CINEMA

Circuito de festivais determina carreira de longas-metragens em todo o mundo

Filme gaúcho ‘London’, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, foi selecionado para Semana da Crítica de evento na Itália

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Cineastas gaúchos homenageados no ano passado na Serra vão estrear longa ‘London’ na Itália
Cineastas gaúchos homenageados no ano passado na Serra vão estrear longa ‘London’ na Itália | Crédito: Ma Villa Real/Divulgação

Um leão alado. Uma cidade flutuante. Nesse cenário de símbolos tão característicos de um dos destinos mais particulares e famosos do mundo, se dará a estreia mundial do primeiro longa dos realizadores gaúchos Márcio Picoli e Victor Di Marco. O filme queer “London” foi selecionado para a prestigiada Semana da Crítica da 83ª edição do Festival de Veneza, na Itália, e a notícia foi bastante celebrada no mês passado.

Na trama, um jovem com deficiência chamado London ganha a vida fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches e tem a chance de descobrir a origem e o destino de sua deficiência através de um exame médico. Com os resultados em mãos, o jovem vai ter que decidir se sua vida será guiada por um diagnóstico ou se vai seguir seus sonhos.

“A gente vai, sim, abrir uma nova forma e um novo olhar para um filme brasileiro e também para um filme gaúcho”, diz Picoli sobre a seleção. Mas, além de simplesmente comemorar esta que já é uma conquista, é importante lembrar que esse voo da produção para alcançar um grande espaço de visibilidade teve um trajeto com mais obstáculos a serem superados – e outros ainda que se seguirão na forma como está configurado o nosso mercado audiovisual brasileiro.

“A gente não chegou em Veneza por sorte, a gente chegou em Veneza porque a gente foi costurando os caminhos até lá. Hoje em dia, nesses grandes festivais, você não entra só porque você é bom. Você entra, sim, porque o seu filme é bom, mas também porque você foi atrás, deu um jeito de alguém prestar atenção em você. E isso é um trabalho de produção”, complementa o diretor.

Por que resgatar essa trajetória, perguntar aos realizadores como foi o caminho dessa obra, o papel da crítica, do circuito de festivais nessa realização? Pois o Festival de Cinema de Gramado está começando, e, exatamente há um ano, os roteiristas e diretores foram homenageados na Serra gaúcha. Eles receberam o Prêmio Iecine de Inovação, pelo “olhar original sobre o universo PCD” e pela “tradução cinematográfica profunda do sentido da palavra acessibilidade” – distinção que agora em 2026 será entregue a Márcio Reolon e Filipe Matzembacher (em cerimônia no Palácio dos Festivais na próxima sexta-feira (21).

Além disso, o primeiro curta dos dois, “O que pode um corpo?”, já recebia Prêmio Especial do Júri na edição pandêmica de 2020, no mesmo evento. O título ainda saiu destacado do Kinoforum, em sua estreia, e no CinePE, recebendo, posteriormente, indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Curta-Metragem Documentário daquele ano.

Porém, foi ainda antes, em 2018, que Gramado foi o solo determinante para essa jornada de projetos que se seguiria, porque foi em um festival, no Hotel SerrAzul, que eles conheceram a produtora Laura Moglia, conforme ela relembra: “Ali ficamos conversando por um tempo sobre cinema e as nossas dificuldades enquanto realizadores e produtores de conseguir ‘furar a bolha’ do audiovisual. Uns meses depois, em março/abril, eu tava trabalhando na primeira edição do Sur Frontera (Laboratório do Festival Internacional da Fronteira), na Cinemateca Capitólio, e foi organizando as rodadas de negócios que conheci ‘London’; na época, chamava ‘Nós a Sós’. Ali eu me apaixonei pelo projeto. Nesse mesmo evento, conhecemos o Felipe Lopes, sócio proprietário da Retrato Filmes, nossa distribuidora”.  

Normalmente, é ponto batido resumir a importância de um festival cinematográfico a seleções ou premiações. No entanto, todas as trocas e encontros promovidos em um evento desse tipo, mesmo com as suas especificidades, têm condições de gerar frutos e novos espaços para o segmento do audiovisual em nosso país e até fora dele, como aponta o voo alto de “London”.

