Em 8 de novembro de 1895, o físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen descobriu os raios X ao realizar experimentos com tubos de Crookes. O achado inaugurou uma nova era na medicina ao permitir observar estruturas internas do corpo humano sem a necessidade de procedimentos invasivos.
Mais de um século depois, a medicina diagnóstica atravessa outra transformação. A inteligência artificial (IA) começa a ocupar espaço em diferentes etapas dos exames de imagem, desde a identificação de possíveis lesões até a comparação entre exames realizados em diferentes períodos.
Se os raios X ampliaram a capacidade de enxergar o interior do corpo humano, os algoritmos passam agora a transformar a maneira como essas imagens são analisadas. Na radiologia, área que trabalha diretamente com padrões de imagem, o avanço tem sido particularmente rápido.
Para o radiologista Henrique Werlang, médico e sócio-diretor da Mediscan Medicina Diagnóstica, em Porto Alegre, a radiologia está entre as áreas da medicina em que a inteligência artificial mais avançou nos últimos anos. “Na radiologia, especificamente dentro da medicina, é uma das áreas, eu acho, que a inteligência artificial mais evolui, mais rapidamente”, afirma.
Na prática, explica o médico, as ferramentas ainda funcionam principalmente como apoio ao profissional. Os sistemas avaliam imagens, apontam possíveis lesões ou diagnósticos e permitem que o radiologista faça a conferência antes de elaborar o laudo.
A tecnologia também pode reduzir o tempo de análise. “Isso agiliza bastante pelo fato de a gente poder fazer uma análise detalhada pela inteligência artificial e depois apenas uma revisão em cima dessa inteligência artificial”, explica Werlang.
Segundo ele, o ganho pode ocorrer tanto na velocidade da emissão dos laudos quanto na qualidade da análise.

Mamografia e a comparação entre exames
Um dos campos em que a inteligência artificial já apresenta aplicações específicas é a mamografia. Existem softwares capazes de realizar uma pré-análise das imagens e apontar possíveis lesões que serão posteriormente avaliadas de forma mais detalhada pelo radiologista.
O câncer de mama é a principal causa de morte por câncer entre mulheres no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), foram registradas 20.165 mortes pela doença entre mulheres em 2023. Para cada ano do triênio 2026-2028, o instituto estima 78.610 novos casos de câncer de mama no país.
Nesse contexto, ferramentas capazes de auxiliar na identificação de alterações ganham importância, pontua Werlang, que afirma que a IA também pode contribuir para a redução de falsos negativos e para a análise comparativa de exames anteriores. “Se você tem um exame anterior no sistema, ela já consegue fazer análise comparativa. Essa análise comparativa hoje é uma das coisas que a gente acaba, às vezes, perdendo mais tempo.”
O processo tradicional exige que o profissional observe uma imagem, depois outra, e tente identificar visualmente mudanças, padrões de semelhança ou diferenças. Segundo o médico, a inteligência artificial consegue realizar essa comparação de maneira mais rápida e consistente. “Você ganha um tempo e ganha segurança em relação à comparação.”
A comparação também pode ajudar a identificar se uma alteração já estava presente em exames realizados dois ou três anos antes. Uma imagem que permanece sem modificação pode, por exemplo, representar uma estrutura normal da mama que simulava uma lesão.
Uma ferramenta que ainda está em treinamento
Apesar dos avanços, Werlang ressalta que a inteligência artificial ainda está em processo de desenvolvimento e treinamento. “Assim como o radiologista inicia sua formação e vai sendo treinado, a inteligência artificial também vai sendo treinada pelos próprios radiologistas”, pontua.
Para ele, ainda pode levar alguns anos até que existam sistemas relativamente autônomos. O treinamento, segundo o médico, demanda tempo e precisa respeitar limites. Por isso, a tecnologia não representa, neste momento, uma substituição do radiologista. “Eu acho que no atual momento, não”, responde ao ser questionado sobre a possibilidade de a IA substituir o profissional.
Ao mesmo tempo, ele considera que determinados processos poderão ser automatizados. “Eu acredito que, com o tempo, pelo menos tornar o trabalho do radiologista mais rápido, mais fácil, com menos burocracia de análise e tudo, eu acho que com o tempo vai acabar havendo uma certa substituição de alguns processos que os radiologistas acabam fazendo hoje.”
