Após 24 horas de pressão das delegações internacionais e dos esforços de negociação do Comitê Organizador Local (COL), as atividades do Fórum Social Mundial (FSM) foram finalmente confirmadas e seguirão entre 6 e 9 de agosto, em Cotonou, no Benin.
Ativistas de 148 países cobraram a liberação do evento pelo governo Wadagni. A decisão foi anunciada na tarde desta quarta-feira (05), após a reunião do Conselho de Ministros do país.
Segundo comunicado do Conselho Internacional e do Secretariado Técnico Organizador do Fórum, o governo autorizou tanto a utilização das instalações da universidade, quanto o regresso das caravanas. A programação do evento está sendo reagendada.
Na última segunda-feira (04), forças policiais barraram a entrada das caravanas organizadas pela Convergência Global de Lutas por Terra e Água – África Ocidental (CGLTE-OA). Além disso, o acesso às dependências da Universidade de Abomey-Calavi foi negado, gerando uma forte onda de indignação e sucessivos pedidos de paciência por parte dos organizadores do evento.
Ao longo do dia, as organizações sociais realizaram uma série de atividades reafirmando a continuidade do evento, independemente da posição governamental.
Este processo foi marcado por uma importante reunião das organizações da América Latina e do Caribe, incluindo Brasil, Colômbia, Haiti, México, Chile, Nicarágua, e entidades internacionais que atuam na região.
Em nota ao Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, divulgada antes da abertura do evento pelo governo do Benin, as organizações condenaram as restrições ao FSM, incluindo deportações de vários delegados que tentavam entrar no país, denunciando essas ações como expressão do “fechamento progressivo de espaços democráticos” e da “crescente criminalização da organização dos povos”.
A nota frisa que Cotonou é um marco na história do FSM, defendendo que “o Fórum Social Mundial precisa preservar sua identidade anticapitalista, anti-imperialista, anticolonial, antipatriarcal, antirracista e antifascista” e “reinventar seus instrumentos de articulação política”.
Para isso, as organizações da América Latina e do Caribe propõem uma Agenda Estratégica Permanente, visando a articulação contínua dos movimentos sociais entre as edições do evento; e se disponibilizam a contribuir para a realização do próximo FSM, em 2028.
Confira a nota:
Carta Política dos Movimentos Sociais da América Latina ao Conselho Internacional do Fórum Social Mundial
Benim, agosto de 2026
Às companheiras e aos companheiros do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial,
Os movimentos sociais, redes e organizações da América Latina reunidos durante o Fórum Social Mundial de 2026, no Benim, dirigem-se ao Conselho Internacional movidos por um sentimento comum de solidariedade, responsabilidade histórica e profunda preocupação com os acontecimentos que marcaram esta edição do Fórum.
O que vivemos no Benim não pode ser tratado como um incidente organizativo ou uma exceção. As restrições à participação, as deportações de delegados, os impedimentos à livre circulação, o cancelamento de atividades e a insegurança enfrentada por diversas delegações expressam uma realidade política mais ampla: o fechamento progressivo dos espaços democráticos, o avanço de projetos autoritários e a crescente criminalização da organização dos povos.
Nossa primeira manifestação é de solidariedade ao povo beninense, às organizações africanas e ao Comitê Organizador Local, que durante anos construíram este Fórum e que também foram atingidos por esta conjuntura. A defesa do Fórum Social Mundial passa, necessariamente, pela defesa daqueles que mantiveram viva esta construção coletiva.
Entretanto, a crise enfrentada na organização do FSM no Benim, também nos impõe uma responsabilidade política. Não basta compreender o que aconteceu; precisamos decidir como responder.
Vivemos uma conjuntura internacional marcada pela reorganização do capitalismo global, pelo fortalecimento do imperialismo, pela financeirização da economia, pela concentração do poder nas grandes corporações tecnológicas, pelo avanço da extrema direita, pelo crescimento das guerras, pela emergência climática e pelo enfraquecimento das instituições democráticas. Esses processos não são paralelos; fazem parte de uma mesma ofensiva contra os direitos, a soberania dos povos e a capacidade de organização da sociedade civil.
