A 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi cancelada por falta de recursos. Previsto para ocorrer entre 11 e 19 de setembro, o mais antigo festival de cinema do país não será realizado após o atraso no repasse de recursos do Governo do Distrito Federal (GDF) destinados à organização do evento.
O cancelamento ocorre após semanas de incerteza sobre os repasses financeiros destinados à edição deste ano. Antes da decisão, a organização do Festival aguardava a liberação de recursos estimados em cerca de R$ 3 milhões. O tradicional festival deixou de ocorrer apenas em um período da ditadura militar, entre 1972 e 1974, devido ao rigor da censura.
Ao comentar a situação na última sexta-feira (7), Celina afirmou que a contenção de despesas atingiu diferentes áreas do governo, inclusive a realização de eventos. A governadora citou como exemplo o cancelamento das comemorações do aniversário de Brasília e argumentou que os recursos disponíveis devem ser concentrados em serviços considerados essenciais.
“Ninguém dá uma festa na sua casa, faz um cinema ou um show se não tiver dinheiro para resolver problemas de saúde e de transporte. A nossa decisão foi tomada. Nós tivemos que cortar gastos”, declarou.
Apesar da afirmação, Celina disse que o impasse relacionado ao Festival estava “sendo resolvido” e garantiu a manutenção do apoio do governo ao Cine Brasília. “Sobre o Cine Brasília, a população pode ficar tranquila, porque é um patrimônio e terá todo o apoio por parte do governo”, afirmou.
A declaração ocorre em meio ao ajuste fiscal promovido pelo GDF. No mesmo dia, Celina e o secretário de Economia, Valdivino de Oliveira, apresentaram um balanço das contas públicas e afirmaram que a gestão assumiu, em março, um déficit estimado em quase R$ 6 bilhões. O governo diz projetar encerrar 2026 com superávit de R$ 3 bilhões, que poderia chegar a R$ 5 bilhões, com medidas de controle de despesas e aumento da arrecadação.
Segundo o secretário, decretos e portarias editados neste ano reduziram a autonomia orçamentária dos órgãos do Executivo e centralizaram o controle dos gastos. Saúde, educação, transporte e limpeza urbana estão entre as áreas que, segundo o governo, apresentavam despesas acima dos valores inicialmente previstos.
Cultura e geração de emprego
Criado em 1965, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega à 59ª edição como um dos mais tradicionais espaços de exibição e discussão do cinema nacional. Além das mostras competitivas, a programação inclui debates, seminários, oficinas, atividades formativas, homenagens e sessões especiais.
Diante do menosprezo da governadora, que reduziu o Festival a termos como “festa”, “cinema” e “show”, é necessário lembrar o evento como patrimônio cultural do DF e também seu impacto para a economia.
A 58ª edição reuniu aproximadamente 40 mil pessoas em suas atividades. Cerca de 35 mil espectadores passaram pelo Cine Brasília, enquanto quase 5 mil participaram das ações descentralizadas realizadas em espaços culturais de Planaltina, Samambaia, Gama, Ceilândia e do Setor Comercial Sul. O levantamento aponta ainda a geração de 571 empregos diretos e indiretos em 2025.
Contradição
A posição adotada por Celina em 2026 contrasta com declarações feitas pela própria governadora há pouco mais de uma década, quando presidia a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
Em 2015, durante a entrega da premiação do Troféu Câmara Legislativa relacionada ao Festival de Brasília, Celina defendeu investimentos públicos no setor audiovisual e afirmou que pretendia trabalhar para transformar a capital federal no “principal polo de produção de cinema do país”.
Na ocasião, a então presidente da CLDF também criticou a situação do Polo de Cinema e Vídeo do DF e defendeu ações para fortalecer a produção audiovisual brasiliense.
Onze anos depois, já à frente do Palácio do Buriti, Celina administra um cenário de restrição das despesas públicas e coloca a realização de eventos entre os gastos que podem perder espaço diante das prioridades estabelecidas pelo Executivo.
Mobilização
A discussão sobre os recursos destinados ao Festival ocorre em meio a uma mobilização mais ampla de trabalhadores da cultura do Distrito Federal. Agentes culturais convocaram uma reunião para o próximo dia 17 de agosto, às 18h, no Teatro dos Bancários, para discutir estratégias de atuação pela liberação de recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e em defesa das políticas culturais no DF.
A convocação, que circula entre integrantes do setor, chama artistas, produtores e demais trabalhadores da cultura para participar da articulação. O FAC é um dos principais instrumentos de financiamento público da produção cultural no Distrito Federal e atende projetos de diferentes linguagens, como audiovisual, música, teatro, dança, literatura e cultura popular.
Cine Brasília
Embora tenha colocado a realização de eventos entre as despesas atingidas pelo ajuste, Celina fez questão de diferenciar a situação do Festival daquela enfrentada pelo Cine Brasília.
A governadora afirmou que o equipamento cultural continuará recebendo apoio do GDF por ser patrimônio da capital. O Cine, inaugurado em 1960 e projetado por Oscar Niemeyer, é a principal sede do Festival e um dos equipamentos culturais mais simbólicos de Brasília.
A distinção entre o financiamento do equipamento e o investimento na realização do Festival também levanta questionamentos sobre os efeitos da contenção de despesas para a programação cultural e para os trabalhadores ligados ao audiovisual.
O Brasil de Fato DF procurou a gestão do Cine Brasília para saber se a atual contenção de despesas já provocou impactos financeiros ou operacionais no equipamento, se existem repasses pendentes e como a instituição avalia as declarações da governadora sobre o Festival. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.
Outro lado
A reportagem procurou a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF) para esclarecer o valor previsto para a edição de 2026, quanto chegou a ser efetivamente repassado e quais fatores levaram à falta de recursos que culminou no cancelamento.
Também questionou quais eventos e políticas culturais foram atingidos pelas medidas de contenção, qual o impacto dos cortes sobre o orçamento da cultura e se outros programas e editais, incluindo os voltados ao audiovisual, poderão sofrer bloqueios ou adiamentos.
Até a publicação desta reportagem, a Secec-DF não havia respondido aos questionamentos. O espaço segue aberto para manifestação.
*Com informações da CBN
Apoie a comunicação popular no DF:
Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]
Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de WhatsApp do BdF DF: 61 98304-0102
Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.
Entre em nosso canal no WhatsApp e acompanhe as atualizações.