A diferença, portanto, está entre substituir o profissional e substituir determinadas tarefas. A tecnologia pode assumir etapas mais repetitivas e permitir que o médico concentre seu trabalho na interpretação e na tomada de decisões.

O papel do médico em uma medicina cada vez mais tecnológica
A mudança provocada pela tecnologia também alcança a relação entre médicos e pacientes. Para Werlang, o acesso facilitado à informação faz com que as pessoas cheguem aos consultórios mais informadas. “A inteligência artificial tem a capacidade de trazer uma informação um pouco mais segura do que simples consulta em páginas como o Google.”
Mas o acesso à informação também pode produzir novos problemas. Segundo o radiologista, pacientes chegam aos serviços de saúde com informações corretas, mas também com conteúdos imprecisos que precisam ser corrigidos pelos profissionais. Nesse cenário, a interpretação humana continua sendo necessária.
O impacto da IA, entretanto, não será igual em todas as modalidades de exame. Werlang cita o ultrassom como uma área que continuará por bastante tempo dependente da atuação do profissional. “No ultrassom é um exame que vai continuar por muito tempo ainda sendo operador dependente.” Já em áreas como tomografia e ressonância magnética, ele acredita que a inteligência artificial terá uma participação cada vez maior.
Da imagem ao risco cardiovascular
A tecnologia também vem sendo utilizada para extrair informações adicionais de exames que já seriam realizados por outros motivos. Um exemplo citado pelo médico é a análise da composição corporal a partir de imagens de tomografia. Softwares conseguem identificar gordura subcutânea, gordura visceral e músculo esquelético.
A ferramenta também permite avaliar a densidade do corpo vertebral e obter informações relacionadas à saúde óssea, como a presença de osteoporose.
Segundo Werlang, a análise da composição corporal pode ser especialmente relevante para pacientes oncológicos, já que a massa muscular está relacionada à evolução e à sobrevida em determinadas situações.
A gordura visceral, por sua vez, está diretamente relacionada ao risco de doenças cardiometabólicas, como diabetes e doenças cardiovasculares.
A tecnologia permite ainda acompanhar pacientes que precisam perder peso ou reduzir gordura visceral. A partir de exames realizados ao longo do tempo, é possível observar a evolução desses tecidos.

Inteligência artificial e prevenção de infartos
Outra frente de aplicação está na cardiologia. Werlang cita o escore de cálcio coronariano como um exame preventivo que pode ser realizado sem contraste para avaliar a quantidade de cálcio presente nas artérias coronárias e estimar o risco cardiovascular.
Segundo ele, a ferramenta permite identificar pacientes que apresentam maior risco de infarto do miocárdio nos anos seguintes. Quando o risco é mais elevado, pode-se avançar para uma tomografia das coronárias, capaz de mostrar placas de cálcio e estreitamentos das artérias.
O médico afirma que esse tipo de tecnologia modificou a própria função de determinados procedimentos. Antigamente, explica, a avaliação das coronárias dependia em maior medida do cateterismo, procedimento invasivo que utiliza um cateter introduzido no sistema arterial.
A angiotomografia das coronárias, por outro lado, utiliza um acesso venoso periférico para a aplicação do contraste e permite visualizar as artérias. “Para diagnóstico, hoje você tem a tecnologia te auxiliando a fazer um exame muito mais seguro e com a mesma sensibilidade, ou às vezes uma sensibilidade até maior do que o próprio cateterismo”, expõe.
Na avaliação de Werlang, isso permite que o cateterismo seja direcionado para situações em que o procedimento é necessário para o tratamento.
Ele relata casos de pacientes que chegaram para realizar exames após apresentar dor no peito, dor no braço ou sintomas inespecíficos e que, depois da identificação de alterações nas coronárias, foram encaminhados ao hospital para procedimentos de desobstrução.
A identificação precoce das lesões, segundo o médico, pode permitir que o tratamento seja realizado antes de um infarto.

Fusão de imagens na biópsia de próstata
Outro exemplo de avanço tecnológico citado por Werlang é a biópsia de próstata com fusão de imagens.
Segundo o médico, a Mediscan foi pioneira no Sul do Brasil na utilização da técnica, que combina imagens de ressonância magnética com imagens de ultrassom em tempo real.
