Soldado das Ideias

Na China, homenagem aos 100 anos de Fidel resgata internacionalismo e solidariedade entre os povos

Evento em Pequim reuniu representantes de governos, movimentos sociais e o MST para lembrar o líder da Revolução Cubana

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Os 100 anos do nascimento de Fidel Castro são lembrados em todo o mundo com homenagens e atos que destacam seu legado e sua luta pela justiça para toda a humanidade
Os 100 anos do nascimento de Fidel Castro são lembrados em todo o mundo com homenagens e atos que destacam seu legado | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

O Museu de Arte Jintai, na capital chinesa, recebeu nesta quinta-feira (13) uma cerimônia em homenagem aos 100 anos do nascimento de Fidel Castro. Organizado pela Embaixada de Cuba na China, o evento reuniu representantes de governos, diplomatas, movimentos sociais e organizações de diferentes países em uma homenagem marcada pela defesa da soberania, do internacionalismo e da solidariedade entre os povos.

“Uma figura que transcende fronteiras, o tempo, gerações e ideologias”, afirmou o embaixador de Cuba na China ao destacar o legado do líder da Revolução Cubana. A programação combinou discursos, depoimentos e apresentações musicais, incluindo uma apresentação de “Qué lindo es Cuba” pelo Coro Amigos Hispanohablantes, formado por chineses.

As falas durante a cerimônia lembraram diferentes momentos da trajetória de Fidel: a Revolução Cubana, o enfrentamento às pressões dos Estados Unidos, a solidariedade a outros processos revolucionários e de libertação nacional e a construção da relação entre Havana e Pequim.

Fidel Castro nasceu em 13 de agosto de 1926 e morreu em 2016, aos 90 anos. Em 1959, liderou a Revolução Cubana, que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista.

A vitória revolucionária aconteceu em uma América Latina marcada pela influência política, econômica e militar dos Estados Unidos. Em Cuba, empresas estadunidenses tinham forte presença na economia e Washington mantinha uma relação estreita com o governo de Batista.

Após a Revolução, o novo governo realizou a reforma agrária, nacionalizou empresas e ampliou políticas sociais. A aproximação com a União Soviética avançou ao mesmo tempo em que aumentava o conflito com os Estados Unidos.

Washington impôs sanções econômicas e, posteriormente, um embargo que permanece até hoje. Em 1961, uma força de exilados cubanos, treinada e apoiada pelos Estados Unidos, tentou invadir a ilha pela Baía dos Porcos. A operação foi derrotada pelas forças revolucionárias.

No ano seguinte, a Crise dos Mísseis colocou Cuba no centro de um dos momentos mais perigosos da Guerra Fria. Foi nesse cenário que Havana passou a ampliar suas relações com países da Ásia, África e América Latina e a apoiar movimentos de libertação nacional e processos revolucionários.

Durante a cerimônia em Pequim, o embaixador de Cuba na China destacou essa dimensão da trajetória de Fidel: “Uma figura que transcende fronteiras, o tempo, gerações e ideologias. Um homem cuja vida esteve consagrada à independência de Cuba, à justiça social, à solidariedade entre os povos, à integração latino-americana e caribenha, ao Sul Global, à causa socialista e à defesa de uma ordem internacional mais justa e equitativa”.

O diplomata também ressaltou o princípio do internacionalismo: “De Fidel aprendemos a praticar nossa solidariedade com fatos, não com belas palavras, assim como a ser firmes diante da adversidade e prudentes diante do triunfo”.

Alberto Blanco Silva, Embaixador de Cuba na China | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

Cuba e China

Uma das primeiras decisões internacionais do governo revolucionário foi aproximar-se da República Popular da China.

Em 28 de setembro de 1960, Cuba estabeleceu relações diplomáticas com a China, tornando-se o primeiro país latino-americano a fazê-lo. A decisão ocorreu em plena Guerra Fria, quando Pequim enfrentava forte isolamento diplomático promovido pelos Estados Unidos e seus aliados.

Mais de seis décadas depois, a relação entre os dois países se transformou em uma parceria que envolve comércio, saúde, biotecnologia, agricultura, educação e tecnologia. Em 2025, China e Cuba completaram 65 anos de relações diplomáticas.

Durante a homenagem, Ma Hui, vice-chefe do Departamento de Ligação Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da China, destacou o papel de Fidel na aproximação.

“Fidel Castro foi um dos fundadores e principais promotores das relações entre China e Cuba. Graças à sua visão estratégica e ao seu empenho, Cuba tornou-se o primeiro país da América Latina a estabelecer relações diplomáticas com a Nova China.”

Ma Hui também lembrou os contatos pessoais entre Fidel e as lideranças chinesas: “Fidel visitou a China duas vezes e recebeu calorosamente, em várias ocasiões, líderes chineses em Cuba, incluindo Xi Jinping, construindo uma profunda amizade e dando uma contribuição histórica ao desenvolvimento das relações sino-cubanas. O povo chinês jamais o esquecerá”.

O dirigente chinês também destacou a contribuição de Fidel para além da relação bilateral, considerando-a “imperecível para a defesa da justiça e da equidade internacionais e para o progresso da humanidade. A história não o esquecerá”.

A relação entre os dois países também foi construída por intercâmbios entre as sociedades.

Ma Hui, Membro do Comitê Central do Partido Comunista da China | Foto: Bruno Falci/Brasil de Fato

A diretora do Coro Amigos Hispanohablantes, Yang Mingjiang, falou ao Brasil de Fato em entrevista exclusiva sobre a importância da homenagem.

