Teatro, dança, circo e música voltam a ocupar diferentes espaços de Porto Alegre em setembro, em uma programação que reúne artistas de diferentes gerações, linguagens e territórios. Entre os dias 10 e 20, a 33ª edição do Porto Alegre em Cena coloca a produção cênica brasileira no centro da cena e propõe, a partir dos palcos, um olhar sobre as memórias, inquietações, identidades e transformações do Brasil contemporâneo.
A programação da 33ª edição do Porto Alegre em Cena foi apresentada nesta terça-feira (11), na Zona Cultural, no Centro Histórico da capital gaúcha. O Festival Internacional de Artes Cênicas retorna aos palcos, teatros, praças e espaços alternativos de Porto Alegre propondo refletir sobre o Brasil contemporâneo por meio do teatro, do circo, da música e da dança. O lançamento teve apresentação artística do grupo As Rainhas – Roda de Samba de Mulheres.
Neste ano, o Em Cena destaca a força da produção cênica brasileira atual, reunindo espetáculos que abordam temas como resistência, identidade, patrimônio, manifesto, memória e cultura. A proposta é oferecer ao público um retrato das inquietações, contradições e transformações do país.
A programação reúne produções do Brasil, Argentina e Canadá e conta com nomes como Camila Pitanga, Bete Coelho, Taís Araújo, Grace Gianoukas, Danielle Winits, Sandra Pêra, Laila Garin, Juliana Linhares, Arthur Nestrovski, Celsim, Dolores Solá, Liliana Herrero, da Argentina, e Carlos Villalba. Ao todo, serão três espetáculos internacionais, 28 nacionais e 15 atrações locais.
O festival também terá a segunda edição do Reside Alegre, projeto que integra, desde 2025, a programação formativa do Em Cena. Neste ano, a iniciativa ocupa a rua Alberto Torres, no bairro Cidade Baixa, onde funciona a sede do Porto Alegre em Cena. O projeto transforma histórias de moradores da capital em espetáculos, a partir da escuta dessas narrativas e da criação de dramaturgias que posteriormente são apresentadas nas ruas e em espaços inusitados, como casas e lojas.
O processo começou em maio e resultará em uma mostra nos dias 5 e 6 de setembro, às vésperas da programação principal do festival.
Para o coordenador-geral do Porto Alegre em Cena, Luciano Alabarse, acompanhar a trajetória do festival desde a primeira edição permite observar a importância do evento para a cidade. “Eu sou uma testemunha muito privilegiada, porque estou no Em Cena desde a sua primeira edição, desde a sua gênese, e vejo o quanto o festival traz informação, beleza, leveza, inquietação para Porto Alegre”, afirmou ao Brasil de Fato.
Segundo Alabarse, a escolha do nome Porto Alegre em Cena está relacionada à intenção de fazer com que a cultura ocupe um papel central na transformação da cidade. “Desde o nome, o evento tem Porto Alegre grafado. Isso porque eu tinha essa noção de que a cidade merece. Não que a cultura passasse a 10 mil metros de altura, como quando eu era pequeno, criança, mas que, além de espaços floridos e maravilhosos, eu queria que a cultura ocupasse um papel relevante para que a cidade florescesse, se transformasse e tivesse orgulho de si mesma”, explicou.
Para ele, o festival cumpre essa função ao aproximar a população de artistas de diferentes partes do país e do mundo. “O festival cumpre esse papel, porque, ao trazer tanta gente bacana, tantos artistas relevantes, certamente a nossa autoestima de receber esses convidados fica potente, fica interessante.”

Música abre a programação
A abertura do festival será marcada pelo espetáculo musical “Pampa Grande”, criado especialmente para o Porto Alegre em Cena. A apresentação reunirá artistas do Rio Grande do Sul e de Buenos Aires, aproximando as cenas musicais gaúcha e argentina.
Entre os nomes envolvidos estão Vitor Ramil, Arthur de Faria e Hique Gomes, ao lado de cantoras argentinas convidadas pelo festival, como Liliana Herrero. “Vai ser muito emocionante a gente ver os sotaques se juntando, os músicos tocando lindamente”, destacou Alabarse.
Homenagem a Caio Fernando Abreu
Entre os destaques da programação está uma série de atividades em homenagem aos 30 anos da morte do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, natural de Santiago, na Região Central do Rio Grande do Sul.
Serão três atrações dedicadas à obra do autor. Duas vêm de Pernambuco: a montagem “Pela Noite”, da produtora recifense NOZ Produz, e o espetáculo “Que Muito Amou”, com direção de Antônio Rodrigues.