A ressonância permite identificar a região suspeita. Durante o procedimento, essa imagem é sobreposta à imagem do ultrassom, permitindo direcionar a agulha exatamente para o local em que existe suspeita de lesão.
Antes da utilização da técnica, explica Werlang, as biópsias eram realizadas de maneira mais aleatória. “Hoje, com essa fusão de imagem, você sabe aonde que está a lesão pela ressonância magnética, consegue enxergar a lesão e usa o ultrassom em tempo real enxergando tudo para direcionar a agulha, para fazer a biópsia no ponto certo.”
A instituição adquiriu recentemente um segundo equipamento de biópsia por fusão, segundo o médico, com recursos mais avançados e maior precisão.
Segurança dos dados é um dos desafios
O avanço da inteligência artificial na medicina também amplia a preocupação com a proteção das informações dos pacientes. Conforme pontua Werlang, é possível utilizar exames anonimizados para análise por sistemas de IA. Nesse processo, os dados pessoais não são encaminhados junto com as imagens. “O exame é anonimizado. Então ele não vai com as informações do paciente. Ele é um número que a inteligência artificial manda para o servidor, ela faz a análise e devolve a análise com esse número”, explica.
O vínculo entre o número e a identidade do paciente fica sob responsabilidade do sistema da instituição. “A máquina que está em inteligência artificial, ela não tem acesso aos dados do paciente”, afirma.
Para o médico, porém, a questão ética continua sendo delicada. Ele alerta que nem todos os serviços possuem mecanismos de anonimização e que o envio de dados de pacientes para ferramentas de inteligência artificial sem esse cuidado pode representar um risco.
A expansão da tecnologia, portanto, terá de acompanhar também o cumprimento das legislações relacionadas à proteção de dados e à privacidade dos pacientes.

ChatGPT e os limites da IA generativa
Werlang também diferencia sistemas específicos desenvolvidos para a medicina de ferramentas de inteligência artificial generativa de uso geral, como o ChatGPT. Segundo ele, médicos têm utilizado essas ferramentas para buscar informações, tentar estreitar diagnósticos e consultar casos menos comuns. Mas há riscos. “Essas inteligências artificiais que são mais genéricas a gente tem que ter um cuidado muito maior porque elas podem dar respostas erradas, principalmente se não for feito um prompt bem adequado no momento da busca.”
Para o radiologista, ferramentas específicas para diagnóstico por imagem passam por processos próprios de treinamento e são desenvolvidas para tarefas determinadas.
O uso da inteligência artificial na medicina também passou a contar com uma regulamentação específica do Conselho Federal de Medicina (CFM). Em fevereiro deste ano, o órgão publicou, no Diário Oficial da União, a Resolução CFM nº 2.454/2026, que estabelece regras para o uso da tecnologia em todo o país.
A norma assegura aos médicos o direito de utilizar ferramentas de IA como apoio à decisão clínica, à gestão em saúde, à pesquisa científica e à educação médica continuada, desde que sejam respeitados os limites éticos e legais da profissão.
A resolução estabelece ainda que a palavra final sobre decisões diagnósticas, terapêuticas e prognósticas permanece com o médico. O profissional pode se recusar a utilizar tecnologias que não tenham validação científica ou certificação regulatória pertinente, ou que contrariem princípios éticos, técnicos ou legais da medicina.
Uma tecnologia ainda recente
Na experiência da Mediscan, a utilização mais sistemática da inteligência artificial ainda é recente. De acordo com Werlang, a instituição trabalha com ferramentas de IA há aproximadamente um ano a um ano e meio, principalmente em testes, treinamentos e processos de desenvolvimento. “É uma coisa que ainda está em curso.”
O médico estima que sejam utilizados sistemas de IA em aproximadamente cinco a dez pacientes por dia em atividades relacionadas à composição de dados. A instituição também trabalha em conjunto com outros hospitais e instituições, ampliando o número de pacientes envolvidos nos processos de treinamento.
Se algumas etapas da medicina tendem a se tornar mais automatizadas, a relação humana continua sendo necessária em outras. Werlang prevê que processos mais dependentes de computadores poderão ser automatizados, inclusive em setores como recepção e atendimento administrativo.
