O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, rejeitou o plano de 15 pontos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para Gaza, afirmando que as forças israelenses não irão se retirar do território até que o Hamas esteja “verdadeiramente desarmado”.
“Israel rejeita o documento de 15 pontos”, afirmou em uma reunião de gabinete, enfatizando que o Hamas deve entregar todas as suas armas antes de qualquer recuo. Com essa posição, ele se distancia do presidente estadunidense, numa tentativa de consolidar sua base eleitoral antes das eleições nacionais de 27 de outubro, a primeira desde a ação do Hamas em 7 de outubro de 2023.
No final de julho, Trump anunciou um avanço no acordo de cessar-fogo liderado pelos Estados Unidos, afirmando que o Hamas e outros grupos armados em Gaza aceitaram um plano gradual segundo o qual entregariam suas armas a um novo órgão governamental palestino, e Israel começaria a retirar suas tropas em paralelo ao desarmamento.
Pressionado por sua base de direita às vésperas das eleições, Netanyahu confirmou sua posição, reiterada diversas vezes, de oposição ao plano.
Mediação estadunidense
Em 30 de julho, o Conselho de Paz liderado pelos EUA propôs um roteiro de 15 pontos para Gaza, detalhando uma estrutura gradual e condicional para o desarmamento e a reconstrução no enclave costeiro devastado pela guerra.
O plano exige que o Hamas se desarme em troca da retirada militar completa de Israel e da transição do governo para um Comitê Nacional Palestino independente, apoiado por uma força de segurança internacional.
O Conselho de Paz, criado por Trump em outubro, com ele atuando como presidente vitalício, é liderado pelo governo dos EUA. A Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) o designa como o órgão responsável por supervisionar o plano de paz para Gaza.
Trump afirmou que o acordo seria implementado em etapas, com a retirada das forças israelenses à medida que o processo de desarmamento avançasse.
Apesar dessa estruturação, desafios permanecem. O Hamas condiciona a adesão ao fim das ações genocidas de Israel.
Um membro da delegação de negociação do Hamas afirmou que a implementação do acordo pelo grupo dependerá do cumprimento dos compromissos de Israel.
No entanto, o Conselho de Paz afirmou, no início desta semana, que a retirada israelense de Gaza só ocorrerá após a conclusão do desarmamento do Hamas.
Ocupação e massacre
Israel matou mais de 73,3 mil palestinos em Gaza desde o início de sua escalada genocida, em outubro de 2023. E, desde que concordou com um “cessar-fogo” mediado pelos EUA com o Hamas, em outubro de 2025, continuou realizando ataques em Gaza, matando mais de 1,2 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
A Cisjordânia ocupada tem sido palco de violência quase diária envolvendo tropas israelenses e colonos desde o início da guerra em outubro de 2023.
Israel ocupa a Cisjordânia desde 1967, mas, nos últimos anos, o número de assentamentos israelenses no território palestino – que são ilegais, segundo o direito internacional – aumentou drasticamente.
Os argumentos de Netanyahu
O primeiro-ministro israelense afirmou que o exército israelense “não realizará nenhuma retirada até que o Hamas esteja genuinamente desarmado e continuará a frustrar as ameaças contra nossas forças e nossos cidadãos”.
Netanyahu acrescentou que Israel estava em diálogo com Washington sobre as preocupações em relação ao plano.
“Eles têm ideias; algumas são aceitáveis para nós, outras não, e sabemos como defender nossa posição nessas questões”, disse.
O líder israelense, que deverá enfrentar uma difícil eleição nacional em outubro deste ano, com sucessivas pesquisas indicando que ele está a caminho da derrota, afirmou que o Hamas deve entregar todas as suas armas.
A reação dos palestinos
De acordo com a repórter Nour Odeh, da rede Al Jazeera, na Cisjordânia ocupada, as discussões em torno do plano de 15 pontos, incluindo o desarmamento do Hamas e a possível retirada de Israel, “são extremamente controversas para o governo de direita”. “Parece que Netanyahu, tão perto das eleições, apertou o botão de reiniciar, dizendo que nada disso acontecerá sob seu comando.”
O recuo de Netanyahu é extremamente problemático para o Conselho de Paz e para os mediadores que têm trabalhado há meses para tentar encontrar uma forma de concretizar o desarmamento do Hamas e fazer com que Israel se comprometa com uma retirada de Gaza, completa.
No entanto, a maioria das pessoas no enclave costeiro devastado pela guerra “esperava” que Israel rejeitasse a proposta. “A única preocupação das pessoas neste momento é que isso esteja se traduzindo em maior incerteza”, relatou Hani Mahmoud, repórter da Al Jazeera em Gaza.
“Existem elementos importantes que faziam parte do plano em termos de segurança: a retirada israelense da área que vem ocupando nos últimos anos em Gaza, conhecida como ‘Linha Amarela’, o desarmamento do Hamas, bem como a entrada de forças internacionais de estabilização. Agora, a rejeição total coloca em séria dúvida a sequência e as etapas para a conclusão desse plano. Isso se traduz na ausência de um fim claro para as hostilidades e guerras.”

Acordo para barrar o genocídio
O analista político e ex-conselheiro da equipe de negociação palestina Xavier Abu Eid afirma que o Conselho de Paz e a Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU foram aceitos no final do ano passado porque, na época, argumentava-se que eram a única maneira de acabar com o genocídio israelense em Gaza.
“Mas ficou muito claro desde o início que o plano de 20 pontos do presidente Trump e o plano de desarmamento e implementação de 15 pontos que se seguiu visavam mais atender aos interesses israelenses do que ao direito palestino à autodeterminação”, afirmou.
“Justiça para os palestinos é algo sobre o qual ninguém fala. Portanto, certamente, essa continua sendo uma posição”, disse ele, acrescentando que é improvável que Trump fique satisfeito com a rejeição de Netanyahu.
“Mas, ao mesmo tempo, Trump nunca sequer fingiu pressionar por qualquer tipo de medida de responsabilização contra Netanyahu por violar até mesmo os seus próprios acordos”, disse o analista.
Em desacordo com o povo de Israel
O analista israelense Dan Perry afirmou que a decisão de Netanyahu contra o plano proposto para Gaza está “em desacordo com o que o povo de Israel geralmente desejaria, se entendesse corretamente o que está acontecendo.
“Não sou ingênuo em relação ao Hamas. Mas mesmo que exista a ideia de um acordo declaratório para o desarmamento, isso deve ser recebido com muita clareza”, disse Perry, ex-chefe da agência de notícias Associated Press na Europa, África e Oriente Médio, à Al Jazeera.
“Continuo ouvindo falar de uma troca entre as exigências de segurança de Israel e as necessidades óbvias do povo palestino, a necessidade de aliviar e remediar o desastre humanitário em Gaza, mas essas duas questões não são incompatíveis.”
Grande parte da sociedade israelense apoiou a guerra genocida contra Gaza após o ataque de 7 de outubro ao sul de Israel, assim como a guerra contra o Líbano e o Irã.
Alon Pinkas, ex-diplomata israelense, diz que Netanyahu precisa de “uma guerra eterna”.
“Essa rejeição israelense do plano para Gaza deve ser vista inteiramente no contexto das próximas eleições israelenses, em 27 de outubro”, disse.
Pinkas aponta que Netanyahu fez um “cálculo de que isso não apresenta riscos”, “que ele supostamente pode desafiar Trump porque Trump não se importa o suficiente, por causa da sequência, porque o Hamas ainda não se desarmou, porque ele pode sair impune”.
“E tudo isso se resume à guerra sem fim e às eleições”, conclui.
*Com informações da AFP e Al Jazeera.
