Pelo menos 27 famílias do Acampamento Gabriel Filho, em Palmeirante (TO), estão mobilizadas para cobrar do governo federal a regularização fundiária da área, que depende da conclusão da aquisição da Fazenda Recreio/Freitas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a criação do Projeto de Assentamento Gabriel Filho.
Desde a manhã de segunda-feira (10), mais de 100 pessoas de aproximadamente 15 comunidades camponesas, reunidas pela Articulação Camponesa de Luta pela Terra e Defesa dos Territórios do Tocantins e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ocupam as margens da Ferrovia Norte-Sul, nas proximidades do terminal de Palmeirante, com o objetivo de interromper a circulação de trens de carga entre Estreito e Colinas do Tocantins. O movimento informa também que a mobilização é pacífica e que o trecho será liberado tão logo as autoridades aceitem dialogar.
Em manifesto divulgado também na segunda-feira, as famílias falam da resistência de duas décadas na região e denunciam casos de violência, que, inclusive, geraram a homenagem à memória de um dos trabalhadores rurais. “Foram sucessivos episódios de ameaça, intimidação, perseguição, despejo e morte. A violência associada aos
conflitos fundiários do país ceifou a vida de Gabriel Vicente de Souza Filho, um trabalhador rural de 46 anos e líder do Acampamento Bom Jesus, assassinado a 5 tiros em 16 de outubro de 2010. Seu nome passou a batizar a comunidade, como forma de preservar sua memória e denunciar a violência sofrida pelas nossas famílias”, diz trecho da carta.
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, Frei Xavier Plassat, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), afirma que o governo federal precisa “cumprir sua palavra” para que as famílias sejam assentadas definitivamente. “Esse impasse gera uma situação de ansiedade, de frustração e de risco de violência, porque é uma região marcada historicamente por muita luta. Falta liberar o recurso para pagar o que foi prometido”, frisa.
“É muito sofrimento, e tudo isso por uma descoordenação completa de uma política federal que deveria ser prioridade e foi anunciada como tal. Não dá para entender como, na véspera de eleições tão fundamentais pela continuidade de uma política de progresso social para o povo do campo, especialmente esses trabalhadores que merecem, pelo histórico dessa luta que eles fizeram sempre de forma pacífica, ordenada, adquirir essa terra através da promessa feita pelo governo federal, pelo Incra”, critica.
Segundo Frei Xavier, toda a região sofre há muito tempo com conflitos agrários. A prática de expulsões por meio de pistolagem é bastante comum. “É uma situação bem típica. Nós temos proprietários de porte médio que um tenta grilar a terra do outro, esse outro se usa de violência, de pistolagem para amedrontar posseiros que vieram muitos anos atrás ocupar essa terra, que na época era vacante, era sem utilização efetiva, então fazendo valer um Cerrado, defendendo esse bioma, produzindo seu alimento, criando família, colocando vida onde não havia”, relata.
Frei Xavier destaca que existe a expectativa de resolução do imbróglio ainda nesta semana. Há uma reunião prevista para esta quarta-feira (12) entre a Ouvidoria Agrária Nacional, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e outras instituições envolvidas na solução da questão.
Para ouvir e assistir
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