“Precisamos falar sobre Cuba.” Foi com essa provocação que o diretor da Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Santa Maria (Sedufsm), Cleder Fontana, abriu, na noite de terça-feira (11), o debate “100 anos de Fidel: a contribuição da Revolução Cubana para a América Latina”, realizado no Auditório Suze Scalcon, na sede da entidade, em Santa Maria.
A atividade contou com a presença do embaixador de Cuba no Brasil, Victor Manuel Cairo Palomo, e colocou em discussão a trajetória da Revolução Cubana, as conquistas e contribuições para a América Latina, além dos desafios enfrentados atualmente pelo país diante do imperialismo e das políticas de asfixia impostas pelos Estados Unidos, conforme apontado pelos debatedores.

Nem mesmo o frio de uma noite chuvosa afastou o público, que lotou o auditório para acompanhar as discussões sobre Cuba e os desafios enfrentados pelo país. Na abertura da atividade, Fontana partiu da defesa da soberania cubana para percorrer diferentes dimensões da experiência do país. Educação, saúde, produção de conhecimento, cultura e esporte estiveram entre os exemplos citados pelo diretor ao defender um olhar sobre Cuba que ultrapasse os limites geográficos da ilha.
Na avaliação de Fontana, o cenário político atual exige uma articulação em defesa da soberania dos países latino-americanos e de seus povos. “Falar de Cuba e defender Cuba é se colocar junto, ombro a ombro, com quem se levanta contra a extrema direita e seu projeto de destruição de povos e de países”, destacou.
Além do embaixador, participaram da atividade André Martins, 2º vice-presidente da Regional Rio Grande do Sul do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN); o professor cubano Lázaro Camilo Recompenza Joseph, docente do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); e Emanuelle Somavilla, estudante de Direito da UFSM e integrante do coletivo estudantil É Preciso Dar um Jeito.
Promovido pela Regional RS do Andes-SN, em articulação com a Associação Cultural José Martí e em parceria com a Sedufsm, o debate integra a agenda nacional de solidariedade a Cuba construída pelo Andes-SN.
Cuba diante de novos desafios
Ao abordar a situação atual de Cuba, o embaixador Victor Manuel Cairo Palomo afirmou que os Estados Unidos intensificaram, desde janeiro deste ano, uma política que classificou como de “guerra econômica” contra o país. Segundo ele, um dos principais efeitos está no setor energético, com impactos diretos no cotidiano da população cubana. Desde o início do ano, o país já enfrentou seis apagões totais do Sistema Elétrico Nacional.
“A agressão contra Cuba é genocida e desumana. Ela ataca diretamente o setor energético, o que está trazendo consequências muito negativas para toda a população cubana e, em particular, uma deterioração significativa dos indicadores sociais, de saúde e de qualidade de vida”, declarou.
Diante desse cenário, Palomo destacou a capacidade de resistência da população cubana e relacionou essa característica aos princípios construídos ao longo da Revolução. No ano em que se celebra o centenário de nascimento de Fidel Castro, o embaixador recuperou o legado do líder revolucionário e o caráter humanista que, segundo ele, permanece como uma das bases do socialismo cubano.
“O socialismo cubano, sob a liderança de Fidel, não deixará ninguém para trás e sempre terá como característica seu profundo caráter humanista. A agressão contra Cuba faz parte da agressão contra os povos da América Latina e do Caribe”, afirmou.

Para Palomo, as medidas adotadas pelo governo estadunidense têm como objetivo atingir o modelo político e social construído pela Revolução Cubana. Durante a fala, o embaixador questionou a própria manutenção das sanções diante das críticas feitas ao modelo cubano. “Se o socialismo em Cuba não funciona, então por que nos impõem um bloqueio? Por que nos aplicam medidas coercitivas unilaterais brutais? Se o socialismo não funciona, por que precisam nos agredir economicamente?”, questionou.
Para o embaixador, a permanência do projeto cubano diante das dificuldades econômicas e das sanções está diretamente relacionada à capacidade de organização e resistência da população. Palomo descreveu o que considera um “castigo coletivo” enfrentado pelo país e destacou a busca por alternativas diante das restrições.
