REAÇÕES

Governo interino da Venezuela anuncia retomada de serviços consulares com Israel; movimentos protestam

Aproximação com Israel divide posições na base do chavismo; governo Netanyahu enviou delegação ao país após terremotos

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Manifestação em Caracas, no dia 24 de julho, rejeitou a reaproximação da Venezuela com o regime sionista.
Manifestação em Caracas, no dia 24 de julho, rejeitou a reaproximação da Venezuela com o regime sionista. | Crédito: Maxwell Briceño/AFP

O Ministério das Relações Exteriores da Venezuela informou nesta terça-feira (11) que concordou com o governo de Israel em “permitir a continuidade da cooperação técnica bilateral decorrente dos esforços de emergência e recuperação após os terremotos”, assim como “facilitar a prestação de serviços consulares” a cidadãos de ambos os países.

No comunicado divulgado, a chancelaria venezuelana afirma que as conversas começaram após o duplo terremoto do dia 24 de junho, quando o Estado de Israel prestou “apoio humanitário” ao país, no socorro às vítimas. As relações diplomáticas entre Caracas e Tel Aviv estão rompidas desde 2009.

“Além disso, os dois países concordam em estabelecer um mecanismo de coordenação para facilitar a prestação de serviços consulares aos seus respectivos cidadãos residentes no outro país, conforme necessário”, afirma a Chancelaria venezuelana em nota, destacando “a importância do vínculo entre o Estado de Israel e a comunidade judaica residente na Venezuela, que constitui uma ponte significativa de amizade histórica entre as duas nações”.

Movimentos populares venezuelanos consideram a medida um retrocesso e associam o movimento às interferências estadunidenses desde os ataques de 3 de janeiro deste ano, que culminaram com o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da primeira-dama e deputada, Cilia Flores.

No último domingo (9), o chanceler venezuelano, Félix Plasencia, recebeu o rabino Isaac Cohen, presidente da Associação Judaica Venezuelana, que entregou ao ministro uma carta na qual a comunidade israelita solicitava o restabelecimento das relações diplomáticas e consulares entre a Venezuela e Israel.

A Venezuela rompeu relações diplomáticas com Israel em 2009, no governo do então presidente Hugo Chávez, em resposta a operações militares do regime sionista no território palestino ocupado. “Maldito seja o Estado de Israel. Maldito seja, terrorista e assassino”, declarou Chávez à época.

Rejeição popular

Em reação, o Movimento Venezuelano de Solidariedade com a Palestina Al Awda divulgou uma nota na tarde desta terça-feira na qual “rejeita categórica e contundentemente” qualquer tentativa de restabelecer relações diplomáticas entre a Venezuela e o Estado de Israel.

“Normalizar relações neste momento não é diplomacia; é impunidade. Não podemos apertar as mãos daqueles que sustentam o bloqueio, a fome forçada e o genocídio contra o povo palestino há décadas, que se intensificou em Gaza nos últimos três anos”, diz o comunicado.

A nota lembra que o Estado de Israel enfrenta acusações de genocídio perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ) e viola sistematicamente as medidas da ONU. “[Israel] proíbe a passagem de alimentos, água e medicamentos para milhões de civis, violando as Convenções de Genebra e o Estatuto de Roma”, afirma o texto.

“Rejeitamos o uso da retórica e da ‘cooperação’ para encobrir a barbárie e o apartheid. A diplomacia não pode ser usada para acobertar crimes contra a humanidade. Exigimos que o Ministério das Relações Exteriores mantenha uma política externa firme, ética e consistente, que defenda a justiça universal e os direitos humanos”, prossegue o texto, afirmando ainda que “o silêncio nos torna cúmplices”, e defendendo “o fim do genocídio e da ocupação sionista” na Palestina.

Protestos

No dia 24 de julho, feriado nacional na Venezuela em comemoração ao nascimento do libertador Simón Bolívar, os venezuelanos realizaram um protesto contra a presença israelense no país e rejeitaram toda e qualquer aproximação com o governo sionista, alegando tratar-se de um regime genocida, que cometeu comprovados crimes de guerra contra o povo palestino. 

Na ocasião, Hindu Anderi, coordenadora da Plataforma Internacional de Solidariedade com a Causa Palestina, qualificou como “indignante” o que considera um “retrocesso” na postura histórica da Venezuela em relação aos crimes de Israel contra o povo palestino.

“É muito indignante. Porque nós sabemos quem é o regime terrorista de Israel, quais são seus interesses no sul da Ásia, na África, na Europa e na América. Ou seja, eles têm interesses muito particulares que todos conhecemos. É invadir territórios, é roubar territórios, é deslocar populações. Para isso cometem genocídios, são parte de um movimento que é um movimento fascista, segregacionista, racista, como é o sionismo”, afirma a ativista. 

Para ela, esse giro é produto da “ocupação” estadunidense após o bombardeio de 3 de janeiro. “Para nós, é um momento de retrocesso nesse sentido, porque entendemos que o povo da Venezuela, a partir de 3 de janeiro, está sendo ocupado, tentam nos humilhar também e, sobretudo, nos dividir e nos dispersar”, completa.

Indignação também é o que expressa o analista político e militante socialista Gustavo Martínez Rubio. “Falar de Israel, certamente, é falar do sionismo e, como pode ser visto nas imagens que têm sido mostradas, é falar de um Estado assassino, massacrador e genocida que, em nome de uma suposta reconstrução no âmbito das terríveis consequências dos terremotos do último 24 de junho, observa a presença de funcionários militares desse Estado criminoso”, afirma Martínez.

Editado por: Lucas Estanislau

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