“É um dia muito, muito importante. O ano passado também estivemos na Embaixada de Cuba cantando em homenagem ao senhor Fidel Castro. Este ano é mais importante porque completa 100 anos de seu nascimento.”

Ela descreveu Fidel como uma figura querida na América Latina e na China: “É um grande senhor, muito querido por todos os povos latino-americanos e pelo povo chinês. Grande amigo”.

A diretora associou a trajetória de Fidel à busca pela liberdade e por melhores condições de vida, dizendo ser “importante porque ele segue um caminho para dar a liberdade, para dar boa vida ao seu povo”, e destacou sua resistência diante das pressões contra Cuba: “E diante dos desafios de agressão, de invasão, de opressão por parte dos americanos, especialmente, não se rende jamais. É um espírito revolucionário que temos que seguir, elogiar. Por isso estamos aqui”.

Coro Amigos Hispanohablantes | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

O internacionalismo cubano

A política externa cubana durante o período em que Fidel esteve à frente do país foi além da América Latina. Cuba estabeleceu relações com movimentos de libertação e governos da África e da Ásia, sendo um dos episódios mais conhecidos a participação na guerra de Angola.

Em 1975, Cuba enviou tropas para apoiar o governo angolano durante o conflito que se seguiu à independência do país. A participação cubana também esteve relacionada à luta contra o apartheid sul-africano e ao processo de independência da Namíbia. O episódio tornou-se um dos principais símbolos do internacionalismo cubano defendido por Fidel.

A atuação internacional de Cuba também se estendeu à saúde. Médicos e profissionais cubanos passaram a trabalhar em diferentes países, principalmente em regiões da África, América Latina e Caribe.

Essa política de solidariedade ajuda a explicar por que o internacionalismo apareceu como um dos temas centrais da homenagem em Pequim.

Representantes de governos e movimentos sociais lotaram o Museu de Arte Jintai | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

Fidel, Nicarágua e a Revolução Sandinista

Na América Central, a Revolução Sandinista é outro capítulo importante dessa história. Em 1979, a Frente Sandinista de Libertação Nacional derrubou a ditadura da família Somoza, que governava a Nicarágua há décadas com apoio dos Estados Unidos.

O novo governo lançou campanhas de alfabetização, políticas sociais e medidas de reforma agrária. Ao mesmo tempo, passou a enfrentar os Contras, grupos armados apoiados por Washington. A guerra transformou a Nicarágua em um dos principais campos de disputa da Guerra Fria na América Latina, e Cuba esteve ao lado do processo revolucionário nicaraguense.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o embaixador da Nicarágua na China, Ramiro Cruz, lembrou os anos 1980: “Cuba esteve ao lado da Nicarágua nos anos 1980, quando a agressão estadunidense era muito grande em nosso território e contra nossa revolução. O povo cubano e o comandante Fidel estiveram presentes”.

Para Cruz, lembrar Fidel também significa lembrar outros processos revolucionários, “comemorar as lutas dos povos revolucionários, como Nicarágua, Cuba e todos os povos do mundo”. “Por isso estamos muito contentes de acompanhar a Embaixada de Cuba, o povo cubano, nesta celebração de hoje.”

Embaixadores de todo o Sul Global vieram prestar homenagem a Fidel Castro | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

O bloqueio e a soberania cubana

A Revolução Cubana ficou marcada pelo confronto prolongado com os Estados Unidos. O embargo econômico estadunidense permanece em vigor há mais de seis décadas e é condenado anualmente pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Em outubro de 2025, uma resolução pelo fim do embargo recebeu 165 votos favoráveis, sete contrários e 12 abstenções.

Para o governo cubano e organizações de solidariedade, o bloqueio é uma forma de pressão econômica que afeta o acesso da ilha a recursos, combustíveis, medicamentos, alimentos e equipamentos.

A questão da soberania aparece diretamente na forma como os participantes da cerimônia apresentam o legado de Fidel.

Durante a cerimônia, foram feitas diversas homenagens a Fidel pelo governo e povo chinês | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

O internacionalismo de Fidel e o MST

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) completou 42 anos em 2026. A organização surgiu no Brasil em meio às lutas pela reforma agrária e pela democratização e, ao longo de sua trajetória, construiu relações com movimentos camponeses e organizações populares de outros países.

Na China, o MST mantém uma brigada que participa de projetos, intercâmbios e articulações internacionais.

Bárbara Loureiro, coordenadora da Brigada da China do MST, concedeu entrevista exclusiva ao Brasil de Fato durante a homenagem a Fidel Castro, relacionando o centenário aos 42 anos do movimento: “Nós estamos aqui nesse centenário de Fidel, relembrando que o Movimento Sem Terra chega aos seus 42 anos também como legado e colhendo esse exemplo vivo do que foi a Revolução Cubana e aprendendo e praticando o que o internacionalismo do Fidel nos ensina”.

“Sabemos que o internacionalismo do Fidel é base viva também para o internacionalismo do MST praticado, de a gente olhar a luta do outro, a luta dos povos oprimidos como a nossa própria luta.”

A brigada também desenvolve projetos e articulações de cooperação com Cuba a partir da China: “Desde aqui na China, nossa brigada também tem desenvolvido um conjunto de projetos e articulações e cooperação com Cuba, numa defesa firme da Revolução Cubana contra os ataques estadunidenses e por um desenvolvimento soberano do povo cubano”, e conclui afirmando que “a brigada segue aqui praticando esse internacionalismo que a gente aprendeu com Fidel”.

Barbara Loureiro e outro membros da Brigada do MST na China | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato
Editado por: Rafaella Coury

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