Filme queer revela deficiência como potência criativa

Multiartista Victor Di Marco interpreta personagem-título da ficção queer
Multiartista Victor Di Marco interpreta personagem-título da ficção queer | Crédito: Ma Villa Real

Filmado em Porto Alegre e produzido pelas empresas Proa & Popa Produções e pela Balde de Tinta, o longa tem distribuição no Brasil da Retrato Filmes. No enredo, London (protagonizado pelo diretor e roteirista Victor Di Marco) é um jovem com deficiência que ganha a vida fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches e tem a chance de descobrir a origem e o destino de sua deficiência através de um laudo de um exame. Ao se deparar com um mundo míope e distorcido à sua presença, o protagonista terá que reinventar forças para se libertar e descobrir quem realmente é.

Apesar dos tabus e das crenças que cercam corpos situados para além da lógica binária e funcional sustentada pela estrutura capacitista, o longa traz corpos que vibram, que desejam, que vivem e se retiram de toda patologização que a sociedade impõe, questionando os discursos normativos que historicamente os reduzem à inadequação.

O elenco é formado por Victor Di Marco, Carla Cassapo, Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Priscilla Colombi, Emilio Farias e Manu Thedy. A direção de arte é de Valeria Verba. Bruno Polidoro é o diretor de fotografia; e a trilha sonora é assinada por Vito O. Azevedo.

Segundo os diretores, a realização do filme foi atravessada por inúmeros desafios, como a enchente catastrófica de 2024 às vésperas das filmagens, na qual recursos importantes foram perdidos. Di Marco e Picoli consideram que estar em um dos maiores festivais de cinema do mundo é a confirmação de que vale a pena acreditar em projetos que parecem improváveis: “Essa estreia reafirma que histórias contadas a partir de corpos historicamente marginalizados também pertencem aos maiores palcos do cinema mundial”. 

A seleção os enche de orgulho, mas também de responsabilidade. “O filme chegará em públicos de diferentes países e ampliará a forma como a deficiência é percebida: não como um limite ou uma falta, mas como uma potência criativa, uma linguagem e uma forma de produzir novas maneiras de olhar para o mundo”.

A diretora da Settimana Della Critica, Beatrice Florentino, afirmou que há anos não via um longa de estreia realizado com tamanha segurança, precisão e maturidade emocional: “‘London’ é uma celebração da vida, da delicadeza, do desejo e do amor. Um filme que abraça a sexualidade como uma força vital, recusa rótulos e nos lembra que o maior ato de coragem é simplesmente habitar o presente”.

A produtora executiva Laura Moglia, da Proa & Popa (empresa que dedica seu trabalho ao desenvolvimento de obras autorais que unem sensibilidade artística e relevância contemporânea), detalha melhor essas características: “Antes de pensar no potencial de mercado ou no tamanho do projeto, buscamos histórias que tenham um olhar singular sobre o mundo e que despertem algum tipo de inquietação. Claro que as questões de mercado não deixam de ser importantes, mas são as narrativas que nos atravessam, que fazem perguntas em vez de entregar respostas e que confiam na inteligência e na sensibilidade do espectador, que nos encantam”.

Como uma produtora de audiovisual olha pra um projeto e enxerga que ele vai ser uma narrativa desse tipo, que promova liberdade na realização e que leve ao espectador afeto e transformação? “Quando a gente fala em liberdade, é sobre criar um ambiente onde realizadores e a equipe técnica possam desenvolver sua visão artística sem abrir mão daquilo que torna aquela obra única. Acho que o afeto está na forma como olhamos para os personagens, para os territórios e para as relações humanas. Pensando sobre os espectadores, a gente acredita que a transformação acontece quando um filme permanece com cada um depois que a sessão termina, seja trazendo novas perspectivas, despertando emoções ou fazendo com que ele veja/sinta a si mesmo e o outro de uma maneira diferente”, responde Laura.

Por fim, a profissional analisa: “Escolhemos projetos que acreditamos que ecoam. Para nós, esse é o verdadeiro poder do cinema, criar encontros, ampliar sensibilidades e transformar a forma como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos”.

Lembrando que a primeira vez que ela assinou produção foi em “O que Pode um Corpo?“, curta pioneiro dos diretores filmado em 2019, Laura conclui: “Mais importante que a nossa relação profissional é que construímos uma amizade muito bonita ao longo desses quase 10 anos de trabalho. Então, tudo isso é fruto de muito amor compartilhado”.

