O Teatro de Arena do Guará recebe, neste domingo (16), a segunda edição do Festival Ragga Brasil, evento gratuito que reúne artistas do Distrito Federal e de outros estados em torno da cultura sound system. A programação começa às 14h e segue até meia-noite, com shows, oficinas, dança, skate, graffiti, feira alternativa e praça de alimentação.
Apresentado pela organização como o primeiro festival dedicado ao ragga no país, o evento é resultado de duas décadas de atuação do Coletivo Batidão Sonoro na cena cultural do DF. Ao longo dos últimos 20 anos, o grupo promoveu eventos e intercâmbios com artistas de diferentes regiões até chegar à proposta de reunir essas experiências em um festival.
Segundo Roberto Pessanha, produtor cultural, DJ e integrante do Batidão Sonoro, a iniciativa surgiu da percepção de que, apesar da existência de uma cena consolidada no país, ainda faltam espaços capazes de conectar artistas, coletivos e públicos.
“Percebemos que existe uma cena forte de ragga, reggae, dancehall, hip hop, sound system no Brasil, mas ainda faltava um espaço que conectasse esses artistas, coletivos e públicos e desse maior visibilidade a essa produção tão potente dentro dos territórios”, afirma.
Nesta edição, o festival recebe artistas de diferentes estados e mantém forte presença da produção local. Entre os nomes anunciados estão Jéssica Caitano, Mis Ivy, Winnit, Negra Eve, KINGZULU, KBC, Aborígine, Ray Psiu e Ras Kakaroto.
Para Pessanha, a circulação é uma das principais dificuldades enfrentadas por quem produz de maneira independente. O encontro promovido pelo festival, segundo ele, busca fazer com que artistas que já possuem trabalhos consolidados em seus territórios consigam chegar a outros públicos.
“Muitas vezes existe uma produção muito boa acontecendo em um estado, mas ela não consegue chegar a outros públicos. O festival cria justamente essa ponte”, explica. A expectativa, acrescenta, é que as conexões ultrapassem o próprio evento e resultem em “novas parcerias, shows, produções e possibilidades de circulação para esses artistas”.
Das regiões administrativas para a cena nacional
A realização do festival no Guará também chama atenção para uma produção cultural que não está restrita à região central de Brasília. Ceilândia, Samambaia, Varjão, Planaltina, São Sebastião e outras regiões administrativas são apontadas pela organização como territórios fundamentais para a consolidação da cultura urbana no DF.
Para Marcela Coelho, produtora cultural do Batidão Sonoro, a tradição de ocupação dos espaços públicos e de organização de coletivos ajudou a construir uma identidade própria no Distrito Federal.
“Quando falamos de Brasília, não podemos pensar apenas no Plano Piloto. A cultura é produzida diariamente nas regiões administrativas”, destaca.
Segundo ela, foi nesse ambiente de produção independente e ocupação da cidade que a cultura sound system encontrou espaço para crescer.
“O sound system encontrou aqui pessoas que já tinham essa disposição para ocupar a cidade, criar seus próprios eventos e construir alternativas. Por isso, Brasília e o DF acabaram se tornando uma referência”, avalia.
A relação com os territórios também aparece na escolha do Teatro de Arena do Guará para receber o festival. Para a organização, ocupar equipamentos culturais nas próprias regiões administrativas faz parte da proposta de aproximar diferentes públicos e reconhecer a produção que já acontece nesses locais.
Além dos palcos
A programação não se limita às apresentações musicais. Antes dos shows, das 14h às 16h, serão realizadas oficinas gratuitas de DJ, com DJ Chokolaty; produção musical, ministrada por Ramiro Galas; e Ragga Dancehall, conduzida por NG Coquinho, de São Paulo.
O evento terá ainda intervenções de dança, competição de skate e graffiti ao vivo. A proposta é colocar em diálogo manifestações que compartilham trajetórias ligadas à cultura urbana e aos territórios periféricos.
Francisco Pessanha, produtor cultural e DJ do Batidão Sonoro, afirma que essa dimensão orientou a própria construção do festival.
“O reggae, o ragga, o dancehall e o hip hop são linguagens que nasceram e cresceram em territórios onde a música também era uma forma de expressão, resistência, identidade e organização comunitária”, afirma.
É também por isso, segundo ele, que a organização optou por não construir apenas uma sequência de apresentações musicais. Oficinas, dança, skate e outras atividades procuram ampliar as possibilidades de formação, circulação e intercâmbio entre quem participa do evento.
“O nosso desejo é que o festival deixe algo depois do dia 16. Que novos artistas conheçam outros artistas, que o público descubra novas referências e que sejam criadas possibilidades de trabalho e colaboração”, diz.
Mulheres ocupam toda cadeia cultural
A presença feminina também ganha espaço na segunda edição. Um dos destaques será o lançamento da mixtape “Rude Gyals DF Convida”, produzida por Lirys Catharina e com participação de Sista Lirys, Under, Thabata Lorena, Negra Eve, Pratanes, Ísis Zavlyn, Azla, Nativa, Tremenda Garnet e Seculovintium.
Para Marcela Coelho, ampliar essa participação não significa apenas aumentar a quantidade de mulheres nos palcos, mas a ocupação dos diferentes setores que sustentam a produção cultural.
“Queremos mulheres produzindo, compondo, fazendo DJ, dançando, trabalhando na técnica, na comunicação, na produção e ocupando todos os espaços da cadeia cultural”, afirma.
Ela aponta que desigualdades ainda atravessam a cena independente. Entre os desafios estão o acesso aos palcos, remuneração, reconhecimento profissional, segurança e respeito nos espaços culturais.
“É importante que uma menina que esteja começando agora consiga olhar para o palco e enxergar mulheres que são referências para ela”, acrescenta.
Fomento garante trabalho e acesso à cultura
A segunda edição do Ragga Brasil é realizada com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF). Francisco Pessanha ressalta que a realização vai além dos artistas que aparecem no palco, envolvendo técnicos, produtores, profissionais de comunicação, segurança, transporte e estrutura.
“Sem políticas públicas, é muito difícil realizar um evento com essa dimensão e, ao mesmo tempo, garantir que as pessoas que trabalham nele sejam remuneradas de forma adequada”, afirma.
Segundo ele, mecanismos como o FAC também possibilitam que manifestações com menor inserção no mercado encontrem condições para produzir e ampliar seu alcance.
“O recurso não fica apenas no festival. Ele circula entre os profissionais e movimenta toda uma cadeia da economia da cultura”, destaca. “Quando a gente fala de investimento em cultura, está falando também de trabalho, renda, formação, diversidade e direito à cultura.”
Para a organização, é justamente esse reconhecimento da cultura urbana como trabalho e produção de conhecimento que deve permanecer depois que os equipamentos de som forem desligados.
“Quem está nos territórios não precisa esperar alguém de fora chegar para dizer que aquilo que está fazendo tem valor”, conclui Francisco.
Serviço
Data: domingo (16)
Local: Teatro de Arena – Guará
Horário: 14h às 00h
Entrada: Gratuita, com retirada de ingressos pelo Sympla (link aqui)
Classificação: 18 anos, menores de idade somente acompanhados pelo responsável legal
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