O atual surto de ebola na República Democrática do Congo está desafiando as autoridades de saúde e a comunidade internacional pela sua velocidade sem precedentes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença está se espalhando mais rápido do que qualquer outra epidemia de ebola já registrada, com o número de mortes dobrando em um intervalo de apenas três semanas.
Até o momento, o surto já causou a morte de pelo menos 2.061 pessoas, com mais de 4.400 casos confirmados. O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, alertou que o ritmo é tão alarmante que a crise atual pode superar a trágica epidemia que atingiu a África Ocidental entre 2014 e 2016, considerada a maior da história.
O grande diferencial deste surto é o tipo do vírus: a variante Bundibugyo. Ao contrário da variante Zaire, que já possui uma vacina licenciada, a Bundibugyo é mais rara e, no momento, não existem vacinas ou tratamentos clínicos aprovados para combatê-la, o que torna o controle da transmissão muito mais difícil.
Um dos dados mais preocupantes revelados pela OMS é que entre 60% e 70% das mortes estão ocorrendo fora dos hospitais, nas próprias casas e comunidades das vítimas. Isso indica a existência de “correntes de transmissão ocultas”, pois muitas dessas pessoas sequer estavam nas listas de monitoramento das equipes de saúde.
Disseminação e desigualdade
O epicentro da crise está na província de Ituri, no leste do país, que sozinha concentra cerca de 90% de todos os casos. A região sofre com graves problemas de infraestrutura, estradas precárias e conflitos armados com grupos rebeldes, o que dificulta a chegada das equipes médicas em áreas mais remotas.
Além das dificuldades físicas, os profissionais de saúde enfrentam uma “epidemia de desinformação”. Rumores e notícias falsas geram desconfiança na população, fazendo com que muitos doentes evitem procurar ajuda médica ou escondam os sintomas, muitas vezes confundidos inicialmente com malária ou febre tifoide.
Fatores culturais também pesam na disseminação. O vírus do ebola é transmitido pelo contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas. Momentos de grande vulnerabilidade, como o cuidado de familiares doentes em casa e os rituais de sepultamento tradicionais, acabam facilitando o contágio.
Para tentar frear o avanço, a OMS está intensificando as operações no terreno. A meta imediata é triplicar a capacidade de atendimento, chegando a 3 mil leitos nas próximas 12 semanas, e elevar o rastreamento de contatos para 95%. Mais de 21 mil agentes comunitários já foram capacitados para identificar casos suspeitos nas vilas e periferias.
O chefe da OMS reforçou que só será possível vencer o vírus se houver uma parceria real com a população local, respeitando suas tradições e garantindo cuidados dignos desde o primeiro sintoma.
Combate urgente
No campo da ciência, há uma corrida contra o tempo. Ensaios clínicos urgentes começaram a testar três novas candidatas a vacina específicas para a variante Bundibugyo, incluindo tecnologias de mRNA (semelhantes às da Covid-19) e vetores virais desenvolvidos pela Universidade de Oxford.
Apesar do esforço, a operação precisa de recursos. A OMS estima que são necessários US$ 518 milhões para o Plano de Resposta Continental, mas apenas cerca de metade desse valor foi desembolsado até agora. O corte de ajudas internacionais, como o fechamento da agência USAID na região em 2025, agravou o cenário financeiro.
Mesmo com a gravidade na África, especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato explicam que o risco de o vírus ebola migrar para o Brasil é muito baixo. Como a transmissão não ocorre pelo ar (como a gripe ou a Covid-19) e exige contato muito próximo, o controle é mais simples em países com sistemas de vigilância bem estruturados, como o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro.
