Estado violento

Mortes pela polícia com agentes de folga atingem maior número desde 2022 em SP

Com 67 ocorrências no 1º semestre de 2026, maior número desde 2022, alta se concentra na capital e na Grande São Paulo

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Policiais militares empunham escudos da corporação durante protesto em 2016
Policiais militares empunham escudos da corporação durante protesto em 2016 | Crédito: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

O primeiro semestre de 2026 registrou o maior número absoluto de ocorrências de Mortes Decorrentes de Intervenção Policial (MDIP) envolvendo agentes de folga desde o mesmo período de 2022. Das 358 ocorrências de MDIP registradas neste ano, 291 (81%) envolveram policiais em serviço e 67 (19%) agentes de folga.

O levantamento feito pela Ponte parte de dados recém-divulgados pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), chefiada por Osvaldo Nico e vinculada ao governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). A pasta compila dados criminais desde 2013.

Em 2022, foram registrados 204 casos dessa natureza, sendo que 133 (65,2%) envolveram policiais em serviço e 71 (35%) de folga. Essa foi a maior proporção de ocorrências com policiais de folga desde 2021.

A proporção caiu para 23% em 2023 e para 15% em 2024, percentual que se manteve em 2025. Em 2026, o índice voltou a crescer e chegou a 19%, um aumento de quatro pontos percentuais em relação ao ano anterior.

Dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo. Crédito: Ponte Jornalismo

Isso significa que, no primeiro semestre deste ano, policiais de folga estiveram envolvidos em quase uma de cada cinco ocorrências de MDIP.

A Ponte apurou que o aumento não ocorreu de maneira uniforme no estado e se concentrou na capital e na Grande São Paulo. A análise também revela um gargalo institucional: a falta de dados e a omissão sistemática de informações sobre policiais que atuam ilegalmente na segurança privada.

Mortes por agentes de folga crescem

Em reportagens anteriores, a Ponte apontou que o número de mortes provocadas pela polícia tem aumentado no interior e diminuído, a cada ano, na região metropolitana, que até então concentrava a maior parcela dos casos. Em 2025, cerca de quatro em cada dez ocorrências de MDIP foram registradas em cidades do interior (40,1%), proporção sem precedentes na série histórica.

Os dados do primeiro semestre confirmam essa tendência. As delegacias do interior registraram 111 ocorrências de MDIP em 2024, 135 em 2025 e 126 em 2026. Nos três anos, os números superaram os registrados individualmente na capital, na Grande São Paulo e no litoral.

O cenário muda, porém, quando são consideradas apenas as ocorrências envolvendo policiais de folga. No mesmo período de três anos, a maior parte desses casos se concentrou na Grande São Paulo e na capital, embora essas regiões registrem, de modo geral, menos ocorrências de MDIP do que o interior.

As ocorrências de MDIP envolvendo policiais de folga aumentaram no primeiro semestre de 2026: cresceram 35% na Grande São Paulo e 27% na capital em relação ao mesmo período de 2025. Com a alta, policiais fora de serviço estiveram envolvidos em 27% das ocorrências de MDIP na Grande São Paulo e em 24% dos casos registrados na capital.

Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, diz que uma possível explicação para o fenômeno é a maior concentração de policiais nesses territórios. Ele observa, contudo, que os roubos estão em queda, embora se costume atribuir a letalidade praticada por agentes de folga à reação de policiais a esse tipo de crime.

No primeiro semestre de cada um dos últimos três anos, período em que o interior superou as demais regiões em número de ocorrências de MDIP, a capital registrou uma redução gradual dos roubos. Foram 59.677 casos em 2024, 51.266 em 2025 e 44.649 em 2026, uma queda acumulada de 25,2% entre o primeiro e último ano de comparação.

O mesmo aconteceu na Grande São Paulo, onde foram registrados 26.652 casos de roubo em 2024, 19.772 em 2025 e 15.656 em 2026. A redução acumulada foi de 41,3%, entre 2024 e 2026.

Por isso, Rafael propõe uma terceira lente de análise: o aumento das ocorrências de MDIP envolvendo agentes de folga pode estar relacionado, também, à atuação informal de policiais na segurança privada, prática conhecida como “bico”.

