Artigo

Um míssil no meu feed

O míssil e o meme viajam pela mesma corrente, se tocam, se amplificam e se traduzem mutuamente

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Motoristas passam por um grande outdoor prometendo vingança contra o presidente dos EUA, Donald Trump, no centro de Teerã
Motoristas passam por um grande outdoor prometendo vingança contra o presidente dos EUA, Donald Trump, no centro de Teerã | Crédito: AFP

A capacidade iraniana de desafiar a prepotência bélica do império estadunidense nasce de sua milenar capacidade de resistência no território, mas ganha projeção graças a uma arma nova e surpreendente, que ninguém havia colocado na conta: uma estratégia narrativa e memética que transforma a guerra cognitiva em um bumerangue contra o Ocidente. Neste artigo, um especialista no tema explica como se organiza esse ecossistema digital, que tem sua Meca em Teerã, mas opera de maneira distribuída e eficaz.

A cena dura apenas alguns segundos, mas contém muito mais do que parece. Tom Llamas, jornalista da NBC News, faz uma pergunta ao chanceler iraniano Abbas Araghchi durante uma entrevista realizada no último dia 5 de março.

— O presidente Trump não descartou o envio de tropas ao Irã. O senhor teme uma invasão dos Estados Unidos ao seu país?
— Não. Estamos esperando por eles.

Incrédulo, Llamas faz uma pausa, como se precisasse confirmar que havia entendido direito. Em seguida, insiste:
— O senhor está esperando que o Exército dos Estados Unidos envie tropas terrestres?!
— Sim, porque confiamos que podemos enfrentá-los. E isso seria um grande desastre para eles.

A pergunta surge com aquela naturalidade típica de estúdio de televisão, que reveste as hipóteses imperiais de uma aparência neutra, quase técnica, como se o desembarque de tropas estadunidenses em outro país fosse uma variável óbvia, e não uma promessa de devastação. Araghchi esboça um sorriso, sustenta o olhar e responde. O que fica reverberando não é apenas a dureza da frase, mas a temperatura com que ela é dita. Uma segurança sem grandiloquência, uma firmeza que procura inverter o sentido da intimidação.

Nesse breve diálogo aparece uma das chaves da guerra atual. Enquanto os mísseis cruzam o céu do Oriente Médio e a destruição ocupa o centro da cena, outra batalha é travada em um plano menos visível, mas igualmente decisivo: o da percepção. O das imagens que ficam gravadas na retina global. O das emoções que organizam a leitura do conflito. O jogo de legitimidades que emana das telas. O Irã parece ter compreendido, desde o início da escalada de 28 de fevereiro de 2026, que, nesse tipo de guerra, a dimensão cognitiva não vem depois do combate como narrativa de justificação, nem aparece ao lado como mero cenário ideológico. Ela faz parte do próprio teatro de operações. Condiciona a forma como cada movimento é interpretado, quais atores aparecem como agressores e quais como vítimas, quem ocupa o lugar da racionalidade e quem surge como responsável pela violência descontrolada.

Vale a pena deter-se por um momento no conceito de Guerra Cognitiva, porque ele costuma ser usado de maneira leviana. Não se trata apenas do esforço de propaganda ou do repertório de operações psicológicas da velha escola, atualizados para a era digital. Trata-se da capacidade de intervir na maneira como indivíduos, sociedades e audiências interpretam a realidade, distribuem sua atenção, elaboram seus medos e atribuem legitimidade. A matéria-prima dessa atividade estratégica são os afetos, os enquadramentos narrativos, os hábitos de consumo de informação, os vieses e a saturação sensorial. A guerra já não mira apenas o território ou a infraestrutura do adversário: ela ataca também sua capacidade de processar o que acontece, dar sentido aos acontecimentos e sustentar uma moral coletiva sob pressão. Quando um ator consegue fazer com que uma ofensiva seja percebida como autodefesa, ou que um inimigo apareça ao mesmo tempo como brutal e decadente, é porque conseguiu ser eficaz na guerra cognitiva.

