Contra o genocídio

‘Israel hoje é um Estado fascista’, denuncia jornalista israelense na Flipei

Gideon Levy participou da conferência 'Do Rio ao Mar: relatos de uma catástrofe', na abertura da 8ª Flipei

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O jornalista israelense Gideon Levy na Conferência “Do Rio ao Mar: relatos de uma catástrofee”, na abertura da 8ª Flipei.
O jornalista israelense Gideon Levy na Conferência “Do Rio ao Mar: relatos de uma catástrofee”, na abertura da 8ª Flipei | Crédito: @tais_noaqui/Divulgação

Depois da invasão e do ataque israelense à Faixa de Gaza em 27 de outubro de 2023, não há “mais inocentes” em Israel, que se tornou um Estado fascista. Essa é a conclusão do jornalista israelense Gideon Levy, que participou da conferência “Do Rio ao Mar: relatos de uma catástrofe”, na abertura da 8ª Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), na quarta-feira (5).

“O que acontece em Israel é uma barbárie. O Estado de Israel hoje é fascista. É horrível”, disse Levy, que é colunista do jornal israelense Haaretz desde 1982 e cobre há décadas o conflito entre Israel e a Palestina.

Para o jornalista, o dia 27 de outubro de 2023 intensificou o preconceito e radicalizou ainda mais a população israelense. “O que aconteceu em 27 de outubro é que não há mais inocentes, não há mais moralidade, não há mais humanidade. A maior parte dos israelenses, se não todos, realmente acredita que não há inocentes entre os palestinos”, afirma.

“A maioria da população de Israel não vê os palestinos como humanos. Para negar, você tem que demonizar a Palestina. ‘Todo palestino quer jogar um judeu no mar’, dizem. Isso a gente aprende desde criança”, relata.

Nos últimos três anos, houve diversas manifestações com milhares de pessoas nas ruas, mas que reivindicavam duas questões apenas: a libertação dos reféns israelenses e a saída do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Mas não se questiona a guerra em si”, destacou o jornalista.

Para Levy, a saída do primeiro-ministro não resolveria a questão, já que os sionistas continuarão no poder. “Tudo que está hoje vai continuar depois que ele passar. E, sim, vai continuar o apoio à guerra em Gaza”, explica.

Além disso, para Levy, o conflito não afetou a estrutura de poder israelense. “A gente poderia esperar, ao longo desses três anos, alguma trinca nesse poder, mas nada disso, ele ainda está sólido”, disse Levy que denuncia ainda o que chama de “papel criminoso” da mídia do país, que só apresenta a versão de Israel. “É uma mídia livre, que poderia ir à Gaza, mas não vai”, denuncia.

O jornalista afirma que a população israelense está vivendo uma negação do que está acontecendo no país, semelhante ao representado no filme “Zona de Interesse”, dirigido pelo cineasta Jonathan Glazer, que conta a história de uma família alemã, ligada ao exército nazista, que mora ao lado do campo de concentração de Auschwitz e vive uma vida “normal”, entre os gritos abafados dos prisioneiros judeus.

“As pessoas continuam vivendo normalmente a uma hora de viagem de Gaza, uma hora de casa. E continuam suas vidas felizes, muito orgulhosas do que está acontecendo. Até com um certo medo de ataques do Irã ou do Líbano, mas eles não se importam muito com a violência”, relata Levy, destacando que sua própria conscientização sobre a barbárie sionista foi um processo longo, demorado e doloroso.

O jornalista também destacou a invasão dos colonos israelenses na Cisjordânia, local que visita semanalmente. “Essa é uma das grandes mudanças que está acontecendo. Se você teve a oportunidade de conhecer a Cisjordânia anos atrás e for hoje, vai perceber a destruição”, diz.

Os colonos, após o genocídio em Gaza, têm sido encorajados a invadir o território. “Imagine que um palestino da Cisjordânia pode abrir a janela e ver os colonos destruírem a casa deles e não pode fazer nada. Ele pode abrir a janela e ver casas incendiadas, árvores [oliveiras] centenárias sendo destruídas, e não pode fazer. Se reagir, ele pode ser levado preso”, denuncia.

Por isso, Levy defende que o papel da comunidade internacional deveria ser proteger Cisjordânia, “que não pode continuar assim, mas nenhum país ou ninguém pode proteger atualmente”.

O jornalista israelense também faz duras críticas ao apoio internacional pela criação do Estado palestino, que, para ele, é só um discurso. “É muito bom para seus países dizer que estão fazendo alguma coisa. É muito bom no gogó, para mostrar a opinião pública: ‘Olha o que estamos fazendo para a Palestina’. Trezentos e cinquenta (sic) países reconhecem a Palestina, mas a vida de Mohamed, em Hebron, não melhora”, afirma.

“O problema é que esse barco [dos dois países] já atrasou. Não dá para trazer de volta. Não haverá como tirar milhares de colonos violentos de lá. Então podemos continuar falando sobre o Estado, mas aí a gente está fazendo o jogo da força de ocupação, não é realista”, complementa.

Antes da conversa com Levy, a ativista Isadora Szklo apresentou as ideias e propostas do coletivo Vozes Judaicas por Libertação, criado no Brasil em 2023, para reunir judeus antissionistas. O coletivo se define como sendo de “não ocupação, não ao genocídio e não ao atacar a Palestina”.

“A missão do grupo é construir uma comunidade judaica que rompa com o ciclo de trauma, desejo de punir e vingança, ideias que têm organizado a comunidade nos últimos 80 anos”, explicou ela.

Szklo afirma que o coletivo é uma forma de mostrar outras posições, além do posicionamento muito radicalizado e de extrema-direita da pequena comunidade judaica no Brasil, organizada a partir do sionismo.

Editado por: Rodrigo Gomes

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