Por isso afirmamos que o FSM 2026 no Benim não representa uma interrupção da história do Fórum Social Mundial. O Benim, e a história do seu povo, marca o início de um novo tempo para o Fórum.
Chegou o momento de realizarmos uma reflexão profunda sobre nossa capacidade de responder aos desafios do século XXI.
O Fórum Social Mundial precisa preservar sua identidade anticapitalista, anti-imperialista, anticolonial, antipatriarcal, antirracista e antifascista, mas também precisa reinventar seus instrumentos de articulação política.
Mais do que perguntar onde será a próxima edição, precisamos perguntar qual deve ser o papel do Fórum Social Mundial diante da crise humanitárias que vivemos.
Nossa convicção é que o Fórum não pode limitar-se a ser um espaço periódico de encontros. Deve consolidar-se como um processo permanente de convergência internacional, produção de estratégias comuns e construção de alternativas concretas para os povos.
Nesse sentido, propomos ao Conselho Internacional que delibere pela continuidade política do Fórum Social Mundial 2026.
As atividades oficialmente inscritas devem ser mantidas em formato híbrido, combinando os espaços presenciais que ainda possam ocorrer com uma ampla plataforma internacional de participação virtual. Dessa forma, milhares de organizações que não puderam chegar ao Benim — ou que foram impedidas de participar — poderão integrar os debates, reafirmando que nenhuma tentativa de silenciamento interromperá a construção coletiva do Fórum.
Propomos igualmente a criação de uma Rede Internacional de Comunicação do FSM, valorizando tecnologias livres capaz de transmitir, registrar e difundir os debates para todo o mundo, transformando cada mesa, assembleia e atividade em patrimônio político dos movimentos sociais internacionais e no enfrentamento ao controle do imaginário político pelas corporações de vigilância e plataformas sociais.
Da mesma forma, defendemos que todas as convergências realizadas no Benim sejam retomadas nas semanas seguintes, em ambiente virtual, garantindo a elaboração de documentos políticos, sínteses temáticas e agendas comuns.
Como resultado desse processo, propomos que o Fórum produza uma Agenda Estratégica Permanente, construída coletivamente pelos movimentos sociais, acompanhada por mecanismos de monitoramento e articulação entre uma edição e outra. O Fórum não deve encerrar-se quando termina o evento; deve continuar vivo na ação cotidiana dos povos.
Entendemos também que este é o momento de iniciar um amplo processo de renovação do próprio Fórum Social Mundial. A América Latina coloca-se à disposição para contribuir com esse debate, fortalecendo a cooperação entre África, América Latina, Caribe e demais regiões do Sul Global, e ajudando a construir um novo ciclo do FSM baseado na convergência das lutas, na democratização da comunicação, na Economia Popular e Solidária, na justiça climática, na soberania alimentar, na defesa da paz e na construção de uma nova agenda internacional dos povos.
O Fórum Social Mundial nasceu afirmando que um outro mundo é possível.
Hoje, diante da conjuntura que enfrentamos, somos chamados a afirmar algo mais: um outro Fórum Social Mundial é necessário.
Um Fórum capaz de dialogar com os desafios do presente sem renunciar aos seus princípios; capaz de transformar diversidade em unidade de ação; capaz de combinar resistência com proposição; capaz de fortalecer o internacionalismo dos povos diante da reorganização do capitalismo global.
Que o Benim seja lembrado como o momento em que os movimentos sociais decidiram transformar uma crise em oportunidade, reafirmando que a esperança continua organizada e que a luta por outro mundo não será interrompida.
Os Movimentos Sociais da América Latina
Cotonou – Benim, 05 de agosto de 2026
