Com mais de 40 livros publicados, a obra do geógrafo Milton Santos, que completaria cem anos este ano, é uma referência acadêmica por apresentar conceitos-chave para entender a globalização. Mas é na periferia que a sofisticação da obra do pensador ganha vida, segundo os debatedores da mesa “Por uma outra globalização: centenário de Milton Santos”, ocorrida na sexta-feira (7), durante a 8ª Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), no centro de São Paulo (SP).
“Milton é um geógrafo das quebradas. Não porque ele fale exclusivamente para as quebradas, é porque as quebradas se apropriam da sofisticação do pensamento dele e dão sentido à vida”, destacou Billy Malachias, pesquisador do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro (NEINB/USP), do Núcleo de Pesquisa em Geografia e Redes de Conhecimento e Saberes Pró-Meridionais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professor da Fundação Poli Saber.
“A universidade, quando lê Milton, lê de uma forma canônica, e, talvez, tenha de ser dessa forma. Não pode ser de outro modo. Mas os populares popularizam. Eles não precisam das referências todas para dar movimento na vida. Basta uma frase. Uma das conversas mais legais que eu tive sobre o Milton Santos foi com o Soró, José Soró, e as suas frases elucidativas sobre o mundo”, conta Malachias, referindo-se ao educador e ativista cultural da zona noroeste de São Paulo, que faleceu em 2019.
A leitura da periferia sobre a obra do geógrafo parte de uma visão otimista que pode ser encontrada no seu livro mais conhecido. “Na leitura do ‘Por uma outra globalização’, a gente consegue perceber que o professor Milton Santos é pessimista na análise, já que ele está escancarando um contexto que se arrasta até hoje. Mas, no último capítulo, ele vai falar sobre o que seria essa outra globalização. Então, de fato, ele é otimista. Ele está falando a partir da dialética, de pensar de maneira profunda a realidade, organizando o entendimento e a política para as ações que serão transformadoras”, analisa a geógrafa e professora Beatriz Pereira, coautora do livro “Vozes Mulheres da Améfrica Ladina”.
Tanto para Pereira quanto para Malachias, essa transformação está nos coletivos das periferias, nas ocupações culturais, nos povos de terreiro, nos clubes de mães, no movimento das mulheres por educação, nas hortas urbanas, nas cozinhas comunitárias e no hip hop, entre tantas manifestações culturais, políticas e solidárias. Práticas diversas não disruptivas que se encaixam no pensamento do geógrafo sobre as transformações sociais.
“Talvez um dos pedidos da obra do professor seja o nosso engajamento. Ele vai falar sobre a importância para a compreensão da realidade como mudança não abrupta, não disruptiva. E os trabalhos comunitários apontam para gente que nós estamos nesse alvorecer do período popular da história. As coisas estão acontecendo e a gente precisa compreender essas coisas, precisa fortalecer esses movimentos. Mas, infelizmente, como não é disruptivo, a gente está vivendo ainda o período técnico-científico-informacional, mas com essa parte do período popular”, explica a professora, que trabalha na periferia da capital paulista.
Nesse sentido, Malachias destaca o conceito de coexistência, presente na obra de Milton Santos. “Junto com a globalização, existe o período do popular da história, que é esse dos homens lentos coexistindo. Então a possibilidade é de uma insurgência, de ter essa compreensão dos laços solidários e de cooperação que tendem ou deveriam tender à tomada de um poder”, aponta o professor, lembrando-se, por exemplo, da época da pandemia como um exemplo de reação popular dentro do próprio sistema.
“Pensando especificamente sobre o que aconteceu na zona leste, que aconteceu na zona sul, quando o estado não sabia o que fazer. Os coletivos já estavam atendendo as pessoas, levando alimento para elas, mapeando. Usando o quê? Celulares. Aparelhos que tiveram um sentido solidário para uma determinada camada de população, enquanto para outras o celular significava multiplicação de dinheiro. Então é o mesmo objeto técnico com uso solidário e com uso hegemônico, financeiro.”
