ENTREVISTA

Enéas de Souza e a defesa intransigente da democracia e da soberania

Filósofo, economista e psicanalista fala da vida, da política e da paixão pelo cinema

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Enéas de Sousa
Enéas de Souza, filósofo, economista e psicanalista | Crédito: Rafael Rosa

Enéas de Souza é essencialmente plural. Perto dos 90 anos, está passando pela vida com várias personalidades e ações: é filósofo, economista, psicanalista, jornalista licenciado, escritor, professor, crítico de cinema e intelectual que transita em várias frentes da cultura. Não faz ou fez tudo ao mesmo tempo. A sua vida é em etapas. Dentro deste contexto múltiplo, só duas coisas revelam o seu ‘ser’ permanente: a paixão pela democracia pura e planejada e o cinema – “uma fonte inesgotável de pensamentos e reflexões’.

Está cercado de livros e dvds de filmes de diretores como Luchino Visconti, Jean-Luc Godard, Alfred Hitchcock, Alan Resnais e tantos outros ‘monstros’ sagrados da história cinematográfica. A sua sala no apartamento em que vive em um dos prédios mais altos da cidade – 26 andares –, no bairro Auxiliadora, é uma gigantesca biblioteca. Livros
e filmes, grande parte deles franceses.

Bem humorado, com boa saúde – “só uma artrose”, diz – e ótima memória para recordar tantas coisas, Enéas nasceu no Rio de Janeiro em 1937 e era filho único de pais catarinenses – Oscar Ayres de Souza e Irene Costa de Souza. Viveu também em Rio Grande, Florianópolis, Curitiba, Campinas, Porto Alegre e passou pedaços da vida no Texas (EUA) e Paris (França). Gostou mesmo de Porto Alegre, onde realizou a maioria dos seus sonhos profissionais. O pai era da aviação naval, primeiro na Marinha e depois da Aeronáutica e se aposentou antes do golpe de 1964.

Escreveu três livros – “O Escuro do Nosso Tempo: Ensaios: Psicanálise e Cultura” com outros dois amigos, “Os Filmes Pensam o Mundo” e “Trajetórias do Cinema Moderno” -, demonstrando sua paixão pelo cinema, que jamais abandonou. “Durante a vida enfrentei anos sabáticos, em que não via filmes, mas a paixão pela sétima arte jamais
foi deixada, largada”, reforça.

Estudou Filosofia e Economia na UFRGS. Fez Mestrado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde especializou-se em moeda, finanças e teoria econômica com professores do porte de Maria
Conceição Tavares
, Luiz Gonzaga Belluzzo, Renato Souza e tantos outros. Nestas áreas trabalhou como professor em colégios, como o Israelita, o pré-vestibular IPV e em universidades, como a PUCRS, UFRGS e Unisinos.

Na política, teve atuação na parte técnica. Foi secretário substituto da Indústria e Comércio do RS, secretário de Ciência e Tecnologia, presidente do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento Econômico), técnico da FEE (Fundação de Economia e Estatística) e diretor do Finep (Financiadora de Estudos e Projetos – órgão nacional) e tantas outras coisas que ficaram pelo caminho. Em suma, sempre esteve na batalha. Como ainda está hoje, escrevendo artigos e fazendo as suas pesquisas. Nesta entrevista para o Brasil de Fato, ele fala de suas profissões ao longo dos seus 89 anos, de cinema, sua grande paixão, de democracia, geopolítica e de sua vida pessoal.

Brasil de Fato: Quais são as suas perspectivas e expectativas agora que o senhor está perto dos 90 anos?

Enéas de Souza: Olha, para dizer a verdade, de um modo geral, tudo que eu fiz e faço me dá satisfação. Fiz tantas coisas. Fui até jornalista, atuando como crítico de cinema e assessor de imprensa do Instituto Cultural Alemão. Na área do cinema substitui um diplomata na revista Globo. Ele foi atuar no Japão e como gostava de cinema e suas análises não chegavam passei a ocupar o espaço e depois fui fixado. Recebi muito apoio do Paulo Fontoura Gastal do Correio do Povo e do Marcos Faermann da Zero Hora. Minhas ambições agora são no sentido de acompanhar as
coisas que acontecem no mundo e no meu país.

Como professor, o senhor teve experiências muito marcantes?

Fui professor durante 30 anos de Filosofia e Economia Política na Ufrgs, PUCRS, Unisinos e em colégios particulares, como o Israelita. Fui também diretor do IPV, cursinho pré-vestibular. Estava na faculdade quando ocorreu o golpe de 1964. Lá tínhamos um curso preparatório ao vestibular, dirigido pelo Joaquim Felizardo, um grande escritor, historiador e professor. Fomos juntos fazer o IPV, muito famoso nas décadas de 70 e 80. Gosto muito de alunos e nunca tive problemas com eles. A experiência do professor é muito boa. Formar alunos para enfrentar o vestibular era uma coisa satisfatória, que me deixava muito contente.