‘Fazer o primeiro longa é algo muito difícil no Brasil’

Márcio Picoli é diretor, roteirista e produtor
Márcio Picoli é diretor, roteirista e produtor | Crédito: Ma Villa Real

Ficção em torno de um jovem queer com deficiência, escrita e dirigida por Victor Di Marco e Márcio Picoli, “London” participa da competição da Semana da Crítica do Festival de Veneza, com première marcada para 6 de setembro. Confira a íntegra da entrevista com um dos diretores, que também é produtor executivo:

Brasil de Fato: O anúncio de London selecionado para a Settimana di Venezia é uma conquista do cinema feito no RS (ainda mais vocês com a estética e temática que trabalham). Acreditas que essa exibição do primeiro longa representa esse lugar pra um coletivo regional, de novos rumos, mais reconhecimento, abrir novos pontos de vista para filmes feitos no Sul do Sul do Brasil?

Márcio Picoli: Eu acho que sim, é uma conquista muito grande, é algo maravilhoso. Eu diria que a gente conseguiu romper uma barreira. Da mesma forma que a gente vem rompendo várias barreiras para conseguir sair do Rio Grande do Sul e passar por vários festivais do Brasil, essa é uma barreira que a gente conseguiu romper, que passa pela língua, que passa por estética, que passa por preconceito. Para a gente, a gente vai estar, sim, abrindo uma nova forma e um novo olhar para um filme brasileiro e também para um filme gaúcho.

A expressão “audiovisual gaúcho”se aplica, neste caso? Numa questão/conotação de identidade, até acho que o cinema de vocês dialoga mais com uma expressão brasileira, no sentido do que se põe e se vê em tela, do que com as vozes daqui. Concordas?

Por muito tempo, acho que eu venho e fiquei refutando o termo gaúcho, porque filme gaúcho me lembrava uma coisa que não me representava, que era uma linguagem que na minha visão não se propunha tanto a experimentar. É uma linguagem super hétero, que não conversava em nada com o cinema que a gente faz. E, desde o ano passado, quando a gente ganhou o prêmio do Iecine, que era um prêmio de Inovação, comecei a me apropriar e a representar que assim: não, a gente faz filme gaúcho, mas é a nossa forma de trazer, é o nosso olhar, é um olhar para um gaúcho cada vez mais queer, para um gaúcho cada vez mais diferente, para um gaúcho cada vez menos conectado com aquele cinema velho, sabe?

Com aquele tipo de cinema que é um cinema que está fadado ao fracasso. Não é à toa que é isso, que muito dessa parte do cinema gaúcho nunca mais consegue sair do Rio Grande do Sul, fica preso e falando para si próprio e não consegue mais conversar nem mesmo para fora do Brasil. Então, é algo muito interessante. 

E do ponto de vista de identidade, eu tenho dois pensamentos: eu sinto que o nosso cinema, com certeza, dialoga com a expressão brasileira, mas, ao mesmo tempo, o tipo de filme brasileiro que hoje em dia sai do Brasil e faz um sucesso internacional, ele tem uma estética muito, muito peculiar (ou ele está ambientado no Rio de Janeiro, ou hoje está ambientado no Nordeste, tem uma estética de vender esse povo feliz e essa coisa meio árida, e essa coisa que tem um, vamos dizer, um certo estereótipo do que é o filme brasileiro).

Acho interessante, a partir do momento em que a gente consegue, com o “London”, ir para um lugar internacional, porque é um filme que se propõe a olhar um pouco mais para dentro, a ser um filme muito mais introspectivo, a ser um filme que fala sobre corpo. Então ele é um filme que tem uma estética muito apurada, mas não é uma estética que você olha e entra no estereótipo brasileiro. Acho que é por isso que ele abre esse espaço de ser uma nova expressão, que pode trazer um novo cinema gaúcho, que pode inspirar novas pessoas a pensarem em um outro tipo de cinema que não esteja aliado com uma estética que também não é a nossa.

