Com mais de quatro décadas sem abrir as portas para exibições, o Cine Olinda, localizado no bairro do Carmo, receberá uma sessão especial neste sábado (15), a partir das 18 horas. Uma exibição não em sua tela, mas no lado de fora de suas paredes, como forma de chamar atenção para os anos de abandono do equipamento cultural. A ação faz parte do Cineclube CineRua, realizado pelo coletivo de mesmo nome, que, há mais de uma década, vem atuando pela defesa e estratégias de sobrevivência dos cinemas de rua do estado.
Fundado em 1911, o Cine Olinda teve suas últimas sessões em meados da década de 1970 e, há bons anos, vem sendo alvo de promessas de uma possível reabertura por parte do poder público, entre anúncios, convênios malogrados e projetos. Nesse panorama, a última notícia sobre uma intervenção no espaço é de novembro de 2025, quando a Prefeitura de Olinda informou estar em tratativas com a empresa vencedora da licitação para o processo de contratação das obras.
“A sessão é um ato de mobilização diante de anos de abandono e de promessas não cumpridas em torno da reabertura da sala. É a forma que temos neste momento de ativar o cinema no cotidiano da cidade e, ao mesmo tempo, reafirmar que um equipamento cultural com essa importância não pode permanecer fechado e afastado da população”, aponta o CineRuaPE, em nota coletiva. As atividades cineclubistas voltadas à luta pela preservação, reabertura e memórias dos cinemas de rua de Pernambuco vêm sendo realizadas desde 2015, iniciando em um então fechado Cineteatro do Parque. Já em 2016, completa uma década desde as históricas atividades da ocupação que foi realizada no Cine Olinda, que chegou a abrigar exibições dentro de sua estrutura após anos de portas fechadas.
Neste novo momento, serão exibidos os filmes “Esse Cinema Não Possui Saídas de Emergência”, de Mia Aragão, que registra a ocupação do Cine Olinda em 2016, e “Onde Começa um Rio”, de Julia Karam, Maiara Mascarenhas e Pedro Severien, sobre as lutas estudantis contra a chamada “PEC do Fim do Mundo”, promulgada em dezembro de 2016, que trouxe uma série de cortes em investimentos sociais.
“A curadoria foi construída a partir de dois recortes principais: a produção audiovisual pernambucana e a história dos cinemas de rua no estado. São filmes que abordam diferentes experiências de resistência, ocupação e mobilização em torno desses espaços, além de memórias de quem viveu e trabalhou neles. Não se trata apenas de exibir filmes em frente a um cinema fechado, os filmes ajudam a colocar em perspectiva a própria luta por direitos à cultura e à cidade”, afirma o CineRuaPE.
O CineClube CineRua ainda circulará por outros equipamentos espalhados pelo estado nas próximas semanas. No dia 28 de agosto, é a vez do Cine Iracema, em Vitória de Santo Antão. Já em 12 de setembro, o projeto chega ao Cine Polytheama, em Goiana, partindo para o Cine Rio Branco, em Arcoverde, no dia 26 do mesmo mês. A itinerância é encerrada no dia 25 de outubro, chegando ao Recife para uma sessão no Cine AIP. O projeto é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, oriundos do Ministério da Cultura e executados pelo Governo de Pernambuco.
“Esperamos que a sessão ajude a transformar uma insatisfação difusa em mobilização. Queremos ampliar o debate sobre a situação dos cinemas de rua, fortalecer uma rede de pessoas e instituições interessadas na preservação e reativação desses equipamentos e pressionar para que essa pauta seja tratada como uma questão prioritária na política cultural. O objetivo não é apenas lembrar os cinemas que existiram, mas discutir quais condições são necessárias para que eles voltem a cumprir sua função cultural e social. No caso do Cine Olinda, queremos que a reabertura deixe de ser uma promessa recorrente e passe a ser prioridade”, conclui o CineRuaPE.
