encruzilhada

O entreguismo de Javier Milei e o perigo do tecnofascismo

As aventuras fascistoides e desmioladas de Milei podem nos levar à extinção da democracia formal   

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Privatização é a maior do governo Javier Milei.
Privatização é a maior do governo Javier Milei. | Crédito: Alejandro Pagni / AFP

A Argentina enfrenta uma encruzilhada perigosa. O presidente Javier Milei e suas políticas de desregulação, combinadas com o alinhamento geopolítico e a chegada de atores com um histórico questionável em termos de direitos civis, criam um cenário de riscos elevados – extensivos a toda a América Latina.  

O exame do governo protofascista de Milei deve resultar em um alerta poderoso sobre os perigos da entrega de soberania, entrega de dados, bem como de vastos territórios a interesses privados e estrangeiros sem um debate democrático profundo e sem os marcos legais adequados para proteger a sociedade. 

As afinidades e riscos do presidente argentino nos permitem   profetizar o inevitável tecnofascismo.  

Javier Milei era um comentarista baixa-extração de TV. Chegou à presidência de uma nação em tempo recorde. 

Ora, nada disso se deveu a suas altas aptidões (que não as têm), mas ao respaldo que, desde o dia um, o envolveu numa alternativa real graças à sua imagem pública predominantemente digital. 

Se Milei foi eleito, foi por ter sido escolhido antes pela elite internacional para executar a cessão de soberania que o capital tecnológico precisa e exige. 

A Palantir e o fim da democracia 

Milei não esconde, ao contrário, se orgulha de ser amigo e adepto do dono da empresa de alta tecnologia Palantir, o ultraconservador Peter Thiel.

Para saber quem é Thiel basta identificar a sua corrente filosófica neo-reacionária e tecnofascista, formulada pelo programador Curtis Yarvin, o filósofo Nick Land, e articulada teoricamente pelo próprio Thiel em um ensaio de 2009.

Thiel sentencia: “Não acredito que a liberdade e a democracia sejam compatíveis. O grande salto deve ser a fuga da política”.

Trata-se de uma arquitetura ideológica que repousa em três pilares: 

1) Neocameralismo: substituição da democracia ineficiente por um Estado redesenhado como corporação privada (Joint-Stock Republic), gerido por um CEO não-eleito e cidadãos sem mais direitos políticos do que aqueles que os tornam clientes ou usuários sob contrato formal.

2) O princípio de “Exit” (Saída): governança não definida por voto popular. A única liberdade capaz de ser exercida é migrar, se não aceitares as regras ditadas pela empresa proprietária do solo. Não há mais direitos, Não há mais democracia.

3) Materialização espacial: criação de Charter Cities (cidades privadas autônomas), plataformas marítimas flutuantes (seasteading) e micronações corporativas dentro de Estados ocupados. Geralmente debilitados e permeáveis, graças a crises financeiras previamente fabricadas.  

A Palantir Technologies é a coluna vertebral da inteligência militar, preditiva e fronteiriça. Ela tem contratos com a CIA, FBI,  Departamento de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) e o Pentágono. Seu software, como o Gotham, é um poderoso instrumento de vigilância que integra e cruza dados de múltiplas fontes.

Instalada fisicamente e dentro da estrutura estatal argentina, o país estará destinado a se tornar um hub de inteligência de Washington e Tel Aviv.

Além disso uma grandíssima ameaça internacional, por completo descontrole. 

A Palantir não só se habilitaria à vigilância preditiva sobre a população, mas como corporação privada o faria sem limites legais nem estatais. Sem que ninguém saiba o que estão medindo, como, quando, onde nem a quem, dentro e fora das fronteiras nacionais. 

A espionagem em tempo integral facilitaria o processamento satelital em tempo real para rastrear reservas de água, lítio, cobre ou colheitas e rebanhos, antes que os próprios Estados soberanos com os quais a Argentina tem tido historicamente uma relação neutra. 

Controle social e guerra cognitiva transfronteiriça, que acelera desde a Argentina, mas sem a Argentina, a criação de mapas de influência para vigiar a cidadania e manipular cenários eleitorais em países limítrofes como Brasil, Chile, Uruguai e Bolívia. 