‘Como todo mundo faz bico, ninguém denuncia’, diz especialista

Em 8 de novembro de 2024, Antônio Vinícius Gritzbach, delator do PCC, foi executado a tiros no estacionamento do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em uma ação criminosa coordenada. Sua morte escancarou, entre tantos pontos, a prestação ilegal de serviços de segurança: mais de dez policiais foram acusados da prática.

No mesmo ano, o presidente Lula sancionou a Lei 14.967/2024, que instituiu o Estatuto da Segurança Privada e das Instituições Financeiras, proibiu a prestação autônoma de serviços de segurança privada e estabeleceu sanções para o exercício da atividade sem autorização. Mesmo assim, uma reportagem publicada pelo UOL, em julho do ano seguinte, mostrou que a SSP-SP não mantinha nenhum levantamento sobre o assunto.

Rocha explica que as ocorrências envolvendo agentes fora do horário de trabalho são as que possuem o menor nível de transparência na coleta, sistematização e padronização dos registros oficiais. Isso ocorre por diferentes fatores.

Durante o registro da ocorrência, por exemplo, a atuação do policial na segurança privada costuma ser sistematicamente omitida. “Como todo mundo faz bico, ninguém denuncia. Às vezes, quando o delegado está investigando uma morte que aconteceu durante um bico, ele não coloca [essa informação no registro] porque pode prejudicar a família depois”, detalha o pesquisador.

Outro fator é que, quando uma MDIP envolve um agente de folga, dificilmente o caso chega à imprensa. É mais comum a veiculação de episódios ocorridos enquanto o policial estava em serviço, pontua Rafael. O que também impede uma mobilização e uma cobrança maiores.

Esse silenciamento resulta em um apagão estatístico. “São dados que as instituições não têm interesse em coletar. Porque todo mundo faz, e aí vai gerar uma questão que é: se o bico é proibido, tem que aumentar o salário”, conclui.

Polícia responde por 23% das mortes violentas em São Paulo

O total inclui a soma dos homicídios dolosos e as pessoas mortas pelas polícias Civil e Militar. Dados fornecidos pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo.
O total inclui a soma dos homicídios dolosos e as pessoas mortas pelas polícias Civil e Militar. Dados fornecidos pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo. | Crédito: Ponte Jornalismo

A opacidade em torno das mortes causadas por agentes de folga é apenas uma das facetas de um problema maior e estrutural na segurança pública paulista. Mesmo com uma ligeira queda no total de casos de MDIP no primeiro semestre de 2026 em comparação a 2025, a participação da letalidade policial no total de mortes violentas permanece elevada.

Estudos conduzidos pelo sociólogo Ignácio Cano indicam que, quando as mortes causadas por agentes do Estado ultrapassam cerca de 10% do total de homicídios, isso pode ser um sinal de uso excessivo da força policial. Já pesquisas associadas ao trabalho do pesquisador Paul Chevigny apontam que acima de 7% já podem indicar padrões abusivos.

No primeiro semestre deste ano, 1.193 pessoas foram vítimas de homicídios dolosos. Somadas a esse número as 358 ocorrências de MDIP registradas no mesmo período, as mortes provocadas pelas forças de segurança representam 23% do total. O índice está muito acima dos parâmetros mencionados e consolida as forças de segurança como um dos principais vetores de mortes violentas no estado.

O que dizem as autoridades

A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) sobre o aumento da letalidade por agentes de folga na Grande São Paulo e na capital, a contradição desse índice com a queda nos registros de roubo e a falta de transparência sobre as investigações de policiais que atuam irregularmente em segurança privada.

Em resposta, a pasta afirmou que todas as ocorrências de MDIP são investigadas e destacou a revisão de protocolos, a responsabilização por desvios de conduta e a ampliação do uso de câmeras corporais e de equipamentos de menor potencial ofensivo. A SSP-SP também ressaltou que o total de casos caiu 2,47% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025.

Leia a nota da SSP-SP na íntegra

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) ressalta que mantém ações contínuas voltadas à preservação da vida por meio de constante revisão de protocolos e aperfeiçoamento da atuação policial, responsabilização de eventuais desvios de conduta, ampliação do uso de tecnologia – como as Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) – e de equipamentos de menor potencial ofensivo. Todas as ocorrências de mortes por intervenção policial (MDIPs) são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Na comparação entre o 1º semestre deste ano com 2025, houve queda de 2,47% nos casos desta natureza.

Editado por: Ponte Jornalismo
Conteúdo originalmente publicado em: Ponte Jornalismo

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