Por isso, Teerã não se limitou a responder à agenda dos grandes meios de comunicação ocidentais. Foi construindo uma gramática própria, uma superfície de leitura a partir da qual o conflito pudesse ser organizado sob coordenadas favoráveis. A premissa é simples: o Irã não começou a guerra, foi atacado. Essa constatação objetiva, porém, nem sempre consegue se impor como evidência, porque, do outro lado, existem aparatos midiáticos como os dos Estados Unidos e de Israel, com uma engrenagem de irradiação global bem lubrificada — ainda que desgastada pelas guerras intermináveis de um e pelo genocídio do outro. Desta vez, o dispositivo comunicacional iraniano conseguiu elaborar de maneira muito mais complexa o argumento do direito à legítima defesa, projetando a imagem de um Estado soberano ferido, mas de pé, que denuncia a degradação moral e jurídica da ordem internacional. Com essa construção, procura escapar do lugar que o imaginário ocidental lhe reservou durante décadas: opacidade, fundamentalismo religioso, ameaça irracional. Quer aparecer, ao contrário, como um país atingido, porém lúcido, disposto a escalar o conflito sem perder o controle do sentido.

Zolfaghari evita a encenação nacionalista-religiosa exagerada que o jornalismo costuma esperar — e até desejar — para confirmar suas caricaturas. Essa compostura torna o Irã legível na língua do adversário. Desmonta, ainda que parcialmente, a imagem do dirigente iraniano encerrado em uma retórica intraduzível ou fanática. Araghchi não oferece moderação; oferece inteligibilidade. E essa nuance importa. A cena revela muito da estratégia iraniana: a vontade de projetar controle, paciência e domínio do ritmo, mesmo quando se fala a partir da posição de quem sofreu uma agressão.

Porta-vozes para uma ecologia da guerra

Existe um campo de batalha em que o decisivo não são as explosões, mas os regimes de visibilidade. Quem mostra o quê. Quem esconde quem. Que morte merece luto e que morte acaba absorvida pelo ruído de fundo. Esse trabalho sobre a percepção não se sustenta em uma única voz, nem em uma cadeia rígida de comando discursivo. Ele se desdobra por meio de figuras, tons e plataformas distribuídas, que cumprem funções diferentes. O líder supremo e o aparato político-religioso estabelecem, para dentro do Irã, os pilares da sobrevivência e da dignidade nacional. A chancelaria traduz essa doutrina para a linguagem do direito internacional e da interlocução diplomática. Abbas Araghchi domina de maneira notável o código midiático ocidental: fala inglês com fluência, administra os silêncios, é firme sem recorrer a exabruptos e projeta uma calma que dá mais peso a cada frase. Em paralelo, Ebrahim Zolfaghari, porta-voz do comando operacional conjunto das Forças Armadas da República Islâmica do Irã, encarna o registro da ameaça serializada. E ao redor desse núcleo se movimenta uma periferia móvel, ambígua e criativa: contas alinhadas, canais virais, meios semioficiais, peças produzidas com inteligência artificial, vídeos de Lego, anime, microficções de guerra concebidas para circular nas plataformas. A comunicação iraniana não se apresenta como um bloco compacto, mas como um ecossistema.

O clipe circulou pelo planeta inteiro:

— Ei, Trump, você está demitido! Você conhece bem essa frase. Obrigado pela atenção dispensada a este assunto. Quartel-General Central de Jatam al-Anbia.

Zolfaghari é provavelmente a figura mais estranha e eloquente de toda essa engrenagem. Ou talvez seja melhor dizer que é quem expressa com maior clareza o ponto de mutação. Seria de esperar que o porta-voz militar de um Estado como o Irã correspondesse a uma iconografia solene, a um tom monocórdio, a uma presença cênica vertical. Zolfaghari chega com outra textura: frases curtas, pensadas para circular como recortes, e uma ironia desafiadora. Sua capacidade de retaliação não aparece como um gesto isolado ou desesperado, mas como uma promessa administrada de punição e um desejo de vingança que encontra ressonância em todos os que foram agredidos. A ameaça ganha rosto, cadência, respiração. Deixa de ser uma abstração do aparelho estatal e entra na intimidade do feed. Essa mutação importa porque torna perceptível um deslocamento mais amplo: na era das plataformas, a dissuasão precisa de personagens.

A singularidade de Zolfaghari, porém, não está apenas no formato do clipe. O que torna sua forma de enunciação interessante é o cruzamento entre intimidação e leveza, entre dureza e ironia performática. Há uma novidade estética no tipo de imagem que projeta, na maneira como ela circula e na disposição para habitar códigos que destoam da liturgia tradicional do Estado. O vídeo em que aparece andando de skate enquanto um míssil é lançado atrás dele, bebendo suco de romã e empunhando um bastão de selfie, condensa esse deslocamento de forma quase obscena. A cena mistura guerra e publicidade, ameaça e meme, destruição e cultura visual pop. Produz um curto-circuito. O porta-voz militar deixa de ocupar exclusivamente o lugar do funcionário sisudo e se aproxima do território do influenciador bélico, capaz de transformar a retaliação em uma imagem pronta para viralizar. O efeito é perturbador porque banaliza a violência ao inseri-la em uma cena lúdica, mas também porque propõe uma nova pedagogia do poder: a capacidade de combater envolta em uma estética de descontração.

