A disputa de ideias, cultura e comunicação ocupou, nesta sexta-feira (7), um lugar central nos debates da IV Assembleia Continental da Alba Movimentos, que reúne, em Havana (Cuba), movimentos populares de diferentes países do continente.
O painel “O socialismo na batalha ideológica e cultural” reuniu o diretor da Casa de las Américas, Abel Prieto; a jornalista e representante do Instituto Nacional de Formação Política do Morena, Alina Duarte; e Nina Fideles, diretora do Brasil de Fato, para discutir os desafios de construir ferramentas para a disputa hegemônica e fortalecer a organização popular.
Diante de representantes de movimentos de todo o continente, as intervenções convergiram ao apontar que a comunicação não pode ser pensada como uma tarefa secundária na disputa política. Pelo contrário, constitui um terreno estratégico no qual se enfrentam projetos de sociedade, constroem-se sentidos e formam-se sujeitos políticos.
“A coletividade das ideias”
Nina Fideles abordou essa disputa como uma batalha contra a concentração dos meios de comunicação e apontou que a estrutura midiática do Brasil reproduz, em boa medida, a mesma lógica de poder que historicamente concentrou a propriedade da terra e expulsou trabalhadores rurais e camponeses de seus territórios.
“No Brasil, 70% dos meios de comunicação continuam nas mãos de cinco grandes famílias, que historicamente são as mesmas que expulsaram trabalhadores rurais e camponeses de suas terras e concentraram a propriedade da terra”, afirmou.
Disputar os meios de comunicação, sustentou, também faz parte de um projeto voltado à transformação das pessoas e das relações sociais. “Não se trata apenas de distribuir os canais; também precisamos formar quadros políticos e técnicos em comunicação para fazer isso e considerar as condições materiais para levá-lo adiante.”

Ao resgatar os processos coletivos dos movimentos populares diante dos desafios impostos pelas lógicas de hiperindividualização e narcisismo, Fideles afirmou: “Nós temos que tomar cuidado com os falsos heróis da comunicação, justamente pela centralidade que a comunicação tem hoje”.
A diretora do Brasil de Fato destacou que essa centralidade obriga a olhar para além da produção de conteúdos e a questionar o percurso que eles fazem e seus efeitos: quem os recebe, quais estímulos geram e quais transformações produzem. Nesse sentido, ressaltou a necessidade de diferenciar audiência, alcance e impacto político, tendo como referência permanente o objetivo político que orienta a comunicação.
Também defendeu que os movimentos apostem na articulação entre profissionalismo e organicidade com as causas populares. Nina recuperou o pensamento de Paulo Freire para explicar a relação entre comunicação e formação política.
“Paulo Freire dizia que não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’; é necessário compreender qual é a posição que Eva ocupa em seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem obtém os lucros desse trabalho. Assim como Paulo Freire tinha como objetivo alfabetizar formando sujeitos críticos, nós devemos compreender a comunicação como um processo de construção de sujeitos.”
“Pretendem que naturalizemos a barbárie”
Abel Prieto situou a disputa no terreno da cultura. Para o escritor, também é nesse campo que se desenvolve uma batalha política decisiva, na medida em que o capitalismo é apresentado como “uma ordem natural vinculada ao progresso e à prosperidade”, enquanto se tenta disseminar a ideia de que “o socialismo é um projeto fracassado e sem sentido”.
Nesse cenário, Prieto expressou sua preocupação com a forma como a extrema direita tem assumido a batalha cultural, a ponto de estudar intelectuais como Gramsci “inclusive com mais rigor do que setores da própria esquerda”.
“Eu acredito que, sim, é preciso travar a batalha cultural. Vivemos uma conjuntura em que a batalha cultural é um aspecto vital da luta política. Temos que disputar com nossas ideias e nossas verdades. Temos que encontrar uma maneira de abrir fissuras nessa ofensiva massiva destinada a idiotizar a população. É uma batalha muito dura, mas uma batalha que temos que vencer”, afirmou.
Tomando como exemplo o caso de Cuba, que sofre um “genocídio silencioso”, destacou a necessidade de que organizações e movimentos se articulem para desmontar as mentiras e distorções construídas contra “as causas justas”, que precisam enfrentar um verdadeiro “dilúvio” de fake news, manipulações e falsidades utilizadas para legitimar a barbárie.

A comunicação como organizadora coletiva
A jornalista xochimilca do Instituto Nacional de Formação Política do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), do México, Alina Duarte, insistiu na importância de que aqueles que integram os movimentos populares assumam com profissionalismo o debate de ideias e a comunicação, assim como qualquer outra tarefa que desempenhem.
Duarte sustentou que a batalha de ideias exige precisão e uma comunicação capaz de orientar a prática política da militância. “A comunicação deve servir para ampliar e levar o debate a todos os espaços e territórios, onde quer que estejamos”, afirmou.
Um exercício que, segundo ela, precisa se apoiar em uma memória histórica que permita compreender de onde se vem, em uma leitura clara do presente e, a partir daí, definir para onde avançar.
“Falta massificar o trabalho de comunicação dentro das bases, dentro da nossa militância, como uma forma de disputar esse senso comum, em que as direitas estão muito à nossa frente”, afirmou, ao apontar um dos desafios para disputar um senso comum no qual, segundo considerou, as direitas levam vantagem.
Em sua argumentação, recuperou experiências históricas nas quais os meios de comunicação foram concebidos como instrumentos vinculados a grandes debates coletivos. “Em algum momento, tivemos esses grandes meios de comunicação que eram produto dos grandes debates coletivos”, lembrou.
A partir dessa ideia, mencionou o Iskra e o Pravda, vinculados à Revolução Russa, e também lembrou o Correo del Orinoco, impulsionado por Bolívar, tradição na qual situou o Patria, jornal fundado por José Martí.
“O que temos agora? Temos a monetização clara das ideias. Os influenciadores vivem de monetizar ideias individuais e fazê-las passar por coletivas”, afirmou.
Como autocrítica, apontou que as organizações populares deixaram de construir espaços coletivos de debate junto a meios de comunicação capazes de orientar e organizar a militância.
“Nossas organizações muitas vezes renunciaram a ter espaços de debate coletivos, com seus meios de comunicação coletivos que orientem, organizem nessa ideia leninista, porque ele dizia que o jornal não estava ali apenas para informar, mas, sobretudo, era um grande organizador; que organize, motive a militância e construa o mundo que queremos.”
O desafio, segundo Duarte, é recuperar essa dimensão coletiva da comunicação em um cenário que exige revisar permanentemente as ferramentas políticas e organizativas.
“Todos os dias temos um novo horizonte e, nesse sentido, é urgente estar à altura do momento histórico, reunir-se e pensar que a revolução vamos construir somente entre todos e todas, que aqui ninguém se salva sozinho.”
