipatório tão preciso que parecem ter sido escritas com Donald Trump em mente. Ele morreu em 1994, portanto, não teve a menor oportunidade de conhecer Trump antes de este viralizar a grande política USA e o mundo todo.
Mais do que prever um indivíduo, Lasch previu o sistema sócio-político – Império em declínio – que tornaria um personagem como Trump não apenas possível, mas inevitável.
Se Lasch precisasse de um estudo de caso clínico para seu primeiro livro, Trump seria o exemplar perfeito.
Lasch diz que o narcisista não tem um eu interior sólido. Ele existe apenas no reflexo da admiração alheia. A obsessão de Trump por ratings (notas de desempenho), pelo tamanho dos públicos em seus comícios, pela cobertura da mídia (mesmo que negativa) e pelo número de seguidores é a personificação disso.
Ele não busca uma ideologia; busca uma plateia
Lasch criticava a degradação da política em espetáculo vulgar, onde a imagem substitui a substância. Trump levou isso ao extremo: a política tornou-se um reality show – O Aprendiz/The Apprentice em pleno palco da Casa Branca.
A capacidade de manipular a narrativa para uma versão própria, de criar apelidos e de dominar o ciclo de notícias 24 horas é a manipulação das relações interpessoais que Lasch via como prêmio da nova economia burocrática.
O narcisista de Lasch oscila entre a grandiosidade e o desamparo. As hipérboles de Trump (“ninguém sabe mais do que eu”, “vou resolver em 24 horas”) são defesas narcísicas contra a realidade de um Império que já não consegue cumprir suas promessas. É a fantasia de poder que mascara uma profunda impotência estrutural.
Aqui está a conexão mais profunda e sombria, que liga Trump não ao indivíduo, mas ao eleitorado que o elegeu.
Lasch argumentou que, com o fim da crença no progresso, a sociedade se contrai para a sobrevivência imediata. O slogan Make America Great Again não é uma visão de futuro (um sonho do “Eu Soberano” americano) é um lamento reacionário.
É a tentativa desesperada de um “Eu Mínimo” nacional de se agarrar a um passado mítico porque o futuro parece aterrorizante. A política do “nós contra eles” como sobrevivência.
O “Eu Mínimo” vive sitiado. A retórica de Trump sobre invasões (imigrantes), saques (globalização) e traição (Deep State) traduz a ansiedade do colapso do Império em uma lógica de sobrevivência tribal.
Não se trata de construir algo novo, mas de erguer muros para proteger o pouco que resta (o núcleo defensivo da nação).
Lasch dizia que a burocracia moderna desqualificou o cidadão comum, tornando-o dependente de especialistas. A revolta trumpista é a revolta do “Eu Mínimo” contra esses especialistas (cientistas, jornalistas, professores, generais), que são vistos como inimigos.
Trump, paradoxalmente, assume o papel de anti-especialista especialista – um líder que valida a raiva do cidadão comum e a transforma em uma nova forma de autoridade carismática, mas vazia de conteúdo técnico.
A política do declínio
Lasch via a história estadunidense como uma trajetória de diminishing expectations (expectativas decrescentes).
O pós-guerra prometeu o “Eu Soberano” – a classe média próspera, a casa própria, a aposentadoria segura. A desindustrialização e a financeirização sonegam tudo isso. Houve uma corrosão definitiva e aflitiva desta base outrora sólida.
Trump é o sintoma terminal desse império em declínio precisamente porque ele não oferece um plano de recuperação, mas uma catarse de vingança e violência.
A plateia trumpista não busca políticas específicas. Busca ver os especialistas humilhados, a mídia envergonhada e os inimigos derrotados.
É a política do rancor, que Lasch identificou como a emoção predominante quando o amor-próprio (narcisista) é ferido pelo colapso trágico da realidade.
A liderança forte é uma ilusão de contenção. Num império que não consegue mais impor sua vontade no exterior (Afeganistão, Iraque, derrota para o Irã, a ascensão da China), Trump personifica a fantasia do chefe durão que traz ordem à casa em chamas, mesmo que, ao fundo, a casa continue a arder.
Ele é o “Eu Mínimo” projetado em escala nacional: grandioso na defesa, mas encolhido em suas ambições civilizatórias.
Lasch não previu o nome Trump, mas previu o arquétipo que ele ocupa e representa.
Trump é a fusão perfeita entre o narcisista patológico (que exige o palco) e a cultura do Eu Mínimo (que exige sobrevivência).
Ele é o líder que uma sociedade em declínio merece – não porque seja um gênio, mas porque é o espelho mais fiel da ansiedade, do vazio e da raiva dessa sociedade.
Hoje Lasch diria que o verdadeiro perigo não é Trump em si, mas o fato de que uma nação outrora confiante tenha se tornado tão psicologicamente empobrecida a ponto de ver em uma figura tão grotescamente vazia o único capaz de salvá-la.
Trump não é a causa da queda do Império. Ele é a prova viva de que a queda já consumiu a psique coletiva. E a política deixou de ser a busca coletiva para construir o futuro para se tornar um exercício irracional e desesperado de autopreservação emocional.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