Nesse repertório, a humilhação do adversário ocupa um lugar central. Trump aparece com frequência como um personagem impulsivo, errático, fisicamente deteriorado e politicamente degradado. A propaganda iraniana explora suas hesitações, os sintomas de fadiga interna nos Estados Unidos e o crescente desconforto de uma parcela da opinião pública estadunidense diante da guerra. Diferentes pesquisas mostram uma queda no apoio aos ataques entre os próprios estadunidenses, uma rejeição considerável ao envio de tropas terrestres e uma preferência majoritária por uma saída rápida do conflito. Teerã aprofunda uma fissura que não precisou inventar. Sua operação consiste em mostrar que a potência agressora trava a guerra a partir de uma base social fraturada, que a liderança de Trump carrega consigo uma erosão de legitimidade e que a vontade de punição imperial convive com sinais cada vez mais visíveis de esgotamento interno.

A referência ao caso Epstein entra nesse mesmo circuito. Funciona como um significante condensador, um atalho narrativo e moral. Em vídeos virais, especialmente dentro do ecossistema de IA e da estética Lego, Trump aparece examinando materiais ligados a Epstein enquanto ordena bombardeios, como se a própria guerra fosse também uma grande manobra de distração diante da podridão da elite estadunidense. A cena não pretende provar nada em sentido judicial. Opera no registro da associação fulminante. Corrupção sexual, impunidade oligárquica, decadência moral do establishment, manipulação midiática, guerra como cortina de fumaça. Na economia da atenção, em que o tempo de leitura é mínimo e a capacidade de condensação vale mais do que um dossiê inteiro, “Epstein” oferece um nó de sentido formidável. Organiza, em uma única palavra, tudo aquilo que é moralmente inaceitável para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo.

Lego Wars

A música se chama “L.O.S.E.R” e é um rap incendiário animado com Lego. Um dos versos diz “taste the ash of defeat” (saboreie o pó da derrota). Outra cena mostra um túmulo de plástico com a inscrição “R.I.P. Donald Trump”. Uma Casa Branca de brinquedo aparece atingida por mísseis e tomada pelas chamas. Há também uma peça em que mísseis voam carregando mensagens dedicadas a vítimas históricas da violência dos Estados Unidos — povos indígenas estadunidenses, aldeões vietnamitas, negros escravizados — sob uma palavra de ordem que condensa toda a aposta simbólica do canal: “uma vingança para todos”. Essa frase importa. Ela faz muito mais do que inflamar. Reorganiza a guerra atual dentro de uma cadeia de agravios. Faz do presente o acerto de contas de uma dívida acumulada. E confere à retaliação uma densidade histórica, quase genealógica.

Com esses vídeos produzidos por inteligência artificial, a guerra se transforma em outra coisa. Ou, melhor dizendo, torna-se visível de outra maneira. O formato realista explora ao máximo a imersão e a sensação de potência. O anime se apropria da serialidade épica e dos códigos globais da cultura visual juvenil. O Lego, por sua vez, condensa a operação mais estranha e eficaz: miniaturiza a guerra, infantiliza o desastre, coloca rap como trilha sonora de um cemitério de caricaturas. O resultado é uma mistura instável de riso, horror, fascínio e rejeição. Esse registro não enfraquece o conteúdo político; modifica sua porta de entrada. Reduz barreiras afetivas, torna comunicável o insuportável, transforma o conflito em objeto memético.

O caso do Akhbar Enfejari — posteriormente rebatizado como Explosive Media — mostra a passagem de uma propaganda de baixa circulação para uma máquina capaz de instalar artefatos virais em escala transnacional. Antes da guerra, o canal produzia comentários morais e políticos, animações discretas, conteúdo de pouco alcance. Com o conflito, encontrou uma forma. E, sobretudo, um ritmo. Os vídeos de Lego ganharam uma identidade reconhecível, chegaram a milhões de visualizações, circularam pelo X, Telegram e outras plataformas, foram repercutidos por contas iranianas e apropriados por usuários anti-Trump no Ocidente. Essa deriva importa porque revela uma característica central da propaganda contemporânea: sua eficácia já não depende apenas da verticalidade estatal, mas também da capacidade de se transformar em material remixável e compartilhável.

