O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que a administração de Donald Trump poderá tentar interferir de maneira mais direta nas eleições brasileiras de 2026, caso identifique no processo eleitoral uma oportunidade para pressionar o governo brasileiro e dificultar a reeleição do petista. Nas hostes palacianas, a relação diplomática balançada entre os países figura como um teste de forças por parte da gestão Trump.
Segundo interlocutores do governo, a preocupação é que os Estados Unidos possam elevar o tom da pressão sobre o Brasil durante a campanha eleitoral. A avaliação ainda é tratada como um cenário possível, e não como uma decisão tomada pelo governo estadunidense.
Entre as hipóteses discutidas está a possibilidade de setores ligados à administração Trump questionarem a legitimidade das eleições de 2022, inclusive com a retomada de acusações de que a vitória de Lula teria sido fraudulenta. Na leitura de interlocutores do governo, uma narrativa desse tipo poderia ser utilizada para colocar em dúvida o processo eleitoral brasileiro e aumentar a pressão política sobre Brasília.
Interlocutores do governo também não descartam que, em um cenário de escalada da tensão, possam surgir declarações ou ameaças mais graves, inclusive relacionadas à possibilidade de intervenção militar. Isso, contudo, é uma hipótese dentro das avaliações que vêm sendo feitas no governo, e não de uma ameaça formal apresentada até o momento. A análise ganhou mais força depois do vídeo publicado pelo Departamento de Estado dos EUA via X, no qual dizia que, em outras palavras, “o domínio dos EUA sob as Américas nunca mais será questionado“.
Até outubro
O temor no Palácio do Planalto é que uma eventual pressão externa acabe tendo efeito político sobre a disputa eleitoral brasileira. Na avaliação de interlocutores de Lula, uma atuação mais incisiva de Washington poderia beneficiar setores da oposição que defendem uma relação mais próxima com os Estados Unidos.
Nesse cálculo aparece o nome do senador e pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro (PL-RJ), considerado por integrantes do governo como um dos nomes que poderiam ser favorecidos por uma eventual mudança na correlação de forças durante a campanha. A leitura é que uma candidatura mais alinhada aos interesses de Washington poderia encontrar maior espaço caso a relação entre Brasil e Estados Unidos se deteriore. Ele tem um canal de interlocução direto aberto com o chefe da pasta responsável pela publicação autoritária, Marco Rubio.
O tema também chegou ao radar da diplomacia brasileira. Interlocutores ligados ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, acompanham com atenção a possibilidade de a disputa eleitoral brasileira ser incorporada à agenda geopolítica de Washington.
A avaliação no governo é de que a questão não deve ser analisada apenas pela ótica da relação bilateral. A aproximação brasileira com a China e, por consequência, com a Rússia, por exemplo, poderia ser incorporada ao discurso estadunidense como evidência de um suposto alinhamento de Brasília com países considerados adversários dos Estados Unidos.
Contextos
Os Estados Unidos anunciaram, no último dia 4, que revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida, segundo o Departamento de Estado, é uma resposta à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez, um republicano filho de cubanos, assuma a embaixada dos EUA no Brasil.
A revogação do visto, no entanto, não significa a expulsão da diplomata, que poderá permanecer nos Estados Unidos, mas sem um visto válido. Segundo a decisão, o visto poderá ser restabelecido se o aval diplomático ao novo embaixador estadunidense for concedido.
Perez foi indicado ao cargo de embaixador no Brasil em junho, com aval do Senado dos EUA, mas ainda precisa ser aprovado pelo plenário da Câmara.
Pela tradição, antes de um embaixador assumir o posto, o país que recebe o diplomata precisaria autorizar a indicação. Ainda segundo o governo Trump, as autoridades brasileiras sinalizaram que a autorização só deve ser dada após as eleições presidenciais de outubro.