Na realização dos exames, porém, continuam sendo necessárias pessoas para posicionar pacientes, realizar acessos venosos e acompanhar os procedimentos. “Então, processos onde depende muito de computador eles vão ser mais automatizados. Mas aonde precisa de pessoas, ela vai continuar tendo essa humanização e atendimento personalizado que a gente costuma fazer aqui”, expõe
A questão, portanto, não seria escolher entre tecnologia e humanização, mas definir em quais etapas a automação pode contribuir sem eliminar a presença necessária dos profissionais.
O desafio de levar a tecnologia ao SUS
Outro ponto levantado pelo radiologista é o acesso às novas tecnologias no Sistema Único de Saúde (SUS). A incorporação de equipamentos e softwares de inteligência artificial exige investimentos, mas, segundo Werlang, também precisa ser analisada a partir do custo-benefício para o sistema. “Eu acho sim que um dia vai chegar, é inevitável, e ela vai chegar para o SUS também, sem dúvida nenhuma”, afirma.
Em janeiro deste ano o governo federal anunciou que vai construir o primeiro hospital público inteligente do Brasil na cidade de São Paulo. Os recursos virão do empréstimo de R$ 1,7 bilhão do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco do Brics.
De acordo com o Ministério da Saúde, o hospital será referência nacional e modelo de assistência em saúde totalmente digital para os países do bloco. A unidade atenderá os pacientes da rede pública com medicina de alta precisão, apoiada por inteligência artificial e outras tecnologias emergentes. Integrará, também, a rede de hospitais e serviços inteligentes com 14 unidades de terapia intensiva (UTIs) automatizadas, que funcionarão de forma interligada em diversos estados. A modernização de hospitais de excelência do SUS também faz parte do projeto.
Para Werlang, a tecnologia poderá ampliar a capacidade de atendimento, permitindo realizar mais consultas e exames em menos tempo.
O investimento inicial, entretanto, tende a ser maior. A adoção da inteligência artificial, segundo o médico, não significa simplesmente substituir médicos por máquinas. “Todo investimento inicial ele não vai simplesmente poder trocar, botar a inteligência artificial e tirar os médicos. Então, isso vai ter um custo maior no início”, pontua.
No longo prazo, porém, ele acredita que o aumento da capacidade de atendimento poderá compensar parte desse investimento.
Mediscan: uma trajetória de inovação no RS
É nesse processo histórico de transformação da medicina por imagem que se insere a trajetória da Mediscan Medicina Diagnóstica, em Porto Alegre.
A instituição é apresentada como a primeira instituição de exames de imagem registrada no Rio Grande do Sul e como a primeira clínica de Porto Alegre com todos os serviços de radiodiagnóstico certificados pelo Programa de Acreditação em Diagnóstico por Imagem (Padi).
Ao lado do médico Sandro Bertani da Silva, Henrique Werlang atua na gestão e nos serviços da clínica, com foco em exames de imagem e inovação tecnológica.
Além das ferramentas de inteligência artificial atualmente em avaliação, a instituição tem investido em equipamentos e procedimentos que incorporam novas tecnologias ao diagnóstico. Entre os equipamentos adquiridos recentemente está um sistema para avaliação de composição corporal por DEXA e um novo equipamento de fusão de imagens para biópsia de próstata.
A clínica também está em fase de implementação de uma ferramenta que permitirá ao paciente receber o resultado do exame pelo celular, por meio do WhatsApp. A proposta é que, após receber a mensagem, o paciente possa acessar o resultado e também visualizar imagens produzidas por softwares de inteligência artificial, quando disponíveis e relacionadas ao exame realizado.
A trajetória da instituição, segundo Werlang, acompanha uma transformação mais ampla da medicina: máquinas e algoritmos assumem tarefas cada vez mais complexas, mas a tecnologia não elimina a necessidade de conhecimento, responsabilidade e decisão humana.
Para o médico, o primeiro passo para os profissionais é reconhecer que essa mudança já está em curso. “A gente precisa, o quanto antes, se quiser se manter atualizado, aprender a trabalhar com a inteligência artificial, respeitar os limites.” Na avaliação dele, a tendência é que a tecnologia passe a fazer parte cada vez mais da rotina médica. “Eu acho que o futuro vai ser bem interessante para quem estiver usando e muito mais fácil também.”
