Protagonismo

Venham antes da Copa acompanhar o futebol feminino – e não porque o futebol masculino falhou

Jogadoras de futebol devem ser reconhecidas por seu trabalho e não como fuga do fracasso masculino

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Reconhecer o futebol feminino é fundamental para a garantia de que haja estrutura e financiamento para modalidade entre as mulheres
Reconhecer o futebol feminino é fundamental para a garantia de que haja estrutura e financiamento para modalidade entre as mulheres | Crédito: CBF/Divulgação

Quem acompanha o futebol de mulheres há algum tempo conhece esse ciclo. Basta uma derrota importante da seleção masculina para Marta voltar aos assuntos do momento. Multiplicam-se as comparações, as estatísticas e as declarações de admiração de última hora. O problema é que, quase na mesma velocidade, chegam os comentários dizendo que “ninguém assiste”, que “ninguém liga”, que “aquilo nem deveria ser chamado de futebol”.

Em uma estrutura que ainda é, por si só, misógina, o ódio costuma ser desproporcional. É ele, e não o elogio, que viraliza. Ao transformar tudo em comparação, acabamos alimentando exatamente o ambiente tóxico que queremos combater. Enquanto a discussão gira em torno de quem é maior, deixamos de falar do jogo, das jogadoras, dos clubes, dos campeonatos e do caminho percorrido para que a modalidade chegasse até aqui. Pior: deixamos de falar de nós, mulheres.

Marta merece todas as homenagens. Se tem uma coisa de que ela não depende, aliás, é do fracasso de alguém (quem dirá de homens!) para confirmar sua grandeza.

Seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo, maior artilheira da história das Copas e referência para gerações de atletas dentro e fora do Brasil, a alagoana segue fazendo história. Continua sendo convocada simplesmente porque entrega gols e assistências (não por nostalgia, muito menos pelo peso do próprio nome).

Um dos aspectos mais bonitos de sua carreira é entender que o tamanho do seu legado também depende de quem vem depois. Marta nunca reivindicou protagonismo eterno. Ao contrário: faz questão de dividir os holofotes, incentivar as mais jovens e lembrar que nenhuma geração transforma o esporte sozinha.

Muito antes dela, outras jogadoras mantinham a modalidade viva. Quando ainda havia pouco espaço na televisão e, inclusive, quando as mulheres sequer tinham o direito de praticar futebol no Brasil, nossas pioneiras já estavam lá.

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Por quase quatro décadas, entre 1941 e 1979, fomos proibidas de jogar bola neste país. Depois vieram o abandono, os campeonatos irregulares, a ausência de investimento e a falta de estrutura. No documentário “Gerações – A Evolução do Futebol Feminino no Brasil”, produzido pela ESPN, Formiga relembra que a seleção bebia água da torneira durante os treinamentos, usava uniformes feitos para os homens e precisava deixar os melhores campos da Granja Comary quando as equipes masculinas iam treinar. Nos anos 1990, muitas atletas sobreviviam com pequenas ajudas de custo. Ainda assim, Sissi, Pretinha, Roseli, “Michael Jackson”, Aline Pellegrino, a própria Formiga e tantas outras seguiram jogando, viajando, insistindo e abrindo caminhos.

Sabe por que elas não esperavam uma derrota da seleção masculina para serem lembradas? Porque estavam ocupadas demais fazendo o futebol de mulheres existir – e resistir.

A Copa do Mundo de 2027 representa uma oportunidade rara não apenas porque será disputada no Brasil, mas porque pode aproximar muita gente de uma modalidade que, “contra tudo e contra todos”, sempre esteve aqui.

O desafio agora é construir uma relação que não dependa de uma eliminação dos homens, nem tampouco da chegada do Mundial. É transformar a curiosidade de hoje em interesse permanente. É conhecer as jogadoras, acompanhar uma temporada inteira, descobrir novos times – ou cobrar que o seu invista de verdade na formação de um elenco competitivo –, levar uma criança ao estádio e perceber que existe muito futebol entre uma Copa e outra.

É assim que a curiosidade deixa de ser passageira e vira cultura esportiva.

Para chegar lá, é preciso compromisso de clubes, federações, emissoras, patrocinadores e da CBF. Não faz sentido cobrar presença do público quando as partidas continuam mal divulgadas, marcadas em horários pouco acessíveis, disputadas longe de quem poderia estar nas arquibancadas ou espalhadas entre diferentes – e restritas – plataformas de transmissão. O futebol de mulheres depende de sua torcida. Antes de conquistá-la, contudo, precisa de condições para encontrá-la.

Há décadas, as jogadoras dizem o que falta para que a modalidade avance. Elas não pedem para serem lembradas somente quando o futebol masculino fracassa ou quando uma comparação viraliza. O que reivindicam é que seu trabalho seja levado a sério. Movidas pelo mesmo amor ao esporte, desejam vê-lo crescer.

Valorizar o futebol de mulheres é reconhecer que elas são as maiores especialistas na própria história. Se há tanto tempo apontam caminhos, denunciam os mesmos obstáculos e apresentam soluções, passou da hora de escutá-las.

As atletas falam de calendário, investimento, estrutura, público e continuidade. Defendem o fortalecimento dos clubes, uma cobertura mais consistente da imprensa e condições para que mais meninas sonhem em seguir esse caminho. Acima de tudo, lutam por um futebol em que jovens (negras, periféricas, indígenas, LBT+s e tantas outras que historicamente precisaram disputar espaço dentro e fora dos gramados) possam não apenas entrar em campo, mas permanecer, crescer e ocupar posições de liderança.

Ao mesmo tempo, uma nova geração começa a escrever seus capítulos. Jogadoras como Tarciane, Duda Sampaio, Jheniffer, Kerolin e Priscila, protagonistas da campanha da medalha de prata em Paris e que se consolidam no ciclo rumo a Los Angeles 2028, mostram que o legado de Marta vai além de “formar uma sucessora”. O que ela busca é criar condições para que muitas outras possam ocupar esse lugar.

Em 2019, realizei o sonho de acompanhar de perto a Copa do Mundo. Foram semanas que mudaram a forma como enxergo o esporte. Estar rodeada de mulheres, viver aquele ambiente e testemunhar uma conquista coletiva, de tantas gerações, reforçou em mim – e nas amigas que comigo estavam – a certeza de que o futebol feminino nunca precisou provar nada para ninguém. Desde então, não vejo a hora de viver isso novamente. Desta vez, no meu país.

Naquele mesmo ano, após a nossa eliminação para a França, Marta disse que era preciso “chorar no começo para sorrir no fim”. Em 2027, espero vê-la sorrir outra vez. Não somente pelo placar, mas porque as arquibancadas estarão cheias de pessoas que chegaram antes da Copa; pessoas que já conhecem as jogadoras, que já criaram vínculo com elas, que sofreram, comemoraram… E que decidiram ficar.

O futebol de mulheres não precisa ser comparado para emocionar. Basta que tenha a oportunidade de ocupar o espaço pelo qual tantas outras lutaram.

*Mariana Franco Ramos é jornalista, mestranda em Políticas Públicas em Direitos Humanos na UFRJ e apaixonada por futebol (d)e mulheres

**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Juliana Passos

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