Uma rigorosa distopia 

Não há leituras alternativas. O projeto que Milei encarnou em nome de uma liberdade (de trair e subjugar a Nação) e aliar-se a Peter Thiel em nome de seu amor por – água e terras da Argentina – não é novo e não é improvisado. É o plano que alguém sonhou algum dia para substituir a República e a soberania do Estado-Nação por um modelo autoritário e hipertecnológico. 

Um plano que precisava de uma Argentina em certas condições para seu controle solitário. 

Sem alianças regionais. Sem marcos legais. Sem capacidade de reação coletiva e popular. Tudo o que um dia um magnata imaginou, depois converteu em doutrina e esperou até a hora em que alguém sustentado pela elite e capaz de qualquer coisa lhe abrisse a porta de seu próprio país de dentro para fora.

O que busca a Palantir na Argentina 

A ligação entre Thiel e o presidente Milei, ambos autodeclarados anarcocapitalistas, é um fato amplamente documentado. Eles se reuniram em 2024 e novamente em abril de 2026, encontro que foi classificado como “maravilhoso” por Milei. O magnata Thiel comprou uma mansão em Buenos Aires, o que indica um interesse pessoal e potencialmente estratégico no país. 

O controle de terras em zonas frias, combinado com as principais reservas hídricas continentais do país, responde à exigência física de resfriamento que demandam as fazendas de servidores massivos para os sistemas avançados de IA. 

O modelo exige um fornecimento contínuo e ininterrupto em escala de gigawatts, o que demanda acesso direto ao potencial eólico, solar e à Vaca Muerta (vasto complexo energético da província de Neuquén) para criar redes elétricas autônomas e operadas à margem do sistema de distribuição público. 

Penetração de espionagem na estrutura estatal para o desdobramento de software de mineração de dados massiva (deep-data mining), dando alcance às bases de dados da cidadania e das agências estatais. 

As consequências deste ensaio tecnofascista e extrativista transcendem a teoria política e projetam consequências territoriais de altíssima gravidade para toda a região continental.

A Palantir exige uma completa reconfiguração do mapa nacional. Exige megapropriedades em fronteiras ou bacias hídricas onde a justiça local e as forças de segurança já não terão capacidade operacional, e onde os reclamos cidadãos que recaiam sobre esses feudos hipervigiados deverão ser feitos em tribunais internacionais onerosos e inalcançáveis. 

Calcula-se que um megacentro de hiperescala como o de Peter Thiel consumiria entre 10 e 15 milhões de litros de água doce por dia (o consumo diário de uma cidade de 100 mil habitantes). Um recurso que seria devolvido quente ao solo, destruindo totalmente ecossistemas naturais como os do Rio Negro – na Patagônia – por priorizar o resfriamento de microprocessadores sobre o consumo humano e de animais, tanto os de pastoreio, como os selvagens. 

Nesta altura, o colapso hídrico estaria irreversível e completo.

Milei encontra pedras no meio do caminho 

Quinta-feira passada (6) houve manifestações de massa em Buenos Aires e no norte do país. Foram motivadas pela votação da controversa Lei da Inviolabilidade da Propriedade Privada, impulsionada pelo presidente Milei, atendendo as pretensões ilegítimas e ilegais da Palantir e muitos outros investidores globais. 

Os atos atingiram o ápice em frente ao Congresso Nacional, resultando em violentos confrontos entre manifestantes e a polícia de repressão. 

Observamos que a mídia corporativa do Brasil não publicou nada sobre o movimento popular anti-Milei e a derrota do governo no Congresso. A mesma mídia que – dias antes – divulgou fartamente as tolices, fanfarronices e molecagens do presidente argentino ao comparecer a um ato político-eleitoral de Flávio Bolsonaro no Brasil. 

A mobilização reuniu sindicatos, estudantes e movimentos sociais sob o lema “A pátria não se vende”. Diante do avanço da marcha, as forças de segurança aplicaram o modelo antipiquetes, que significa “tratamento a ferro e fogo”. 

Pressionado pela forte resistência social e pela falta de apoio de governadores aliados, o governo Milei recuou e retirou os trechos mais polêmicos antes da votação. Foram excluídos os artigos que facilitavam a venda de territórios a estrangeiros e a exploração imobiliária de zonas incendiadas. 