Palomo também inseriu a situação cubana em um cenário internacional marcado, segundo a avaliação do embaixador, por guerras tarifárias, intervenções militares, ingerências em assuntos internos de outros países e disputas por recursos naturais. Para ele, a resistência de Cuba não pode ser compreendida de forma isolada das tensões enfrentadas por outros países da América Latina e do Caribe.
Ao dirigir-se especialmente aos sindicalistas, estudantes e professores presentes no auditório, Palomo ampliou a discussão para as disputas políticas e econômicas no cenário internacional. Na avaliação do embaixador, as transformações em curso estão relacionadas às próprias contradições do capitalismo e mantêm atual uma das ideias defendidas por Fidel Castro: a de que as disputas políticas também se dão no campo das ideias.
“A luta é de classes. E essa luta de classes continua tendo os mesmos componentes. A reconfiguração de um cenário político internacional é consequência das contradições do capitalismo. A batalha continua sendo uma batalha de ideias, como nos ensinou Fidel”, afirmou.
Palomo também retomou as críticas de Fidel a um modelo econômico baseado na exploração crescente dos recursos naturais e na ampliação do consumo. Segundo o embaixador, esse debate ganha ainda mais importância diante dos desafios ambientais enfrentados atualmente. “Fidel nos alertou que, se continuarmos a promover um modelo econômico que implique maior exploração dos nossos recursos, maior consumo e maior ruptura com a natureza, estaremos no caminho da extinção da nossa espécie”, destacou.

Reformas para enfrentar a crise
As alternativas adotadas por Cuba para enfrentar a crise também estiveram em debate. O professor cubano Lázaro Camilo Recompenza Joseph abordou o pacote de 176 transformações econômicas e sociais aprovado pela Assembleia Nacional do Poder Popular em 18 de junho. Organizadas em 23 eixos, as medidas alcançam diferentes setores da economia e preveem, entre outros pontos, mudanças na gestão das empresas, descentralização de decisões, atração de investimentos e maior participação de atores privados.
Para Recompenza, as reformas precisam ser compreendidas a partir do momento enfrentado pelo país e da tentativa de atualizar o modelo econômico sem abandonar os princípios que orientam a Revolução Cubana. Mais do que quais mudanças serão realizadas, segundo ele, a questão central está em quem permanece no centro das decisões. “Quaisquer que sejam as aberturas e as reformas que tenham que ser feitas, o importante, acima de tudo, é em nome de quem se governa. O importante é que o povo tenha o poder”, afirmou.
Segundo o professor, parte das mudanças tornou-se necessária não apenas para aperfeiçoar o modelo cubano, mas para responder às atuais condições econômicas e às restrições externas enfrentadas pelo país. “Todas essas medidas estão encaminhadas para isso: nos defender, resistir dentro do momento extremamente difícil que está vivendo o país”, explicou.
Recompenza também destacou que a abertura econômica não é apresentada pelo governo cubano como um abandono do socialismo. Ao citar o presidente Miguel Díaz-Canel, o professor resumiu o objetivo atribuído às transformações: “Trata-se, antes de tudo, de salvar a Revolução”.
Nesse contexto, a solidariedade internacional voltou a aparecer como parte da resistência cubana. Para Recompenza, diante das limitações impostas ao país e da dificuldade de atuação de governos frente aos Estados Unidos, a mobilização de organizações, movimentos e da sociedade civil ganha ainda mais importância. “A solidariedade, hoje em dia, é mais valiosa e muito mais poderosa”, destacou.
A solidariedade como defesa da Revolução
A defesa da solidariedade internacional ganhou contornos práticos na fala de Leonardo Preto Echevarria, da Associação Cultural José Martí do Rio Grande do Sul. Com mais de 40 anos de atuação, a entidade desenvolve ações em solidariedade a Cuba e em defesa da autodeterminação dos povos.
“Falar de Cuba, da Revolução Cubana, é uma satisfação e uma tarefa revolucionária de todos aqueles que acreditam que um mundo diferente desse capitalista é possível. Nós precisamos falar sobre Cuba, precisamos defender a Revolução Cubana, e é isso que nós, da José Martí do Rio Grande do Sul, fazemos”, afirmou.
