Memória

Documentário investiga papel do empresariado e da Usina Cambahyba (RJ) na ditadura militar

Fornos da antiga usina foram usados na ocultação de corpos; filme da Outrar Produções estreia em agosto

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Equipe do documentário "Cambahyba" durante filmagens
Equipe do documentário “Cambahyba” durante filmagens | Crédito: Renan Carneiro/Outrar Produções

Estreia em agosto o documentário Usina Cambahyba: Das Cinzas da Tortura à Terra Prometida, sobre a história da usina de cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes (RJ) usada para incinerar corpos de desaparecidos políticos na ditadura empresarial-militar no país

O filme apresenta a antiga Usina Cambahyba a partir de uma perspectiva inédita ao investigar o local como parte da estrutura repressiva consolidada no Rio de Janeiro. “É um documentário que fala sobre essa engrenagem dos bastidores, dos porões da ditadura, e também do papel do empresariado na sustentação da ditadura”, diz ao Brasil de Fato o diretor Marcelo Fonseca.

Longe da capital, a Cambahyba se conectava à engrenagem de diferentes espaços de tortura: o DOI-CODI, localizado na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca; o DOPS, no centro do Rio de Janeiro; e a Casa da Morte, em Petrópolis.

A obra investiga as relações entre os proprietários da usina e os integrantes dos órgãos de repressão, buscando compreender como estruturas privadas foram colocadas à disposição da violência de Estado. Heli Ribeiro Gomes, proprietário da Usina Cambahyba, foi deputado federal e vice-governador do antigo Estado da Guanabara. Além de ser um empresário de grande influência no Norte Fluminense.

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A Comissão Nacional da Verdade (CNV) revelou que ao menos 12 corpos foram incinerados nos fornos da usina, dentre eles, Fernando Santa Cruz e Luís Maranhão, desaparecidos em 1974. O ex-delegado do DOI-CODI, Cláudio Guerra, foi condenado pela Justiça Federal de Campos em 2023 após confessar a ocultação de cadáveres na Cambahyba, levados principalmente da Casa da Morte.

Luta de classes

O documentário busca revelar uma estrutura que ultrapassava os centros de repressão já conhecidos na capital, explica Marcelo Fonseca, e expor a participação do empresariado no regime. “O Heli Ribeiro Gomes, usineiro muito rico, cedeu seus fornos em troca de financiamento para o governo. Assim como o Mário Lodder, que cedeu uma de suas casas ao serviço da tortura militar em Petrópolis”, pontua. 

A produção também conta com análises do historiador Lucas Pedretti. Para o pesquisador, o caso da usina é emblemático porque sintetiza que a violência de Estado na ditadura militar já ocorria contra a população marginalizada. O pesquisador destaca que o ex-membro do DOI-CODI Cláudio Guerra diz explicitamente em seu depoimento ao Ministério Público que a eliminação de corpos na usina era praticada antes “contra bandidos comuns da região”.

Antiga usina Cambahyba era usada para desaparecer corpos de opositores políticos
Antiga usina Cambahyba era usada para desaparecer corpos de opositores políticos | Crédito: Lucas Santo/Outrar Produções

“Isso mostra a retroalimentação da repressão política contra os opositores da ditadura militar de uma violência racializada, contra as populações periféricas, numa cidade como Campos, de passado escravocrata extremamente marcado”, diz Pedretti. 

A história da Cambahyba com a ditadura evidencia ainda o envolvimento direto dos empresários no aparato repressivo do regime, no que o historiador afirma ser a “dimensão de classe da ditadura”. 

“A gente tem que pensar por que um empresário se dispõe a ceder a sua usina para esse fim. Qual o interesse, o que ele ganha com isso? De alguma maneira, a gente consegue conectar esses dois pontos, imaginando o que ele consegue ganhar ao ceder o forno da usina de cana dele para incinerar os corpos, tanto dos chamados pelo Claudio Guerra de bandidos comuns, quanto por essas vítimas da repressão política. Ele [Helio] ganha a possibilidade de assegurar o controle social daquela população, ele ganha a possibilidade de assegurar os seus privilégios de classe, de raça, essa dimensão também é muito importante de ressaltar”, pontua.

Para o diretor Marcelo Fonseca, o documentário soma na luta por reparação, memória e justiça, mas também propõe uma reflexão sobre a repressão direcionada à classe trabalhadora. “Não é à toa que a ditadura invade os sindicatos, prende líderes sindicais. O foco [da ditadura] sempre foram pessoas que estavam lutando por um trabalho mais digno também. Então, todo o mundo era entendido como um opositor político. Um dos mortos, o Wilson Silva, foi preso porque fez um panfleto sobre melhores condições de trabalho. E esse panfleto foi entendido como subversivo. Acho que a obra também atualiza a ditadura nesse lugar que também foi uma tentativa de barrar a luta de classes”, diz. 

Desaparecido político, Wilson Silva nunca teve o corpo encontrado
Desaparecido político, Wilson Silva nunca teve o corpo encontrado | Crédito: Outrar Produções

Lançamento

A produção contou com o apoio do Assentamento Cícero Guedes, localizado em parte do terreno da antiga Usina Cambahyba, formalizado pelo Incra em 2023 após décadas de luta por reforma agrária. Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) acompanharam visitas técnicas e as gravações realizadas no território. 

A primeira exibição de Usina Cambahyba: Das Cinzas da Tortura à Terra Prometida será no dia 19 de agosto, em Macaé, no Teatro SESI. Outras datas de exibições devem ser divulgadas em breve. Uma delas está prevista para o mês de setembro no Cine Darcy, em Campos.

Produzido pela Outrar Produções, o documentário foi desenvolvido com a participação de pesquisadores vinculados à Universidade Federal Fluminense (UFF) e à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf).

A obra reúne registros da antiga usina, imagens do Dops, tomadas externas e aéreas do antigo DOI-CODI e registros da Casa da Morte, em Petrópolis. 

Editado por: Vivian Virissimo

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