O presidente russo, Vladimir Putin, fez nesta quinta-feira (13) sua primeira visita às Ilhas Curilas em todo o período em que esteve na presidência do país. O Japão, que contesta a soberania sobre a região, criticou a viagem e convocou o embaixador russo. Moscou rechaçou as críticas japonesas, classificando-as como “infundadas” e “inaceitáveis”.
A visita faz parte de uma viagem mais ampla do presidente russo à região do Extremo Oriente do país. Putin visitou a Ilha de Iturup, que integra as Ilhas Curilas, localizada no extremo da Grande Cadeia Curila, perto da ilha japonesa de Hokkaido.
Esta é a primeira visita de uma alta autoridade russa às Ilhas Curilas em 16 anos. Em 2010, o então presidente Dmitry Medvedev também visitou Iturup.
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, reagiu duramente à viagem de Putin, afirmando que a visita “piorou a posição do Japão em relação à Rússia”. “Isso ofende os sentimentos do povo japonês e é absolutamente inaceitável. Esperamos que o lado russo compreenda plenamente a gravidade desta questão”, acrescentou.
O Ministério das Relações Exteriores do Japão também protestou e convocou o embaixador russo no país à chancelaria japonesa. A Embaixada da Rússia respondeu classificando a ação como “infundada”.
“O chefe da missão diplomática explicou que as Ilhas Curilas do Sul são parte integrante da Federação Russa e passaram a fazer parte dela após a Segunda Guerra Mundial, com base em fundamentos legais internacionais”, seguiu a embaixada.
A missão diplomática enfatizou que as viagens do presidente dentro da Rússia são “decisões soberanas exclusivas da liderança russa e não podem ser discutidas com Estados estrangeiros”.
Já a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, declarou que as falas da primeira-ministra japonesa sobre a visita do presidente russo à ilha de Iturup são inaceitáveis. A diplomata observou que as Ilhas Curilas são oficialmente território russo. Portanto, segundo ela, as declarações de Takaichi e do ministro das Relações Exteriores, Toshimitsu Motegi, são extremamente “ultrajantes”.
“O aspecto mais odioso e perigoso das ‘mensagens’ de Sanae Takaichi e Toshimitsu Motegi para todos os países vizinhos do Japão e para a região da Ásia-Pacífico como um todo é o revanchismo que permeia essas declarações”, destacou Zakharova.
Contexto da disputa territorial
O Japão reivindica as quatro Ilhas Curilas do Sul — Iturup, Kunashir, Shikotan e Habomai — com base no Tratado de Comércio e Fronteiras de 1855. No entanto, a configuração atual da região começou a ser definida após a Segunda Guerra Mundial.
Ao fim do conflito na Europa, a União Soviética declarou guerra ao Japão e ocupou as Ilhas Curilas em agosto de 1945, incluindo as quatro ilhas historicamente reivindicadas pelo Japão. Com a rendição do Japão no contexto da 2ª Guerra Mundial, ocorrida no mesmo mês da invasão, Moscou passou a administrar as ilhas. O controle foi posteriormente herdado pela Federação Russa com o fim da União Soviética, em 1991.
Moscou alega que a ocupação e a incorporação das ilhas foram resultado dos acordos que reorganizaram os territórios após a Segunda Guerra Mundial, e a soberania sobre a região não está em discussão. O Japão, porém, contesta essa interpretação e reivindica as quatro ilhas do sul, que chama de “Territórios do Norte”.
A disputa impediu que os dois países assinassem um tratado de paz definitivo após a Segunda Guerra Mundial. Em 1956, Japão e União Soviética retomaram relações diplomáticas e concordaram em continuar negociando a questão territorial, mas jamais chegaram a um acordo.
Desde que chegou ao poder, o presidente russo, Vladimir Putin, buscou maneiras de concluir um tratado de paz com o Japão, mas sempre destacando a soberania da Rússia sobre as ilhas. A posição manifestada por ele era de negociar com base na Declaração de Paz de 1956.
Nas últimas décadas, Japão e Rússia desenvolveram cooperação econômica, inclusive nas Ilhas Curilas. Durante a década de 2010, os dois países mantiveram consultas e chegaram a estabelecer atividades conjuntas na região.
No entanto, após o início da guerra da Ucrânia em 2022, o Japão imediatamente aderiu às sanções ocidentais e a relação entre os dois países deteriorou. Moscou respondeu suspendendo as negociações do tratado de paz, cancelando a isenção de visto para japoneses nas Ilhas Curilas do Sul e restringindo as atividades conjuntas com os japoneses na região.
Em 2025, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia declarou que a Rússia não vê perspectivas de diálogo sobre um tratado de paz com o Japão.
