Desmonte

Violência contra trabalhadores da saúde é consequência do projeto político do governo do DF

Solução para segurança dos profissionais de enfermagem seria valorização e condições dignas de trabalho

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Sobrecarga e exaustão fazem parte da rotina de profissionais de enfermagem no DF | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Mais uma vez, fomos surpreendidos com a notícia de que uma enfermeira, no exercício do seu ofício, foi agredida fisicamente por uma paciente. Esse tipo de notícia, que é cada vez mais frequente, não pode ser normalizado.

A agressão sofrida por uma enfermeira dentro de um hospital público do Distrito Federal, além de não ser um episódio isolado, é mais um retrato de uma rede de saúde submetida, há anos, à precarização, à sobrecarga e à incapacidade de responder adequadamente às necessidades da população.

Nenhuma frustração justifica violência contra trabalhadores da saúde. A responsabilização de quem pratica violência precisa ser firme. Mas responsabilizar o agressor não encerra a discussão.

Existe uma violência anterior, silenciosa e institucional, que também precisa ser enfrentada: a violência que o trabalhador sofre ao sustentar uma rede de saúde cada vez mais fragilizada e, ao mesmo tempo, colocá-los diante de uma população que chega aos serviços de saúde sem encontrar a resposta que precisa. A violência que a população sofre, ao peregrinar pelas unidades em busca de atendimento, e se deparar com déficit de pessoal, e a incapacidade do sistema de absorver sua demanda.

A violência direcionada ao profissional de saúde, em especial à enfermagem – que na maioria das situações é o principal ponto de comunicação entre o serviço e o paciente, – não se trata apenas de uma questão de segurança, mas resulta de um grave problema de gestão pública, que não trata a saúde do Distrito Federal como prioridade.

O DF vive uma crise assistencial que não surgiu de repente. Ela é resultado de decisões políticas que, ao longo dos anos, enfraquecem a capacidade do Estado de oferecer uma assistência pública de qualidade.

O desmonte do serviço acontece de forma ordenada, em consequência das escolhas dos gestores em não nomear concursados, mantendo incompletos os quadros de pessoal, em não tratar os adoecimentos dos trabalhadores com a devida atenção,  e em terceirizar serviços essenciais, causando desarticulação da rede assistencial.

O resultado é previsível: longas filas de espera, sobrecarga e exaustão dos profissionais, e conflito entre servidores e população. E, nesse cenário de caos institucionalizado, o trabalhador é transformado em anteparo de uma crise que não produziu.

Em fevereiro de 2025, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) descreveu problemas estruturais na saúde pública do DF, citando, entre outros fatores, subfinanciamento, superlotação, déficit de profissionais, gestão ineficiente, ingerência política e infraestrutura precária. Segundo o MPDFT, a combinação dessas deficiências produzia um cenário caótico para a população.

Em março de 2026, o órgão voltou a cobrar providências da Secretaria de Saúde diante do déficit de profissionais, recomendando a nomeação de enfermeiros e técnicos aprovados em concurso e a realização de novo certame para médicos de família, justamente para reduzir a sobrecarga da rede.

Em julho, o MPDFT foi ainda mais contundente: apontou déficit de 4.166 profissionais em 17 especialidades e recomendou a realização de concurso público, destacando que a demora na recomposição do quadro prejudica a prestação dos serviços de saúde à população.

Não estamos, portanto, diante de uma percepção isolada de quem trabalha na saúde: há um problema estrutural reconhecido e documentado.

Violência e frustração aumentam

Ao mesmo tempo em que a rede é mantida com déficit de trabalhadores, a violência contra os profissionais cresce. Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IpeDF) mostrou que 61,7% das profissionais de enfermagem entrevistadas já haviam sofrido agressão verbal e 15% haviam sofrido violência física.

É impossível olhar para esses fenômenos separadamente.

À medida que o Estado perde capacidade de resposta, cresce a frustração de quem depende do serviço público. Quando a demanda aumenta sem que a rede tenha condições de acompanhá-la, a sobrecarga recai sobre os trabalhadores. E, em um ambiente marcado pela espera, pela exaustão e pela sensação de impotência em ambos os lados, o conflito se torna cada vez mais provável.

É necessário, portanto, compreender que a violência é um dos efeitos de uma rede que vem sendo levada ao limite, e consequência das escolhas políticas do governo Ibaneis/Celina para a saúde pública. Por isso, a solução para esse problema não pode se limitar ao reforço da segurança patrimonial das unidades. Câmeras, vigilantes e protocolos de segurança podem ser necessários, mas são insuficientes para enfrentar a raiz do problema.

A verdadeira política de segurança para os trabalhadores da saúde perpassa pela estruturação das equipes, mais nomeações, valorização profissional e condições dignas de trabalho. Um SUS que funcione adequadamente é a solução para reduzir a frustração do usuário do serviço.

Mudar essa realidade exige mais do que proteger o trabalhador depois que a violência acontece. Exige reconstruir a rede antes que ela chegue ao limite, devolver ao trabalhador condições para executar suas funções, e ao cidadão o direito de ser cuidado com dignidade.

Portanto, para mudar a realidade que a população enfrenta hoje, o DF precisa de um governo que tenha compromisso político com a reconstrução da saúde pública, com os trabalhadores do SUS, e com os usuários do sistema de saúde.

*Nayara Jéssica é diretora administrativa do Sindicato das Enfermeiras e Enfermeiros do Distrito Federal (SindEnf-DF)

**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.


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Editado por: Clivia Mesquita

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