Caviar da burguesia

‘Nosso problema não é econômico, nosso problema é de organização política e social’: primeira mesa da Flipei debate os bilionários

Michel Alcoforado e Ladislau Dowbor discutiram o comportamento da elite e a especulação financeira

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Flipei
O jornalista Xico Sá, o economista Ladislau Dowbor e o antropólogo Michel Alcoforado, em debate na Flipei

A 8ª Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei) começou nesta quarta-feira (5), debatendo quem são os bilionários e como acontece a dominação política, econômica e social desse pequeno grupo com grande poder.

No debate “Parasitas bilionários: o poder caviar da burguesia internacional”, mediado pelo jornalista Xico Sá, o economista Ladislau Dowbor mostrou as mudanças das elites a partir da financeirização da economia mundial e o antropólogo Michel Alcoforado apontou como se comporta essa elite para manter seu status e privilégio econômico.

“A questão do caviar é uma forma de agir que se mantém. Ele assume esse lugar de um objeto que é raro, que tem um nome raro. Você nunca viu, nem vai comer, só ouvir falar. E é justamente porque você nunca viu e nem comeu, só ouviu falar, que ele mantém essa força importante na construção da diferença [entre o rico e o pobre]”, disse Alcoforado ao abrir o debate, destacando que essa dinâmica se repete para outros produtos.

O antropólogo, que estuda o comportamento da elite econômica brasileira, aponta que a sociedade brasileira normaliza a desigualdade social. Para Alcoforado, há um certo desejo de ascensão à riqueza em todas as classes sociais brasileiras.

“A classe baixa sonha com a ascensão social. A classe média brasileira, muitas vezes, se identifica ou sonha em se tornar parte da elite. Eles sonham e acham que vão sair da classe média para atingir o topo da pirâmide social, o que muitas vezes os impede de ter um olhar crítico sobre as elites. Enquanto os ricos procuram manter seus privilégios. Os descendentes dos ricos têm a obrigação de manter e ampliar o patrimônio”, destaca.

A manutenção e ampliação desse patrimônio passam por uma estrutura de financeirização da economia, que prioriza a especulação financeira em detrimento da produção de bens e da geração de consumo.

“Nosso problema não é econômico, nosso problema é de organização política e social. Esse é o desafio”, disse Dowbor. “A gente sabe como deve ser feito. Nós temos o dinheiro necessário. Você pega o PIB [Produto Interno Bruto] do Brasil, R$ 12,3 trilhões, e divide. Daria R$ 20 mil por mês para cada brasileiro.”

Nesse sentido, aponta o economista, o Brasil, com seus juros altos, torna-se um lugar em que esse modelo excludente se consolida. Como exemplo, ele compara a taxa média de juros anuais na China, que é até 4% ao ano, da Europa, de até 9%, e no Brasil, que gira em torno de 55%. “O banco antigamente financiava as pessoas para fazerem coisas úteis. Hoje ele tem a taxa de juros que você vai pagando, vai pagando, vai pagando. Isso chamava e continua a se chamar agiotagem”, critica Dowbor.

Essa riqueza especulativa tem raízes no mundo global, com um grande volume de dinheiro improdutivo concentrado nas mãos de poucos. Dowbor lembra que a Black Rock, a maior empresa de gestão financeira do mundo, gere US$ 14 trilhões, o dobro do orçamento do governo dos Estados Unidos. A empresa multinacional tem investimentos espalhados pelo mundo, inclusive em bancos e outras empresas brasileiras.

Cenário nacional

No Brasil, dois movimentos atestam que a elite política tem trabalhado a favor dos especuladores financeiros.

Em 2003, o Congresso Nacional aprovou a retirada do texto do artigo 192 da Constituição, que definia a prática de juros acima de 12% como crime de usura contra a economia. Na Europa, por exemplo, essa cláusula limita os juros a 9%. “E por que o Congresso aprovou? Porque tem um monte de milionário ganhando dinheiro com a taxa Selic. A gente tirou a base constitucional de regulação do dinheiro no Brasil. E virou uma zona”, critica Dowbor.

O outro movimento foi o controle institucional do Banco Central a partir da sua autonomia, aprovada durante o primeiro ano do governo Bolsonaro. “O Banco Central tem que lidar com a política financeira e a política monetária. O Banco Central tem que saber o que fazer com o dinheiro dos outros. Quando eles geraram a autonomia e, mais recentemente, o controle adicional dos bancos, os caras que deveriam ser regulados e controlados pelo Banco Central passaram a controlá-lo”, destaca o economista.

Dentro desse cenário, a plateia da Flipei aproveitou os especialistas para questionar se há alternativas e saídas. Alcoforado lembrou a necessidade das utopias e, mesmo que pareça impossível, pensar em outro formato de desenvolvimento da economia no mundo. Já Dowbor destacou a importância da atuação local para garantir uma economia mais justa e solidária, longe da lógica especulativa do mercado.

Editado por: Rodrigo Gomes

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