Cerca de R$ 870 milhões foram repassados pelo Banco Master para empresas criadas a partir de 2021, sob suspeita de serem negócios de fachada. As transações, declaradas à Receita Federal como pagamentos por serviços prestados, envolvem firmas com dados falsos e administradores que foram beneficiários de auxílio emergencial.
Essas informações partem de um levantamento feito pela Folha de S.Paulo com base em documentos do Fisco enviados à CPI do Crime Organizado. De acordo com a apuração, das 117 firmas que receberam ao menos R$ 5 milhões do banco, 35 (quase 30%) foram abertas apenas após a instituição começar a operar com o nome Master e ao menos uma dúzia dessas empresas recebeu os recursos poucos meses após serem fundadas.
Entre os casos que mais chamam a atenção está o da empresa Telure, aberta em 2023, que recebeu mais de R$ 110 milhões, sendo que a diretora dessa firma foi beneficiária de R$ 5.000 de auxílio emergencial durante a pandemia. Ela também aparece como diretora das empresas Nanook e Utter, que juntas receberam outros R$ 141 milhões. Todas as três empresas apresentam dados inválidos no cadastro de CNPJ, como o número de telefone “1111-1111”.
A lista de pagamentos do Banco Master também alcança figuras conhecidas da política e da mídia. Por exemplo, a empresa Copenhagen, que recebeu R$ 57,9 milhões, entrou no noticiário após a revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu e depois cancelou R$ 1 milhão em notas fiscais para a companhia.
Perdas para a previdência e outros bancos
As novas revelações acerca do escândalo do Banco Master também indicam rastro de irregularidades ligadas à instituição financeira que provocou impactos em cidades do interior, como Brodowski (SP), onde uma CPI da Câmara Municipal identificou que o Instituto de Previdência (Sisprev) perdeu R$ 15 milhões em investimentos ligados ao banco.
Conforme noticiado pelo G1, dos recursos perdidos na cidade paulista, R$ 10 milhões foram aplicados em uma Letra Financeira do Banco Master e evaporaram após a liquidação da instituição pelo Banco Central em 2025. Outros R$ 5 milhões foram destinados a um fundo que sofreu forte desvalorização, passando a valer apenas R$ 500 mil.
O Banco de Brasília (BRB) também vive dias de incerteza por conta de sua relação com o Banco Master, após ter adquirido R$ 12,2 bilhões em “créditos podres” da instituição de Daniel Vorcaro. Sem divulgar balanços oficiais há mais de um ano, o banco público estaria com patrimônio negativo, o que pode levar à sua liquidação pelo Banco Central.
A crise é tão aguda que o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, também está preso, e o Supremo Tribunal Federal (STF) monitora o destino de R$ 30 bilhões em depósitos judiciais de cinco tribunais estaduais que estão custodiados no banco.
Atualmente, o governo do Distrito Federal tenta destravar um socorro de R$ 6,6 bilhões para salvar a instituição, mas esbarra na resistência do mercado financeiro. Grandes bancos privados se recusam a garantir o empréstimo sem que o Tesouro Nacional ou bancos federais, como o Banco do Brasil e a Caixa, assumam o risco da operação.
O impasse gerou uma convocação do ministro Luiz Fux para uma audiência de conciliação no STF na próxima quinta-feira (13), enquanto o Ministério da Fazenda sinaliza que não pretende atuar como fiador de um banco cujas contas são alvo de desconfiança técnica pela equipe econômica.
O que dizem os envolvidos
As empresas e figuras públicas citadas alegam que os serviços foram efetivamente prestados e que os contratos são regulares. A defesa de Artur Figueiredo, da Copenhagen, nega qualquer ligação com crimes. O Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro não comentaram os casos.
Em Brodowski, o Sisprev afirma que os investimentos seguiram a legislação e que os membros do comitê possuem certificação. Por meio de nota, a prefeitura da cidade informou que as aplicações ocorreram em gestão anterior e que reforçou os mecanismos de controle sobre o dinheiro público.

