A Amazônia registrou a menor área sob alertas de desmatamento da série atual do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), iniciada em 2016. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, foram 2.874,38 km² sob alerta, uma redução de 36,87% em relação ao ciclo anterior, quando o número ficou em cerca de 4.495 km².
Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nesta sexta-feira (7). O Deter utiliza imagens de satélite para identificar alterações na cobertura florestal em tempo quase real e orientar as ações de fiscalização. Os números, no entanto, não correspondem à taxa oficial de desmatamento, calculada por outro sistema do Inpe, o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).
O resultado aumenta a expectativa de que a taxa oficial também apresente redução. Para o Greenpeace Brasil, caso os dados consolidados do Prodes confirmem a tendência apontada pelo Deter, o país poderá registrar uma taxa inferior aos 4.571 km² de 2012 e alcançar o menor patamar desde o início do monitoramento por satélite.
Ana Clis Ferreira, porta-voz da frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, avalia que os números colocam o país mais perto de zerar o desmatamento, mas chama atenção para o atraso dessa trajetória. O patamar que o Brasil pode alcançar já havia sido estabelecido pelo próprio governo como compromisso climático para 2020.
Para a ambientalista, o cenário poderia ser diferente se o país não tivesse atravessado um período de enfraquecimento da agenda socioambiental, marcado por retrocessos na legislação e nas políticas de proteção das florestas.
Fiscalização remota
O Observatório do Clima também associa a queda à retomada de políticas de controle do desmatamento e destaca ações de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), entre elas os embargos remotos por satélite. Segundo dados do órgão citados pela rede, 815 mil hectares foram embargados remotamente no Brasil desde 2023. Apenas em 2026, 350 mil hectares de áreas com desmatamento irregular foram embargados na Amazônia.
“Os números apresentados hoje são históricos, fruto de políticas sérias de proteção ambiental, e provam que é plenamente possível cumprir o compromisso assumido pelo país de zerar e reverter o desmatamento até 2030”, afirmou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.
Nos quatro anos do atual governo Lula, a área sob alertas de desmatamento na Amazônia somou 19.642 km², segundo cálculo do Observatório com base nos dados do Deter. O número representa uma redução de 41% em relação aos 33,4 mil km² registrados entre 2019 e 2022.
A rede chama atenção, porém, para iniciativas em tramitação no Congresso que, em sua avaliação, podem enfraquecer a capacidade de fiscalização ambiental. Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que proíbe os embargos remotos, medida destacada pelo Observatório entre os instrumentos utilizados pelo Ibama no combate ao desmatamento. A proposta tramita no Senado.
O Observatório também aponta projetos que podem reduzir a capacidade de atuação do Ibama, flexibilizar regras de proteção à vegetação nativa, diminuir a proteção de unidades de conservação e anistiar a grilagem de terras públicas.
“A redução dos índices de desmatamento é o maior legado ambiental do governo Lula e uma das maiores contribuições dada à agenda de clima nos últimos anos. Porém, o fim da destruição de nossas florestas só será possível com uma grande mudança no Parlamento, além de equacionar contradições dentro do próprio governo”, declarou Astrini.
O Greenpeace defende que o momento seja usado para acelerar a trajetória rumo ao desmatamento zero. Entre as medidas apontadas pela organização estão a eliminação do desmatamento das cadeias produtivas, sobretudo de grãos e gado; maior rigor sobre os fluxos financeiros que permitem a chegada de crédito a infratores ambientais; e planejamento de infraestrutura para a Amazônia que considere os impactos socioambientais e evite a abertura de novas frentes de desmatamento e degradação.
Ferreira alerta, no entanto, que a trajetória de redução não está garantida. Entre as ameaças apontadas estão os retrocessos na proteção ambiental aprovados pelo Congresso e a possibilidade de um Super El Niño intensificar a seca e o risco de incêndios florestais na Amazônia no segundo semestre.
Lula diz que enviará gráficos a Trump
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanhou a divulgação dos dados na sede do Inpe, em São José dos Campos (SP), na sexta-feira (7), e relacionou a redução dos alertas à disputa com o governo dos Estados Unidos em torno das novas tarifas impostas a produtos brasileiros.
“Depois eu preciso colocar aqueles gráficos que vocês colocaram, que eu quero tirar uma fotografia para mandar para o Trump”, afirmou Lula, em referência ao presidente estadunidense, Donald Trump, e aos gráficos apresentados pelo Inpe.
O desmatamento esteve entre as justificativas apresentadas pelo governo dos Estados Unidos para a imposição das novas tarifas. Lula contestou o argumento e afirmou que ele “não é verdadeiro outra vez”.
“Ninguém, nem os Estados Unidos, leva a sério a questão climática como o Brasil”, declarou o presidente.
Lula afirmou ainda que foi tratado com respeito durante encontro com Trump em maio e disse que os dois governos haviam combinado um prazo de 30 dias para buscar uma solução para as divergências comerciais. “Não é possível trabalhar com base em desinformações. Nós concordamos com isso”, disse.