É muito complicado quando a gente fala em botar o que é cinema brasileiro, porque nosso país é continental. O nosso cinema e o filme feito aqui, ele nunca vai conseguir ter a mesma cara do que um “Agente Secreto”, ou mesmo “Manas” e “Ainda estou aqui”, para citar três filmes brasileiros que bombaram muito internacionalmente, e que têm estéticas completamente diferentes e propostas muito diferentes.

O que a gente traz é esse lugar de, sim, vamos trazer um reconhecimento, vamos abrir novos rumos e também vamos mostrar que filme brasileiro pode ir para outra questão, que a gente pode olhar para questões de corpo, de identidade, que vão muito além sobre o ser ou não ser brasileiro, mas sobre olhar para a deficiência, para olhar sobre expressão de identidade, expressão de gênero, expressão de sexualidade. E isso eu acho muito importante, a gente conseguir romper essa barreira

Participar da Semana da Crítica no festival italiano é um outro patamar de visibilidade internacional, de voos maiores, atravessar fronteiras. O nome do personagem/filme já foi pensado nesse sentido de cosmopolita? Inicialmente, o longa tinha outro título, correto?

Sim, inicialmente, “London” se chamava “Nós a sós”, mas acabou sendo um processo muito natural, uma mudança do nome “Nos a Sós” para “London”, porque este foi o nome do protagonista desde sempre. A gente até pensou que o nome internacional do filme seria “London”, sempre, justamente por ter essa conotação de uma cidade cosmopolita, de conseguir chamar atenção, algo muito parecido com o que, por exemplo, o Afonso Cuarón fez com Roma, usando o nome de uma capital, mas que se tratava de outra coisa. Acho que a gente acaba fazendo a mesma coisa,  usa o nome de uma capital, mas é o nome de um personagem.

No filme, a gente dá algumas poucas explicações sobre esse nome, mas o foco não é esse. Então, acho que, sim, a gente sempre teve esse pensamento internacional, o objetivo sempre foi que “London” fosse o início da nossa carreira internacional, que mostrasse um pouco mais o cinema e que desse visibilidade para o tipo de cinema que a gente está fazendo. Porque, justamente com os curtas, a gente encontrou muita dificuldade para falar sobre os temas no ponto de vista internacional, pois muito dos curtas que acabam viralizando fora do Brasil são curtas que estão buscando uma estética às vezes muito mais pensada para o olhar internacional do que pensada para o que a gente queria falar. Fico feliz que com o “London” a gente está conseguindo isso.

Pegando um gancho na pergunta sobre título e nome de personagem: recentemente, vocês estiveram com o curta “Pequeno London” no Festival de Vitória, e o anúncio na mesma semana de julho gerou algumas confusões entre as narrativas. Vamos esclarecê-las?

Sobre o curta “Pequeno London, é uma história bem bem peculiar, porque geralmente os longas surgem a partir de curtas, então as pessoas geralmente fazem os curtas pensando em um longa. No nosso caso, foi o contrário, o longa surgiu primeiro. 

“London” é um roteiro que a gente fazia desde 2018, escreveu antes ainda de a gente lançar nosso primeiro curta. Nesse ano, já teve seu primeiro tratamento, mudando para este título. Já tinha claro que a história era bem diferente. Com esses anos, a gente também amadureceu. Então, a gente foi aos poucos nos descobrindo enquanto realizadores. É muito interessante que “London” foi crescendo junto com a gente.

O curta “Pequeno London” acaba surgindo num contexto muito específico: a partir de um momento que tinha o edital para um curta, e o Victor tinha uma história que ele queria contar e acabou pegando o personagem imaginando um pouco o London adulto do longa. Ele imaginou uma história dele criança, então não tem conexão direta ou um não conversa com outro.

São filmes totalmente diferentes, de propostas completamente diferentes. O curta é baseado numa criança super intimista, sobre esse momento dessa criança com deficiência tendo que lidar com a possibilidade de ter uma irmã ou uma irmã. Esse medo do abandono que é muito comum quando uma criança descobre que vai ter um irmão: quer ter irmão, mas também começa ciúme. E quando essa criança percebe que esse ser que está na barriga da mãe pode ser sem deficiência, isso começa a gerar coisas. É todo esse olhar sobre a eficiência, olhar infantil, sobre essa inocência, ao mesmo tempo tendo que lidar com essas questões. Então, é uma coisa muito mais infantil; é um filme muito mais intimista. Já “London” é um adulto, é outra história, é um outro momento em que ele tá. 

