LUTA ORIGINÁRIA

Livro resgata memórias da resistência indígena no Nordeste durante a ditadura e terá lançamento em Caruaru e Recife

'Retomada - Memórias Indigenistas no Nordeste' reúne fotos, documentos e recortes de jornais entre 1978 e 1988

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Livro contará com lançamento em Caruaru, nesta quarta-feira (12), e no Recife, na sexta-feira (14)
Livro contará com lançamento em Caruaru, nesta quarta-feira (12), e no Recife, na sexta-feira (14). | Crédito: Acervo CIMI/Divulgação

Fotografias, documentos e recortes de jornais reunidos ao longo de 15 anos de pesquisa ajudam a reconstruir parte da história das mobilizações dos povos indígenas do Nordeste entre 1978 e 1988. Esse acervo deu origem ao livro-álbum “Retomada – Memórias Indigenistas no Nordeste: uma mirada sobre o acervo do CIMI de 1978 a 1988”, que será apresentado nesta quarta-feira (12), às 16h, no Centro Acadêmico do Agreste da UFPE, em Caruaru, e na sexta-feira (14), às 14h, no Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFPE, no Recife.

A publicação recupera registros de lutas por reconhecimento, território e direitos em um período marcado pela ditadura civil-militar e pela transição para a democracia. Com 220 páginas, a obra foi construída a partir do acervo do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Regional Nordeste, e reúne mais de uma centena de imagens, além de documentos e materiais publicados pela imprensa.

O conjunto permite acompanhar diferentes momentos da organização dos povos indígenas, incluindo assembleias, mobilizações, retomadas de territórios e episódios de repressão. A pesquisa também lança luz sobre a vigilância exercida pela ditadura sobre indígenas e indigenistas.

Entre os documentos utilizados estão materiais disponíveis no Sistema de Informação do Arquivo Nacional (Sian), parte deles reunida pela Comissão Nacional da Verdade, que registra o monitoramento de integrantes do CIMI e de lideranças indígenas por órgãos do regime.

O livro percorre as trajetórias de 16 povos indígenas dos atuais estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Paraíba. Xokó, Kariri-Xokó, Truká, Kambiwá, Pankararé, Kaimbé, Kapinawá, Pankararu, Kiriri, Potiguara, Tuxá, Wassu Cocal, Xukuru Kariri, Geripankó, Fulni-ô e Xukuru do Ororubá aparecem na publicação a partir de diferentes registros históricos.

O ponto de partida da linha do tempo é 1978, quando ocorreu em Garanhuns, no Agreste pernambucano, a 1ª Assembleia de Pastoral Indigenista do Nordeste, marco da atuação do CIMI na região. A entidade passou a acompanhar as mobilizações indígenas e a reunir informações sobre comunidades, conflitos e reivindicações territoriais, criando uma documentação que hoje permite observar parte da história do movimento indígena no período.

A década seguinte foi marcada pelo fortalecimento dessas articulações e pela busca de reconhecimento étnico e territorial diante do Estado brasileiro. As mobilizações enfrentaram ameaças, violência e repressão, ao mesmo tempo em que contribuíram para aproximar as reivindicações de diferentes povos e fortalecer a construção de um movimento indígena nacional.

A publicação é resultado do projeto Memórias Indigenistas no Nordeste, desenvolvido desde 2013 com o objetivo de recuperar, organizar e preservar o acervo do CIMI Regional Nordeste. O trabalho envolveu etapas de digitalização, inventário e catalogação de documentos que estavam dispersos e que passaram a ser organizados como fonte para pesquisas sobre a história indígena e indigenista na região.

A organização é assinada por Lara Erendira A. de Andrade, professora da Licenciatura Intercultural Indígena do CAA/UFPE, Manuela Schillaci, do Núcleo de Estudos sobre Etnicidade da UFPE, e Alexandre Gomes, professor de Etnologia Indígena do Instituto de Humanidades da Unilab.

Para Manuela Schillaci, coordenadora executiva do projeto, recuperar esses registros também significa confrontar processos históricos de apagamento da presença indígena. A proposta, segundo ela, é contribuir para as reivindicações dos povos indígenas relacionadas à memória, à verdade e à justiça. “Nosso intuito é contribuir com a luta dos povos indígenas por seu direito à memória, à verdade, à justiça — somando no coro que vem se construindo nacionalmente por uma Comissão Nacional da Verdade Indígena”, explica.

Com tiragem de mil exemplares, o livro será distribuído entre escolas indígenas de Pernambuco. A publicação também terá uma versão digital, disponibilizada a partir de 7 de setembro, e conta com audiodescrição de uma seleção de fotografias para ampliar o acesso de pessoas com deficiência visual.

“Retomada” será apresentado dentro da programação da IX Jornada de Estudos sobre Etnicidade, organizada pelo Núcleo de Estudos sobre Etnicidade da UFPE. A obra é dedicada a Alcilene Bezerra (1975–2026), vice-presidente do CIMI e ex-coordenadora do Regional Nordeste, que participou do processo de realização da pesquisa.

A publicação conta com incentivo do Funcultura, do Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundarpe.

Editado por: Rostand Tiago

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