No meio desta formação toda, existia a ditadura? Como eram as relações com os militares?

Eram complicadas. Havia gente infiltrada nas salas de aula. Estava no IPV, antes de ir para a universidade. Mesmo em ambiente suscetível a manifestações não poderíamos ser muito contra. Eu sempre achei e continuo achando que a democracia é o melhor sistema. Ele permite a troca de governo, troca de equipe, possibilita que as ideias possam circular e serem aprovadas ou não pela sociedade. Neste regime, as coisas sempre são mais fáceis. Há trânsito de pensamentos. Também tem a questão da soberania, que é fundamental na democracia.

“O cinema é uma forma de pensar” – Rafael Rosa

Como começou esta paixão pelo cinema?

Na verdade eu sempre vi muito cinema, desde pequeno. Minha mãe me levava no cinema quando eu era guri. Meu pai gostava bastante de cinema também. A minha avó tocava no cinema mudo, era pianista. Então havia uma cultura cinematográfica na minha família. Meu passado histórico de ver cinema, a minha capacidade de poder interpretar o
cinema me ligou à Filosofia. Isso me possibilitou ver o cinema de uma forma um pouco diferente. O cinema era uma forma de pensar. Dei um cursinho de cinema no Colégio Júlio de Castilhos para 250 alunos. Começou ali na escola e acabou no Cine Vogue, na Independência. O pessoal se interessou. Víamos os filmes, pensando e refletindo sobre
as coisas que se desenrolavam na tela.

Qual o filme que mais o impressionou?

Sem dúvida, foi “Hiroshima meu amor”. Vi 25 vezes. Em cada ocasião tinha um detalhe que havia passado na vez anterior. O filme do diretor Alain Resnais é franco-japonês e tem uma história fantástica. É preciso que todos vejam. É de 1959.

Um bom filme precisa ser visto quantas vezes?

É preciso ver, rever e ‘tresver’ para que se tenha uma ideia total e perfeita do espetáculo. Escrevi muito sobre cinema na revista Teorema, publicação gaúcha de crítica de cinema com periodicidade semestral. Sou o mais antigo sócio da ACCRS (Associação dos Críticos de Cinema do RS). O cinema está, de maneira absoluta, incrustado na minha vida.

O senhor ganhou até um filme em sua homenagem? Como foi esta história?

O nome é “Os filmes estão vivos”, produção e direção do meu filho Fabiano de Souza e do seu amigo Milton do Prado. Foi rodado em Paris.  Eu morei lá por dois anos, no início do século, no tempo do sucesso do Fórum Social Mundial por aqui. Via Porto Alegre nas manchetes dos jornais, nas primeiras páginas. A capital gaúcha passou a ser conhecida mundialmente, ganhando destaque. Aquele slogan “Um outro mundo é possível” pegou bem e a nossa cidade entrou para o mapa global. O Fórum foi uma jogada espetacular. E acho que foi uma besteira total terem deixado desaparecer. O filme é muito legal. E se passa em vários locais onde frequentei e morei.

Aí surgiu a paixão por Paris, através do cinema, da cultura?

Além de bonita, Paris tem este negócio de discutir, debater, cinematecas, museus, cultura transbordando por todos os lados. A gente senta em cafés e fica horas discutindo temas interessantes, de todos os tipos. Isso enriquece a pessoa. A gente faz amigos. É a minha cidade preferida.

E a Psicanálise como entrou na sua vida?

Foi o seguinte: Quando eu estava no quartel, na década de 50 do século passado, quando fui fazer o serviço militar obrigatório, achei interessante este negócio de análise. Me preparei muito, estudei. Esta profissão não tinha regulamentação. Era preciso autorização das entidades que trabalham com Psicologia e Psiquiatria. Naqueles tempos, a Psicanálise não tinha curso. Era preciso estudar e fazer uma porção de seminários. Fiz, fui indicado e aprovado pelas diretorias das entidades do setor. Atendi por um tempo, mas depois foram surgindo outras coisas. Mas a marca de psicanalista e os aprendizados até hoje são úteis na minha vida.

“Cada coisa tem o seu tempo” – Rafael Rosa

Como o senhor entrou para o mundo da Filosofia?