São filmes diferentes e propostas visuais também diferentes, bem diferentes. Por coincidências da vida, tudo aconteceu ao mesmo tempo, mas são projetos separados.

O filme não recebeu prêmios, mas como foi a participação no evento?

Isso, o filme não recebeu nenhum prêmio em Vitória. É um filme que eu acho que é mais difícil. Eu acho que é uma proposta ainda… Por mais que Victor e eu já tenhamos trabalhado muito no tema da deficiência, sinto que ainda é uma discussão, um debate sobre deficiência muito avançado para o que se está tratando no cinema ainda. 

O cinema tem fases, e a gente sente que hoje o cinema atual está querendo ir para uma coisa um pouco mais escapista, um pouco mais para falar de outros temas. E é isso, o tema da deficiência ainda traz algumas coisas pesadas. 

Então, eu sinto que é um filme que dentro das propostas curatoriais vai encontrar um pouco de dificuldade, assim como em prêmios, porque ele é um filme muito mais intimista, diferente de “Zagêro” (2024), que é um filme que deixava as pessoas eufóricas. É um filme que te coloca um pouco mais para dentro, te deixa um pouco mais reflexivo e mais incômodo, então é um filme mais difícil. E eu acho que também é interessante pensando em termos de trajetória dos nossos filmes, que a gente consegue apresentar diferentes temas e diferentes gêneros.

Já havia a ideia anterior de uma carreira de alcance internacional para este longa de estreia? Vocês estão amparados agora por uma assessoria do Centro do País, que trabalha títulos premiados e destacados em circuito de festivais, e uma distribuidora com perfil bem definido. Esses dois pontos cruciais da cadeira demonstram algumas ambições para o filme…

Com certeza, a gente sempre teve uma ideia de um alcance internacional, a de conseguir fazer com que esse filme gerasse muito barulho por dois motivos. 1) Por um motivo muito pessoal de carreira, de entender que a gente estava chegando num ponto em que muitas das coisas que a gente podia conquistar no Brasil a gente começou a conquistar e a gente estava conquistando, mas estava faltando esse prestígio internacional. Infelizmente, o prestígio internacional nos coloca muito à frente para conseguir fazer outros longas e nos dá mais perspectiva de futuro. Exatamente, essa projeção internacional era algo que a gente sempre pensou e almejou e tentou de todas as formas fazer um planejamento para que acontecesse. Da mesma forma como a gente planeja aqui para o Brasil, que seja um filme que consiga alavancar a nossa carreira tanto aqui dentro quanto fora do País. 

2) Mais do que isso, o objetivo também de conseguir mais visibilidade é porque é um filme que está falando sobre um assunto que está presente em toda a nossa filmografia e que, a partir do momento que chega num longa, a gente consegue sempre mais visibilidade. Como a gente está falando sobre coletivos e também sobre coisas que a gente acredita e propósitos de vida, a partir do momento em que a gente consegue essa visibilidade, a gente também está, de certa forma, dando visibilidade junto para as nossas pautas e nossas ideias coletivas.

Apesar do filme não ser um filme necessariamente de uma pauta, ele fala muito sobre corpo, especialmente. Acho que, também a partir do momento que nós sendo quem nós somos, a gente também consegue essa visibilidade e sai da bolha, que até então a gente tava sempre falando.

Cineastas receberam Prêmio Iecone Inovação do Secretário Adjunto da SEDAC, Fabiam Thomas, em 2025
Cineastas receberam Prêmio Iecone Inovação do Secretário Adjunto da SEDAC, Fabiam Thomas, em 2025 | Crédito: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Aliás, a trajetória anterior dos curtas de vocês dois em festivais, os reconhecimentos, as trocas nessas ocasiões foram importantes para chegar no primeiro longa?

As trocas são sempre muito importantes. O espaço dos festivais ainda é um espaço muito essencial tanto para formação quanto também para visibilidade, mas especialmente para a quantidade de filmes. A gente tem acesso a um monte de filmes, nesses últimos anos, viajando pelos diversos festivais que a gente passou com os nossos curtas. Consegui ver muitos filmes que infelizmente acabam não sendo tão acessíveis e acabam não chegando a todo mundo, porque o cinema brasileiro tem uma dificuldade de conseguir espaço. Quando a gente fala de curta-metragem, o espaço é festivais e um que outro streaming que se importe, mas ainda é muito difícil. E claro, o Brasil tem uma produção muito grande de filmes, especialmente depois das últimas leis de incentivo que a gente teve, a Paulo Gustavo e a própria política Aldir Blanc.

