Décadas de conflito

Putin visita Ilhas Curilas e tensiona relação com Japão: entenda a disputa histórica pela região

Território sob controle russo desde a 2º Guerra Mundial, arquipélago com quatro ilhas é reivindicado pelo Japão

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Vladimir Putin realiza visita aos exercícios da Frota do Pacífico, no Extremo Oriente da Rússia em 12 de agosto de 2026
Vladimir Putin realiza visita aos exercícios da Frota do Pacífico, no Extremo Oriente da Rússia em 12 de agosto de 2026. | Crédito: Kremlin.ru

O presidente russo, Vladimir Putin, fez nesta quinta-feira (13) sua primeira visita às Ilhas Curilas em todo o período em que esteve na presidência do país. O Japão, que contesta a soberania sobre a região, criticou a viagem e convocou o embaixador russo. Moscou rechaçou as críticas japonesas, classificando-as como “infundadas” e “inaceitáveis”.

A visita faz parte de uma viagem mais ampla do presidente russo à região do Extremo Oriente do país. Putin visitou a Ilha de Iturup, que integra as Ilhas Curilas, localizada no extremo da Grande Cadeia Curila, perto da ilha japonesa de Hokkaido.

Esta é a primeira visita de uma alta autoridade russa às Ilhas Curilas em 16 anos. Em 2010, o então presidente Dmitry Medvedev também visitou Iturup.

A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, reagiu duramente à viagem de Putin, afirmando que a visita “piorou a posição do Japão em relação à Rússia”. “Isso ofende os sentimentos do povo japonês e é absolutamente inaceitável. Esperamos que o lado russo compreenda plenamente a gravidade desta questão”, acrescentou.

O Ministério das Relações Exteriores do Japão também protestou e convocou o embaixador russo no país à chancelaria japonesa. A Embaixada da Rússia respondeu classificando a ação como “infundada”.

“O chefe da missão diplomática explicou que as Ilhas Curilas do Sul são parte integrante da Federação Russa e passaram a fazer parte dela após a Segunda Guerra Mundial, com base em fundamentos legais internacionais”, seguiu a embaixada.

A missão diplomática enfatizou que as viagens do presidente dentro da Rússia são “decisões soberanas exclusivas da liderança russa e não podem ser discutidas com Estados estrangeiros”.

Já a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, declarou que as falas da primeira-ministra japonesa sobre a visita do presidente russo à ilha de Iturup são inaceitáveis. A diplomata observou que as Ilhas Curilas são oficialmente território russo. Portanto, segundo ela, as declarações de Takaichi e do ministro das Relações Exteriores, Toshimitsu Motegi, são extremamente “ultrajantes”.

“O aspecto mais odioso e perigoso das ‘mensagens’ de Sanae Takaichi e Toshimitsu Motegi para todos os países vizinhos do Japão e para a região da Ásia-Pacífico como um todo é o revanchismo que permeia essas declarações”, destacou Zakharova.

Contexto da disputa territorial

O Japão reivindica as quatro Ilhas Curilas do Sul — Iturup, Kunashir, Shikotan e Habomai — com base no Tratado de Comércio e Fronteiras de 1855. No entanto, a configuração atual da região começou a ser definida após a Segunda Guerra Mundial.

Ao fim do conflito na Europa, a União Soviética declarou guerra ao Japão e ocupou as Ilhas Curilas em agosto de 1945, incluindo as quatro ilhas historicamente reivindicadas pelo Japão. Com a rendição do Japão no contexto da 2ª Guerra Mundial, ocorrida no mesmo mês da invasão, Moscou passou a administrar as ilhas. O controle foi posteriormente herdado pela Federação Russa com o fim da União Soviética, em 1991.

Moscou alega que a ocupação e a incorporação das ilhas foram resultado dos acordos que reorganizaram os territórios após a Segunda Guerra Mundial, e a soberania sobre a região não está em discussão. O Japão, porém, contesta essa interpretação e reivindica as quatro ilhas do sul, que chama de “Territórios do Norte”.

A disputa impediu que os dois países assinassem um tratado de paz definitivo após a Segunda Guerra Mundial. Em 1956, Japão e União Soviética retomaram relações diplomáticas e concordaram em continuar negociando a questão territorial, mas jamais chegaram a um acordo.

Desde que chegou ao poder, o presidente russo, Vladimir Putin, buscou maneiras de concluir um tratado de paz com o Japão, mas sempre destacando a soberania da Rússia sobre as ilhas. A posição manifestada por ele era de negociar com base na Declaração de Paz de 1956.

Nas últimas décadas, Japão e Rússia desenvolveram cooperação econômica, inclusive nas Ilhas Curilas. Durante a década de 2010, os dois países mantiveram consultas e chegaram a estabelecer atividades conjuntas na região.

No entanto, após o início da guerra da Ucrânia em 2022, o Japão imediatamente aderiu às sanções ocidentais e a relação entre os dois países deteriorou. Moscou respondeu suspendendo as negociações do tratado de paz, cancelando a isenção de visto para japoneses nas Ilhas Curilas do Sul e restringindo as atividades conjuntas com os japoneses na região.

Em 2025, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia declarou que a Rússia não vê perspectivas de diálogo sobre um tratado de paz com o Japão.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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