Meu pai sempre foi durão, rígido, conservador. Ele queria que eu fizesse Engenharia. Eu estava interessado na aviação naval, mas minha mãe foi contra. Como filho único, as pessoas achavam que eu podia tudo. Não é verdade. Meu pai era terrível, mas ele me apoiou muito. Estávamos nos EUA em alguma missão de trabalho dele, mas voltei
para o Brasil e fiz vestibular de Filosofia. Achei que ia levar uma dura. Nada disso. Contei para ele, ficou contente, adorou. Depois fiz Economia aqui e na Unicamp. Lá em São Paulo entrei em contato com pessoal brilhante da Economia para garantir uma boa formação. Vivi outra mentalidade, novos ares, agreguei muito e recebi muito
conhecimento. Mas na época também era complicado, eu estava me casando também.

E como foi o casamento?

Olha, muito bem. Acabei me casando três vezes: Maria Aparecida, Carmen e Flávia. Sou amigo de todas e casado com a Flávia, atualmente, com quem estou há 20 anos e é o meu grande amor. Gosto muito dela mesmo. Ela é muito especial. O balanço da história é que agora finalmente sai da juventude. Estou estabilizado. Tenho dois filhos: um
músico (Diego, da Ospa) e um do cinema (Fabiano).

Como é viver ‘pulando de galho em galho’ em sua trajetória de tantas ações e atividades?

Sempre gostei de deixar as coisas meio livres. As pessoas acham que têm que seguir uma coisa só. Discordo. Para mim, é muito bom. Uma coisa completa a outra. Por exemplo, quando estudava Economia em Campinas, fiquei um ano sem ver filmes. De repente, fui ver “Violência e Paixão”, de Luchino Visconti, e retornei ao cinema. Gosto de deixar
as coisas e recomeçar lá adiante. Nunca me arrependi de nada. Cada coisa tem seu tempo. Acho que faço as coisas no tempo adequado. Todas com um certo sentido, se encaixando. A gente sempre leva para outras atividades os conhecimentos anteriores. Nada se perde.

“Sou contra qualquer entreguismo” – Rafael Rosa

E hoje, como é que o senhor está vendo o Brasil politicamente?

Aos 89 anos, perto dos 90, acho que esta polarização só confunde as coisas. Aliás, faço aniversário duas vezes – 8 de fevereiro, meu dia real de nascimento, e 13 de março, quando fui registrado e ficou esta última data. Eu enxergo o Brasil dentro da geopolítica mundial, atestada por dois elementos: a China e os Estados Unidos. É um jogo complicado e complexo.  Há esta questão do Irã e acho que o Lula está tentando não ficar subordinado aos Estados
Unidos. E nem à China. Ou seja, a ideia básica é fortalecer, engrandecer o BRICS (grupo político e econômico de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China, além de África do Sul e outros novos membros recentes. Ele não é um bloco de livre comércio, mas sim um fórum de cooperação). Essa questão incomoda os EUA,
principalmente a questão da moeda. Fazer uma moeda que não seja o dólar.

Seria uma questão de soberania?

A busca de soberania é uma coisa muito importante. Para mim é a coisa mais decisiva que a gente pode pensar. Sou contra qualquer entreguismo.

O Donald Trump está tentando se meter demais no Brasil?

Está, com este negócio de América Acima de Tudo ou Torne a América Grande Novamente, uma coisa que remete à Segunda Guerra Mundial, quando eles saíram vitoriosos e queriam dominar o mundo. Primeiro foi a guerra fria com a União Soviética, depois a Rússia, com a China avançando por fora. Nós temos que ser nós mesmos. Ter a
soberania intacta.

“Os chineses são, de certa forma, felizes” – Rafael Rosa

O senhor esteve na China nos tempos em que ela corria por fora no contexto global?

Foi uma das experiências mais espetaculares que tive. A China tem um capitalismo socializado, capitalismo de Estado, que é o verdadeiro propulsor da economia, o indutor do desenvolvimento. Eu acho que eles estão ultrapassando os Estados Unidos em questões econômicas. Eles apoiam outros países com dinheiro, mão de obra,
planejamento, infraestrutura, tecnologia para setores importantes como energia, transporte, portos e assim por diante. Eles atuam neste nível de produzir e fazer coisas. A China tem também uma forma de governo piramidal. Primeiro ministro, militares, assembleias e assim por diante. Bem organizado. Impressionante, tudo bem discutido, com as bases participando ativamente. Nada é imposto. Tudo é debatido. O processo popular é muito forte. É assim que eu vejo. As pessoas são, de certa forma, felizes.

Achas que há corrupção por lá?