A montagem apresenta uma livre adaptação do livro “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso”, reunindo os contos “Sapatinhos Vermelhos”, “Praiazinha” e “Dama da Noite” para investigar diferentes dimensões do amor, do desejo, da perda e da solidão.
A homenagem será completada por uma edição especial do “Sarau Voador”, com a atriz Deborah Finocchiaro e o jornalista Roger Lerina, que receberão convidados para relembrar a trajetória e a obra de Caio Fernando Abreu.
70 anos de ‘Grande Sertão: Veredas’
Outra efeméride contemplada pelo festival é a celebração dos 70 anos de publicação de “Grande Sertão: Veredas”, obra máxima de João Guimarães Rosa.
Para marcar a data, o Em Cena apresentará a trilogia teatral assinada pelo ator e dramaturgo Gilson de Barros e dirigida por Amir Haddad, com recortes de momentos fundamentais do livro.
Em três dias consecutivos, o público poderá assistir às montagens “Riobaldo – recorte dos amores na obra”; “No Meio do Redemunho – recorte da dialética bem/mal, Deus/diabo”; e “O Julgamento de Zé Bebelo – panorama do sistema de jagunços no sertão mineiro”.
A programação dedicada a Guimarães Rosa também contará com o concerto “Ser Tão”, apresentado pelo duo Sergio Olivé e Nina Eick. O espetáculo reúne clássicos do folclore do sertão e composições de Chico Buarque, Milton Nascimento, Geraldo Vandré e Elomar.
Produção gaúcha em destaque
A produção artística do Rio Grande do Sul também ocupa espaço importante na 33ª edição. Selecionadas pelos curadores Adriana Jorgge, Gabriela Munhoz, Luísa Dias Rosa de Oliveira e Rodrigo Marquez, as atrações representam diferentes localidades do estado, incluindo Canela, Caxias do Sul, Ivoti, Pelotas e Porto Alegre.
Entre os espetáculos estão:
- “7 Cidades”, da Cia de Arte La Negra Ana Medeiros
- “AUTODescrição – Tudo o que eu não vejo”, da Cia. Reverbo
- “Bayle da obra”, dirigido por Moracos Manicongo
- “Corpomundo”, da Cia de Teatro e Dança Fábrica de Sonhos – Arte, Inclusão, Diversidade e Pertencimento
- “Criaturas da Literatura”, da Cia Teatro Lumbra
- “Geppetto”, do grupo Máscara EnCena
- “Kaiu da Kombi”, do Ponto de Cultura Kombinação
- “Katchaku Katchaka: era uma vez em Odjéidjé”, de Loua Pacom
- “Riso de Mãe é Coisa Séria”, do coletivo Fiandeiras Artes da Cena
- “Um Leão na Sala de Aula”, da Cia Gatelupa
Entre as atrações nacionais, estão ainda novas criações de importantes diretores brasileiros. Gabriel Villela apresenta uma leitura do clássico “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, em sua primeira parceria com o Grupo Maria Cutia, de Belo Horizonte.
Já Yara de Novaes assina duas direções presentes no festival: “Mudando de Pele”, estrelado por Taís Araújo, e “Mãos Trêmulas”, com Cleide Queiroz e Plínio Soares.
A programação inclui ainda a participação da Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre, que apresenta um novo espetáculo.
‘Uma cena inquieta e potente’
Alabarse também avaliou a produção cultural de Porto Alegre e destacou a atuação dos artistas e espaços independentes da cidade. “Eu sou muito suspeito porque faço parte dela e tenho muito orgulho dos meus pares, dos diretores que são todos meus amigos, dos espaços culturais independentes da cidade”, afirmou.
“Eu gosto de acompanhar. Eu acho que é uma cena inquieta, potente e que tem muito a contribuir para que os tempos não sejam tão duros como parecem que são”, completou.
Criado em 1994, o Porto Alegre em Cena organiza anualmente cerca de 50 espetáculos a preços populares em teatros, praças públicas e espaços alternativos. Ao longo da história, o festival atraiu uma média de 100 mil espectadores por edição e já recebeu artistas como Peter Brook, Hanna Schygulla, Denise Stoklos, Paulo Autran, Tônia Carrero, La Fura dels Baus, Philip Glass, Zé Celso e Fernanda Montenegro.
Neste ano, Alabarse recomenda que o público consulte a programação com antecedência. “Aproveitem o festival, conheçam a programação, escolham com calma, porque há muitos espetáculos com potencial de esgotarem em seguida os ingressos. E ingresso, quando acaba, acaba. Então não chore, não se lamente, vá correndo procurar a programação completa e escolha o seu festival”, afirmou.
Os ingressos começam a ser vendidos nesta quarta-feira (12), às 17h, pelo site oficial do Porto Alegre em Cena, com preços a partir de R$ 25.