Mas o projeto do “London” nasceu antes dos nossos curtas, então ele ia meio que em paralelo. O longa tinha uma ambição e uma ideia um pouco diferente dos nossos curtas. Foi mais difícil desse ponto de vista trazer trocas, porque quando a gente ia para os lugares e contava com produtores, eles viam os nossos curtas, e o longa sempre ia para outro lado. Era uma outra proposta, era algo diferente e que não conversava. E, mesmo assim, fazer o primeiro longa é algo muito difícil no Brasil. Então, acredito que o que mais nos ajudou mesmo a conseguir fazer esse primeiro longa foi justamente o fato de a gente ter muito claro o que a gente queria e ter apostado e insistido muito na nossa visão, antes de ceder a exatamente o que esperavam da gente. 

Sobre a mudança do título e os encontros em eventos, queres especificar a importância do projeto passar por laboratórios e outras oportunidades de “lapidação”?

Sobre os laboratórios, é algo que eu digo que é muito importante para longas em geral. A gente foi muito privilegiado de ter participado dos maiores laboratórios do Brasil. E, nesses laboratórios, a gente teve muitas oportunidades de conversar com realizadores incríveis, com pessoas que foram muito receptivas com a nossa ideia, com a nossa visão e que nos trouxeram provocações. Foi muito importante, ao mesmo tempo em que o laboratório é uma das coisas mais difíceis. É um dos processos mais complicados do desenvolvimento, porque você fica um tempo imerso. Então, nessa imersão, você é obrigado a ter que lidar com essas críticas, com essas visões de como o filme chega e como ele está chegando ou não às pessoas.

Eu sempre falo que é um ato de muita coragem começar a compartilhar o seu roteiro com outras pessoas, porque o projeto vai engrandecendo, mas mais dúvidas vão surgindo. Então, não só é muito importante participar desses laboratórios, mas também saber o momento de parar, de ouvir a opinião, Nesses laboratórios, o que presumem é que você não está satisfeito. Então, eu sinto que o maior desafio sempre é esse, entender quando o filme está pronto, quando que é a hora de parar de escutar as pessoas e começar a investir. Os laboratórios são essenciais para a continuidade dos projetos e também como uma certa forma de incentivo, porque são selos, pois você já passa por uma pré-seleção. O processo de fazer audiovisual é de muita reescrita, de muito retrabalho. Então, é uma forma de, enquanto você não consegue fazer o filme, você manter viva aquela esperança.

“Márcio Picoli é diretor, roteirista e produtor” é o que está no release de divulgação do filme. Não é interessante falar da tua primeira relação com o audiovisual através da crítica? Aliás, a crítica cinematográfica ainda tem algum “valor” hoje em dia? Vamos explicar como se dá essa passagem para o outro lado, se tua vocação “realizador” começa realmente com a dobradinha com o Victor Di Marco?

É ótimo, é a primeira vez que me perguntam sobre isso, e acho que exatamente pelo fato de a gente se conhecer, que você sabe que já estive na crítica. Mas acho que o meu processo vem muito ainda de eu ter muita frustração, assim, com a crítica de cinema e muita frustração enquanto classe. Sinto que saí da crítica muito por realmente não estar conseguindo o meu espaço, vindo uma época que eu talvez não estava muito disposto, como eu acabei ficando disposto no cinema para brigar e para demarcar uma posição. Na crítica, talvez por não ser aquilo que eu queria fazer mesmo para a minha vida, que simplesmente não consegui me adaptar e não consegui brigar, apoiar pela minha visão e pelo que eu acreditava na crítica. 

Eu lembro que fui uma das primeiras pessoas no Rio de Janeiro do Sul a começar a fazer coisas em vídeo e foi muito criticado por isso – para depois ver todas as pessoas que me criticaram também tendo que fazer vídeo. Acho que ali eu paguei um pouco do preço de querer mudar um pouco as coisas. E daí, a partir do momento que eu senti que eu me encontrei como realizador, também percebi que não fazia mais sentido continuar na crítica, por um sentido de conflito de interesse mesmo assim de como que eu vou escrever sobre o filme das pessoas quando eu também vou estar colocando o meu no mundo?! 