Entre as iniciativas apresentadas por Echevarria estão a organização de brigadas de solidariedade que viajam até Cuba, campanhas para aquisição de painéis solares e a mobilização pelo envio de petróleo ao país. Diante da crise energética enfrentada pela ilha, ele defendeu que sindicatos, movimentos sociais, centrais sindicais e outras organizações ampliem a articulação para tornar a ajuda mais efetiva.
Para Echevarria, concentrar as arrecadações e realizar compras em maior escala é uma das formas de ampliar o alcance das campanhas. Ele citou como exemplo a mobilização para a aquisição de painéis solares, que já recebeu contribuições de entidades sindicais brasileiras. “A gente precisa ter unidade. A forma mais inteligente é arrecadar fundos e depois ir à grande indústria e comprar muito mais do que um, dois ou três sindicatos comprando de forma avulsa”, explicou.
Além das campanhas materiais, Echevarria incentivou a participação nas brigadas e as viagens a Cuba como formas de conhecer a realidade do país e fortalecer os vínculos de solidariedade. Para ele, essas iniciativas também fazem parte da defesa da soberania e da autodeterminação do povo cubano diante do bloqueio imposto pelos Estados Unidos.

A mobilização das entidades sindicais também foi destacada por André Martins. Ele lembrou que a solidariedade a Cuba foi definida como uma das campanhas da entidade durante o último Congresso do Sindicato Nacional e já resultou em ações concretas ao longo deste ano.
Entre elas, uma delegação do Andes-SN esteve em Cuba durante as atividades do 1º de Maio, levando doações e medicamentos. Para Martins, a experiência também trouxe aprendizados sobre como tornar a solidariedade mais efetiva e direcionada às necessidades da população cubana. “Talvez a gente esteja aqui também fazendo um aprendizado sobre as necessidades do povo cubano e sobre o que é melhor levar hoje, como expressar melhor essa solidariedade”, avaliou.
As mobilizações realizadas nesta semana em diferentes partes do país fazem parte desse movimento. Segundo Martins, diversas seções sindicais organizaram atividades em torno do centenário de nascimento de Fidel Castro, celebrado na quinta-feira (13), tendo como eixos a solidariedade e a defesa da autonomia do povo cubano para decidir os rumos do próprio país. “Estamos chamando esta de uma semana de solidariedade a Cuba e em defesa da autonomia do povo cubano para deliberar sobre o seu futuro, para decidir sobre como conduzir o seu país”, explicou.
Juventude na luta anti-imperialista
A necessidade de ampliar esse debate entre os mais jovens foi o ponto de partida da fala de Emanuelle Somavilla, estudante de Direito da UFSM. Para ela, a solidariedade a Cuba também passa pela formação política e pela construção de espaços de discussão dentro das universidades. “A gente precisa apoiar a nossa juventude e fazer com que esse debate chegue até ela. Estamos em um momento de debater ideias de fato”, defendeu.
Ao longo da fala, Somavilla relacionou a situação enfrentada por Cuba a um cenário mais amplo de disputas políticas e econômicas na América Latina. Na avaliação da estudante, o avanço da extrema direita e as formas de interferência dos Estados Unidos na região reforçam a necessidade de articulação entre movimentos e organizações dos países latino-americanos e caribenhos.
Para ela, essa mobilização também precisa ocupar os espaços universitários e aproximar a juventude das discussões sobre soberania, imperialismo e organização da classe trabalhadora. “A gente tem que fazer outros debates na universidade, em outros momentos, sair daqui construindo coisas de fato”, afirmou.
Somavilla encerrou a participação recuperando uma frase de Fidel Castro para defender a organização coletiva diante desse cenário: “Nenhuma arma, nenhuma força é capaz de vencer um povo que se decide a lutar por seus direitos”.
No centenário, Brasil de Fato estreia documentário sobre Fidel
Na quinta-feira (13), data em que Fidel Castro completaria 100 anos, o Brasil de Fato estreou o documentário “Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus”. Filmada principalmente em Havana e em cidades do entorno, a produção percorre o legado do líder da Revolução Cubana a partir dos desafios enfrentados atualmente pela ilha.
O filme reúne ainda imagens raras da Revolução Cubana e discursos pouco conhecidos de Fidel, resultado de uma pesquisa no arquivo de cinejornais do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. A voz do líder cubano conduz parte da narrativa e estabelece conexões entre diferentes momentos do pensamento de Fidel e a realidade contemporânea de Cuba.
