O Rio Grande do Sul chega às eleições de outubro registrando quedas expressivas em crimes como roubo, latrocínio e furto, segundo dados apresentados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-RS). No mesmo período, o número de feminicídios segue em trajetória oposta.
Levantamento da própria SSP-RS aponta 41 mulheres mortas por razões de gênero entre janeiro e junho deste ano, contra 36 no mesmo intervalo de 2025, alta de 14%. É o maior número para um primeiro semestre desde 2023, quando o estado contabilizou 45 casos no período.
Um levantamento paralelo da organização não governamental Lupa Feminista, citado por parlamentares da Assembleia Legislativa, contabiliza 50 feminicídios no mesmo semestre. A diferença entre os números decorre de metodologias distintas de contabilização, mas todos os levantamentos indicam o mesmo movimento: o agravamento da violência letal contra mulheres no estado.
É nesse cenário que sete candidaturas disputam o governo do Rio Grande do Sul neste ano, após dois mandatos consecutivos de Eduardo Leite (PSD), que não pode concorrer à reeleição por vedação constitucional. As convenções partidárias que oficializaram os nomes ocorreram entre 20 de julho e 5 de agosto, e o registro das candidaturas no Tribunal Regional Eleitoral deve ser concluído até 15 de agosto. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro.
O que dizem os números
Além dos dados de curto prazo, um retrato mais amplo da violência de gênero no estado foi apresentado em fevereiro pela Comissão Externa da Câmara dos Deputados que investigou os feminicídios ocorridos no Rio Grande do Sul. O relatório, relatado pela deputada federal Maria do Rosário (PT), reuniu 95 propostas voltadas a reforçar a rede de proteção às mulheres gaúchas.
Segundo o documento, 70% dos municípios do estado não possuem nenhum equipamento de proteção à vida das mulheres, o que obriga vítimas a percorrer dezenas de quilômetros até uma delegacia especializada para registrar denúncias. A comissão também constatou que a maioria dos casos analisados envolvia mulheres que não tinham qualquer medida protetiva de urgência ativa no momento do crime.
Outro levantamento, da Comissão Externa, mostrou que 85% dos feminicídios registrados em 2025 ocorreram no contexto de relações íntimas, cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas, e que mais de 77% dos crimes aconteceram dentro da própria residência da mulher assassinada.
Juliana Brizola: um plano de doze propostas
A pré-candidata Juliana Brizola (PDT), que lidera as pesquisas de intenção de voto e reúne o apoio de uma coligação de oito partidos, PDT, PT, Psol, PCdoB, PSB, PV, Rede e Avante, tem apresentado o enfrentamento ao feminicídio como um dos eixos centrais de sua campanha. Durante agenda em Farroupilha, na Serra Gaúcha, a candidata afirmou que o enfrentamento aos feminicídios deve ser tratado como prioridade e defendeu a ampliação de políticas de prevenção, proteção e acompanhamento de mulheres em situação de risco.
O tema também apareceu no manifesto de lançamento da frente político-partidária que sustenta sua candidatura, batizada de “Brizola Vive”. No texto, a coligação afirma que o Rio Grande do Sul se tornou o estado brasileiro onde o feminicídio mais cresce, ao lado de críticas à queda nos indicadores de educação e às filas na saúde pública.
A campanha de Juliana Brizola apresenta um conjunto de 12 propostas específicas para o combate aos feminicídios, reunidas no que chama de Plano Mulher Gaúcha Segura, segundo reportagem do jornal Sul21. Entre as medidas está a criação de um sistema integrado de dados entre prefeituras e o governo do estado, além de um programa de prevenção voltado a escolas e comunidades.
A candidata também citou a criação de um programa batizado de Protetoras, inspirado em experiência do Reino Unido, no qual profissionais fariam acompanhamento ativo e permanente de mulheres em situação de risco para apoiar a reconstrução de suas vidas.
O plano de governo completo da candidatura, construído a partir de 35 grupos temáticos e da participação de 656 pessoas em plenárias públicas, prevê o enfrentamento à violência contra as mulheres como uma das prioridades do eixo social, ao lado do fortalecimento da educação, da saúde e da assistência social. O documento final deve ser protocolado no Tribunal Regional Eleitoral no momento do registro oficial da candidatura.