O canal também soube ler a linguagem da conspiração e da trolagem online. Faz referências aos rumores sobre a morte de Netanyahu e sua suposta substituição por um deepfake; brinca com as especulações sobre a saúde física de Trump e desenha em sua mão um hematoma que parece florescer. Em um dos vídeos, talvez o mais revelador, o canal mostra um Trump de Lego examinando imagens dos arquivos de Jeffrey Epstein antes de criar uma distração por meio do míssil que atingiu uma escola de meninas iranianas. A sequência produz um efeito de chicotada: guerra internacional e lixo memético comprimidos numa mesma superfície visual. Essa condensação define bem o gênero. O vocabulário é lúdico, o conteúdo é mortífero. E é justamente essa fricção que torna essas produções tão eficazes na disputa pela atenção.

Há ainda um dado decisivo: a velocidade de produção. Segundo declarações dos criadores do Akhbar Enfejari reunidas por este artigo para a The New Yorker, um vídeo de dois minutos é produzido em cerca de 24 horas. Essa temporalidade altera as condições clássicas da propaganda. A peça já não depende do ritmo pesado da indústria nem de longos ciclos de produção. Nasce em sincronia com a conjuntura. Respira junto com o conflito. Reage a cada minuto. Aprende com o engajamento. Muda de idioma quando necessário, como fez o canal ao começar a publicar em inglês para ampliar sua audiência. A inteligência artificial oferece aqui menos uma novidade metafísica do que uma vantagem logística e semiótica. Barateia, acelera, multiplica registros, permite saturar.

O interessante é que essa máquina fala uma língua que o próprio ecossistema midiático ocidental ajudou a normalizar. Trump, MAGA e as novas direitas travam há anos batalhas simbólicas por meio de memes, vídeos de montagem frenética, piadas degradantes e videogames. A propaganda iraniana entra nessa língua como um aprendizado brutal. Apropria-se dela, retorce-a e a devolve contra seus donos. Fala a língua do centro, mas a partir da periferia. Usa os códigos do espetáculo político digital para corroer a autoridade do emissor estadunidense. Essa inversão explica boa parte de sua eficácia. Não se apresenta como uma exterioridade moralmente pura diante da degradação contemporânea; mergulha nela e tenta transformá-la em um bumerangue.

É claro que não convém exagerar o alcance dessa operação. A comunicação iraniana não recompôs por completo a imagem internacional de Teerã, não eliminou as suspeitas nem dissolveu décadas de sedimentação negativa. O que produziu foi algo mais complexo e mais modesto, embora politicamente muito significativo: fraturou a leitura unívoca. Em setores do Sul Global, especialmente onde a memória do intervencionismo continua organizando a percepção do presente, o Irã conseguiu aparecer com maior nitidez como um ator agredido, porém resistente. Ainda assim, a recepção continua fragmentada. E essa fragmentação já é, em si, um resultado. O monopólio ocidental da interpretação perde sua exclusividade quando a outra parte consegue impor gramáticas próprias. É verdade que vivemos em um mundo pós-Gaza, Iraque e Afeganistão, três guerras que arruinaram a credibilidade dos argumentos do império. E vale reconhecer que Trump e Netanyahu são personagens que se demonizam sozinhos. Ainda assim, ninguém havia conseguido atingi-los e degradá-los de forma tão eficaz.

Por outro lado, a dimensão cognitiva ganha cada vez mais peso, mas tampouco define o desfecho de uma guerra. A história não se decide exclusivamente no feed. A percepção precisa de ancoragem material. A imagem precisa de infraestrutura. A propaganda exige correlação de forças, produção militar, inteligência estratégica, soberania digital, capacidade real de sustentar um conflito ao longo do tempo. Uma cena brilhante sem potência por trás se desfaz rapidamente. Um meme devastador sem direção política acaba como resíduo de uma época. Este texto se deteve em um dos planos da guerra porque esse plano costuma ser subestimado ou interpretado com categorias antigas. Ninguém deveria, porém, confundi-lo com o todo. A novidade do nosso tempo não está em o míssil ter sido substituído pelo meme. Está no fato de que ambos agora viajam pela mesma corrente, se tocam, se amplificam e se traduzem mutuamente.

*Gonzalo Armua é coordenador da Fundação para o Desenvolvimento Humano Integral e secretário de Política Internacional do partido Patria Grande (Argentina) e pesquisador do Instituto de Estudos da América Latina e Caribe da Universidade de Buenos Aires e doutorando em Ciências Sociais (UBA).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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