Mesmo desidratada, a versão modificada da lei foi aprovada pelo Senado por uma margem apertada (37 votos a favor e 33 contra) e seguiu para avaliação na Câmara dos Deputados. 

O impacto econômico planejado pelo governo Milei com a nova Lei da Inviolabilidade da Propriedade Privada visa desregulamentar mercados chaves para atrair investimentos estrangeiros diretos e reduzir custos de transação no país. 

A estratégia original previa uma abertura agressiva do setor imobiliário e agrícola, mas a desidratação do texto no Senado alterou a força desses planos.

O plano pretendia extinguir o limite legal vigente de 15% de terras rurais pertencentes a estrangeiros. O objetivo foi o de atrair fundos de investimento globais e bilionários do setor agropecuário e de mineração pesada.

A proposta eliminaria proibições de uso comercial e imobiliário por até 60 anos em áreas atingidas por incêndios. A meta era destravar o desenvolvimento de projetos turísticos, agrícolas e minerários em zonas antes protegidas. 

A ofensiva direitista não foi anulada completamente

Como se vê, a ofensiva dos autodenominados anarcocapitalistas foi rechaçada, mas ainda está longe de ter sido anulada em definitivo. O Congresso é fraco e suscetível a   perigosos comportamentos pendulares. 

A participação das massas e de parte do Judiciário argentino foram determinantes para o recuo tático dos poderosos anarcocapitalistas internacionais.  

O perigo está no ar, mas não só na Argentina, hoje um laboratório da extrema direita tecnofeudalista internacional, mas em toda a América Latina. 

Os recentes resultados vitoriosos da direita no Chile, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, bem como o nebuloso caso do bolivarismo venezuelano e o sequestro relâmpago de Maduro exibem e demonstram uma ofensiva bastante exitosa do trumpismo tecnofeudal no continente sulamericano.  

O Brasil tem um papel politicamente muito importante neste contexto regional. Estamos em pleno processo eleitoral, cujo resultado está longe de ser conhecido. Há indícios importantes de abandono e isolamento do candidato bolsonarista. 

Diante da evidente fragilidade do candidato indicado por Jair Messias, está havendo uma escandalosa militância ilegal de dois ministros do STF, Kássio Nunes Marques e André Mendonça, ambos atuando em dupla jornada no TSE, sempre em desfavor da democracia e da lisura na disputa eleitoral. 

Mendoncinha, de forma atrevida e voluntariosa, assoma anseios de juiz de instrução ao tentar orientar e coordenar a Polícia Federal, no escândalo Master. Ao mesmo tempo em que trava completamente o andamento judicial que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro e suas relações com os Bolsonaro.   

Ora, no Brasil não existe a figura jurídica do juiz de instrução. A PF responde ao Poder Executivo e não ao Poder Judiciário, como em outros países.  

Setores e líderes conhecidos do chamado Centrão e da direita mais convicta não aderiram ao candidato do golpista Bolsonaro. 

Portanto, temos um fenômeno inédito na corrida presidencial brasileira, pelo menos desde o fim da ditadura de 1964-85. A direita está pulverizada em vários candidaturas, minando, pois, as chances de vitória. 

Lula, por sua vez, tem recebido auxílio importante dessa direita entreguista e pró-EUA, qual seja, a oportunidade de reatualizar – de forma enfática e potente – o discurso do nacionalismo e da soberania nacional.     

Hoje, tanto o nacionalismo quanto a soberania, não estão mais na condição de abstração discursiva superada e arquivada. Ao contrário, são concretudes que estão na ordem do dia. A população compreende do que se trata. 

As ofensivas tarifárias e as absurdas imposições trumpistas ao Brasil – estimuladas por bolsonaristas tontos vivendo nos EUA – mostram a necessidade de recuperar conceitos permanentes em defesa do nacionalismo e da soberania brasileira. 

Esta é a grande tarefa de Lula. Ignorar o atrevido Milei e ao mesmo tempo defender o Brasil do risco da invasão do modelo tecnofeudal da plutocracia internacional. 

*Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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