Mas, ao mesmo tempo, é algo que eu sempre fico pensando e revisitando porque eu realmente gostava muito de escrever, de falar sobre cinema. Gosto de falar e é algo que eu sinto falta hoje. É algo que eu venho repensando se isso não é um princípio ético que eu deveria repensar, pelo, talvez, bem de eu voltar a fazer e falar sobre cinema sem ser no papel de realizador, que é algo incrível mas, ao mesmo tempo, às vezes me limita a falar apenas dos meus filmes. 

Essa minha passagem se deu muito nesse momento de que percebi que estava frustrado, de que eu não estava conseguindo ter um reconhecimento enquanto classe, sendo negado na Associação de Críticos por duas ou três vezes, nem sei mais… Apliquei algumas vezes. E também de perceber junto, conhecendo o Victor, que era uma pessoa que também queria ingressar no audiovisual, vendo como a gente tinha convergências e semelhanças de um poder ajudar o outro a ir atrás desse sonho. Tanto o Victor encontrou em mim uma forma de conseguir pegar do mundo das ideias as coisas que ele queria fazer como eu encontrei um apoio de uma pessoa que me incentivava a brigar por esse espaço que a gente sabia que não ia ser fácil.

Gostaria de explicar para quem não é da área o papel dos produtores no audiovisual – porque este cargo tem destaque no teu currículo. A Laura Moglia confirma que ela “nasce” produtora nesse encontro contigo e o Victor. Como vocês acharam o ponto de equilíbrio no desempenho das funções e nessa dinâmica dessa curta trajetória que agora é, precocemente, coroada? Ter o primeiro longa, para uma dupla que fez carreira filmando em Porto Alegre, já estreando na Semana da Crítica de Veneza coloca vocês em muita evidência…

Sobre o papel da produção, poderia dar uma entrevista inteira sobre isso. Falando sobre a realidade brasileira, ser produtor é você fazer cinema no Brasil. Você tem que ser produtor. A figura da pessoa que só dirige ou só escreve no Brasil é uma figura de muito privilégio, que só está para pessoas que chegam num nível muito alto de carreira ou que estão trabalhando para alguma grande empresa ou para uma grande produtora. 

A realidade do cinema independente é que você acaba tendo que ser o produtor, por motivos legais. Se você não é produtor, você não consegue fazer filme. Então, a vocação de produção no Brasil, infelizmente, ela é necessária, não é uma vocação por vocação. Você meio que é obrigado a ter que aprender a produzir, senão você não vai fazer. Falando de filme independente, que é o nosso caso, enquanto produtor independente. No caminho, a gente está encontrando pessoas parceiras como a Laura Moglia, que é uma produtora e que nos ajuda também. Mas a gente também teve que produzir.

Eu e o Victor tivemos que desbravar esse mundo desses festivais, desbravar esse lugar de conseguir chegar nesse festival. A gente não chegou em Veneza por sorte, a gente chegou em Veneza porque a gente foi costurando os caminhos até lá. Hoje em dia, nesses grandes festivais você não entra só porque o seu filme é bom, mas também porque você foi atrás, você deu um jeito de alguém prestar atenção em você. E isso é um trabalho de produção.

Mas é uma discussão muito louca da forma como o audiovisual brasileiro é. Tanto que é isso, você vai olhar a maioria dos filmes independentes brasileiros, o diretor, geralmente diretor e roteirista, ele também é o produtor, com mais alguém, com algum produtor associado, mas essa pessoa não vai fugir da produção porque não existe no Brasil fazer filme independente que você escreve, dirige, sem que você produza também. Isso é ótimo, porque eu acho que isso cria na gente, enquanto roteirista e diretor, um olhar de produção. A gente é muito mais ciente das coisas que a gente escreve, mas ao mesmo tempo nos aprisiona, porque a gente também fica limitado sempre a fazer um tipo de história que vai acabar dentro do orçamento. A gente nunca tem a possibilidade ou os conhecimentos ou como se aprofundar para conseguir buscar mais dinheiro.

Editado por: Katia Marko

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