Gabriel Souza e a continuidade do programa estadual
Vice-governador do Rio Grande do Sul desde 2023 e candidato pelo MDB com o apoio do governador Eduardo Leite, Gabriel Souza defende a manutenção e a ampliação das políticas do atual governo. Em encontro promovido pelo Fórum de Vice-Governadores no Conselho Nacional de Justiça, Gabriel Souza destacou o programa RS Seguro, que monitora 23 municípios responsáveis por 80% dos crimes registrados no estado, mas reconheceu que o feminicídio segue sendo um desafio por se tratar, segundo ele, de um crime que costuma ocorrer dentro do ambiente familiar.
O candidato também mencionou outras iniciativas em curso na gestão estadual, como o Comitê EmFrente Mulher, que concede selo a empresas que desenvolvem ações continuadas de valorização das mulheres e enfrentamento à violência de gênero.
No discurso em que foi oficializado candidato pelo MDB, Gabriel Souza incluiu o combate à criminalidade contra as mulheres entre as prioridades de um eventual governo, ao lado da redução das filas do Sistema Único de Saúde e de melhorias na aprendizagem escolar.
Luciano Zucco: prioridade ao combate a facções
Candidato do PL com apoio do Novo e de outros partidos alinhados ao bolsonarismo, o deputado federal Luciano Zucco tem concentrado seu discurso de segurança pública no combate a facções criminosas. O candidato reconhece que o Rio Grande do Sul acompanhou a queda nacional da criminalidade, mas ponderou que isso não significa que a situação esteja resolvida.
A campanha de Zucco foi alvo de repercussão negativa relacionada ao tema da violência contra mulheres depois que o candidato apareceu, durante ato de oficialização de sua candidatura, usando um adesivo com o rosto riscado da candidata ao Senado Manuela d’Ávila (Psol).
Em nota nas redes sociais, Manuela classificou o episódio como um novo caso de violência política de gênero e afirmou viver em um estado que é campeão de feminicídios de mulheres que haviam buscado proteção. Até o momento, a campanha de Zucco não apresentou um programa específico e detalhado de enfrentamento ao feminicídio comparável aos divulgados por outras candidaturas.
Marcelo Maranata, Priscila Voigt e Rejane Oliveira
O ex-prefeito de Guaíba Marcelo Maranata, candidato da federação PSDB/Cidadania, não apresentou publicamente, até o momento, propostas específicas voltadas ao enfrentamento do feminicídio, tema que não apareceu com destaque nas falas de lançamento de sua candidatura, concentradas nas enchentes de 2024 e na crítica à polarização política.
Priscila Voigt, candidata da Unidade Popular (UP), tem trajetória de atuação junto a mulheres em situação de violência. Antes de ser lançada candidata, ela atuou na coordenação da Casa de Referência Mulheres Mirabal, em Porto Alegre, espaço voltado ao atendimento e acolhimento de mulheres, e também passou pelo Sistema Único de Saúde.
Durante o evento em que foi confirmada como candidata ao Palácio Piratini, com Naf Nascimento, também ligada à Casa Mirabal, como candidata a vice-governadora, Priscila Voigt defendeu como eixos de campanha a valorização dos serviços públicos e a construção de um projeto político baseado nas demandas populares do estado, sem detalhar, até o momento, um plano específico de enfrentamento ao feminicídio.
A candidata do PSTU, Rejane Oliveira, professora da rede pública e ex-presidente do sindicato estadual dos professores, o Cpers, apresentou o tema como parte do manifesto de lançamento de sua pré-candidatura. O documento do partido defende a criação de um orçamento de emergência para o combate ao feminicídio, ao lado de propostas como a desmilitarização da Brigada Militar e a criação de uma força de segurança pública com outro modelo institucional, em um texto que também critica a concentração de patrimônio entre os bilionários do estado e as políticas de privatização do governo Leite.
O calendário eleitoral
Até o registro definitivo das candidaturas na Justiça Eleitoral, previsto para 15 de agosto, os planos de governo apresentados pelos candidatos ainda podem ser detalhados ou alterados. Os documentos completos, quando protocolados, devem ficar disponíveis para consulta pública no sistema DivulgaCandContas do Tribunal Superior Eleitoral. A votação para o governo do Rio Grande do Sul, que este ano também definirá a Presidência da República, o Senado e as bancadas federal e estadual, ocorre em primeiro turno no dia 4 de outubro.