Agora, por outro lado, tem coisas complicadas. A questão da grana é uma coisa complexa. Os caras te dão dinheiro em envelopes. Um deputado, ou sei lá, um senador, ou mesmo um diplomata, os caras lá te dão dinheiro. Eu me lembro de um diplomata ter me contado a seguinte história: que entrou um servidor novo, ele foi convidado e foi lá se
apresentar e, na saída, recebeu 2.500 dólares. Ficou revoltado e falou para os outros caras da embaixada. Recebeu a orientação de doar para uma entidade de caridade e depois mandar o recibo para os chineses para dizer que não és corrupto. É um teste que eles fazem para ver a sua índole. É feito às claras. Mas também disseram que os chineses
presenteiam os visitantes e ficam ofendidos se os caras não aceitam. É um hábito, um costume. Mas acho que agora está mudando. Não é o governo que oferece. É sempre alguém de um ou outro departamento.

Qual é a política global da China?

Eles querem expandir suas ações. A África, por exemplo, está quase toda nas mãos deles. Eles são sábios nas negociações, sabem articular, são espertos e têm jeito para manobras. Vão comendo pelas beiradas como está acontecendo no Peru, Uruguai, Argentina e tantos outros países. Aqui no Brasil eles queriam fazer a ferrovia Norte-Sul
no tempo do presidente Sarney e ofereceram tudo. Mas acho que as coisas não são assim. É preciso cautela. Não dá para negar que é uma civilização muito antiga e tem uma baita de uma experiência de milhares de anos. São rápidos para fazer as coisas. E sempre com previsões a longo prazo.

Os chineses também têm jeitinhos para resolver as coisas?

É impressionante porque primeiro tu achas que não, aquilo tudo é muito severo e rigoroso. Mas não é assim. Eles têm macetes para resolver, uma espécie de jeitinho brasileiro. Mas não dá para negar que são planejados, tudo na hora certa. Por isso é que posso dizer que é um capitalismo de Estado.

“Este rapaz aí, o Flávio, tem uma visão muito autoritária” – Rafael Rosa

Falando em política de Estado, qual o rumo do Brasil agora que teremos eleições?

Ah! o melhor regime que tem para o Brasil é a democracia. Se o Lula ganhar continuaremos com democracia, direitos e assim por diante. Mas se o outro lado ganhar teremos uma ruptura no jeito de administrar, na visão de Estado. A posição do Lula é uma posição democrata e exige planejamento. O outro lado também pode ter planejamento, mas com outro viés. Quer dizer, é outro objetivo final, é outra forma de atuar. Para mim, a questão fundamental é a democracia e todos os seus benefícios.

E a questão da soberania?

A democracia supõe que o cara não seja entreguista. Este ponto é inegociável. A soberania para decidir por conta própria é uma coisa sem discussão. No fundo, a meu ver, existe uma aliança mundial entre os diversos grupos, mesmo os de esquerda. Não necessariamente do ponto de vista de invasão de outro país, mas do ponto de vista de
articulação política. A democracia precisa ser mantida e planejada para avançar. Não há democracia no ferro.

E o concorrente de Lula, Flávio Bolsonaro?

É, esse rapaz aí, o Flávio, está sendo cooptado por todos os lados, não é? Ele tem uma outra visão. Uma visão, vamos dizer assim, muito autoritária, que eu não vejo tanta democracia. Nem perto.

E, voltando ao cinema, o senhor vê filmes em plataformas como a Netflix, Prime ou outra qualquer?

Gosto de cinema, tela grande. Gosto de começar do zero. Eu estou de novo fazendo um terceiro movimento crítico. Se der tempo, claro. Já fiz trajetórias de filmes, os filmes pensam o mundo. Tenho que fazer uma coisa que seja diferente e que seja importante, significativa. Prefiro assim, partir do zero. Para mim, sempre é muito bom recomeçar com novas pessoas, novas relações, novo mundo e novo cinema. Porque, para mim, o cinema é assim, é ver, rever e três ver.
Gosto de analisar o confronto de figuras, uma entra no outro, o cenário, a técnica. Só assim a gente enxerga novas ideias, novas visões. Quando escrevo, quero algo novo. Quando se trata de escrever não gosto de repetir. O cinema é uma coisa grande, um grande meio de pensamento e reflexão. E mais, tu tens a possibilidade de sair fora do
teu mundinho. Tem cinema da África, da Ásia, da Europa, dos Estados Unidos, de qualquer lugar.

Qual a sua relação com a televisão? Vê ou não?

Olha, sim e não. Eu gosto de ver futebol. Sou colorado. Se o time continuar assim, acho que teremos Gre-Nal na segunda divisão. Ou pode melhorar como demonstram os últimos resultados.

Editado por: Vivian Virissimo

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