NEM TUDO ALIMENTA

Com participação do BdF, mesa discute consumo de ultraprocessados e a hipnose das redes sociais no Rio Innovation Week

Jornalista Marina Rara e representantes do Instituto Folio e da Mídia NINJA discutiram alimentação e comunicação

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Mesa 'O futuro da alimentação na era das redes sociais' no Rio Innovation Week 2026
Mesa ‘O futuro da alimentação na era das redes sociais’ no Rio Innovation Week 2026 | Crédito: João Zeppini/Rio Innovation Week

O Rio Innovation Week recebeu, nesta quarta-feira (5), uma mesa de debate no palco Raízes do Campo sobre “O futuro da alimentação na era das redes sociais”. A discussão partiu de uma provocação da própria organização do evento: como comunicar a agricultura familiar, a agroecologia e a soberania alimentar de maneira capaz de gerar confiança, mobilização e transformação real, em um cenário marcado pela desinformação e pela polarização.

A mesa reuniu Bettina Barros, diretora de Comunicação do Instituto Folio; Dríade Aguiar, da Mídia NINJA; e a jornalista Marina Rara, diretora do programa Bem Viver, do Brasil de Fato.

Questionada sobre a necessidade de uma regulamentação mais robusta das redes sociais — nos moldes da rotulagem obrigatória de ultraprocessados, hoje sinalizada por selos de transgênicos, gordura saturada e sódio —, Rara relacionou duas entrevistas publicadas pelo BdF. Uma foi com a cozinheira e apresentadora Bela Gil, que afirmou que “o povo brasileiro está morrendo pela boca” e a outra foi com o psicanalista Christian Dunker, que descreveu as redes sociais como um processo de “colonização digital”.

“Talvez nenhum desses dois entrevistados tenha a noção da ameaça que estamos vivendo quando juntamos essas duas reflexões. Fazemos essas análises separadamente, mas cruzadas, nem sempre”, afirmou a jornalista.

Para ela, “hoje em dia o que nos vendem como alimentos deixou de nos alimentar”, afinal, os ultraprocessados estão presentes em todos os espaços de convívio social, tornando “quase um grito solitário e sufocado” qualquer alerta de que nem tudo que se come é, de fato, alimento. Ela recorreu a uma referência do rap para sintetizar a ideia: se “nem tudo que brilha é ouro”, hoje “nem tudo que é comida alimenta”.

Rara argumentou que esses produtos se apropriaram de um mecanismo natural — o uso de cores e brilhos para atrair a atenção dos seres vivos, como os diferentes tons de vermelho entre uma maçã e uma ameixa, ou de amarelo entre um limão-siciliano e uma carambola — para simular diversidade e nutrientes nas embalagens.

Segundo ela, o funcionamento das redes sociais segue lógica semelhante: “Somos hipnotizados pela vibração da tela e a quantidade de imagens que invadem nossa retina. Realmente, estamos comendo com os olhos. Mas, mais uma vez lembro: estamos comendo, não nos alimentando”.

“Refletir sobre o nosso consumo é refletir também sobre a forma como somos consumidos pelas redes”, disse a jornalista, comparando a expectativa de que um ultraprocessado sacie um desejo interno à sensação de rolar infinitamente a tela do Instagram em busca da alegria necessária para seguir o dia a dia. Como caminho de enfrentamento, citou o próprio programa Bem Viver, que dirige há cinco anos: “Ele tem uma missão que às vezes parece impossível, que é convencer as pessoas a pisar o pé no chão, desacelerar o ritmo da vida e deixar os olhos serem hipnotizados pelas cores das frutas, não das embalagens”.

Experiências do campo e das redes

A mesa reuniu ainda Bettina Barros, diretora de Comunicação do Instituto Folio, e Dríade Aguiar, da Mídia NINJA. Barros apresentou o projeto Vozes da Transição, iniciativa do instituto que oferece formação gratuita em comunicação digital para produtores, técnicos e pesquisadores ligados à agricultura regenerativa, para que eles próprios possam divulgar em suas redes seus produtos e formatos de produção familiar — um espaço do qual, segundo ela, os agricultores familiares costumam estar distantes.

Já Dríade Aguiar, mulher negra de Cuiabá, relatou não se sentir representada nas redes sociais, que descreveu como um espaço que fomenta e conduz desejos — entre eles, padrões estéticos ligados a uma magreza exagerada e ao uso de canetas emagrecedoras, muitas vezes associados à imagem de influenciadoras brancas.

Para avaliar se um conteúdo é bom, disse recorrer a um parâmetro pessoal: observar se ele se aproxima do que ela mesma representa enquanto pessoa. Dríade citou a experiência do Xepa Ativismo, rede de ativismo alimentar da Mídia NINJA, que produz conteúdo e informação sobre alimentação fora do padrão predominante nas redes sociais, em uma fala que coroou o que já havia sido dito pelas outras participantes.

Editado por: Rafaella Coury

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