Agosto lilás

Do autocuidado à proteção: mulheres do Alemão criam rede para romper ciclos de violência

Projeto promove acolhimento, orientação sobre direitos e encaminhamento para rede especializada de atendimento

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Mulher negra posa para foto com os punhos cerrados e usando um body preto e em seu colo se lê "livre"
Ato realizado em 8 de março em Copacabana, no Dia Internacional das Mulheres, pelo fim da violência de gênero | Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Entre janeiro e agosto de 2026, cerca de 70 mil novos casos de violência doméstica e familiar chegaram ao conhecimento da Justiça no Rio de Janeiro. A maioria é de casos de agressões físicas (50%) e psicológicas (24,5%), que ocorrem quando a mulher é submetida a menosprezo, controle, ameaças e humilhações. Os dados são alarmantes e indicam a necessidade de um trabalho contínuo de prevenção e proteção dessas mulheres.

Um desses trabalhos é o projeto Mulheres em Ação no Alemão, realizado no Complexo do Alemão desde 2015. O grupo foi criado para reunir lideranças da região que já estavam informalmente em contato para resolver diversas demandas, seja para conseguir ajuda na compra de uma cesta básica, seja para a proteção de mulheres em risco.

“Toda vez que a gente se encontrava, era para acolher uma à outra. Então, a ideia inicial foi de nos reunirmos para falar de autocuidado, unha e maquiagem”, conta Camila Santos, mais conhecida como Camila Moradia, ao Brasil de Fato. Nessas conversas, a questão da violência contra as mulheres era uma temática constante, mas não havia campanhas de prevenção no território.

Acolhimento

Logo elas perceberam que chamar para reuniões com a temática da violência não traria resultados, tampouco participantes. Mas, quando o tema era autocuidado, café da manhã ou chá da tarde, a sala ficava cheia. Com uma mistura de encontros entre amigas e conversas sobre ciclos de violência, as oito integrantes passaram a ganhar a confiança das moradoras e viraram referência no acolhimento e na prevenção da violência.

O trabalho é voluntário e funciona a partir de uma rede de parceiros, entre psicólogos, artesãos e oficineiros, que auxiliam na mediação dos encontros e realizam cursos profissionalizantes com as mulheres. Além disso, elas também visitam escolas para fazer um trabalho de prevenção.

A proposta dos encontros é incentivar as mulheres a conhecerem seus direitos e a romperem os ciclos de violência. Para aquelas que correm mais risco e estão decididas a se afastar do então companheiro, o encaminhamento direto é para os Centros Especializados e Integrados de Atendimento à Mulher do município e do estado.

Centros de atendimento à mulher

Os Ceams (prefeitura) e Ciams (estadual) são responsáveis por garantir atendimento psicológico e social para essas mulheres. “Temos experiências muito boas com os centros. Se houver necessidade de atendimento médico, a mulher é encaminhada. Se precisar de abrigo sigiloso e imediato também. Além disso, elas são orientadas e incluídas nos programas sociais necessários, como cursos remunerados e garantia de escola para os filhos”, diz Santos. Ela lembra que esses espaços não funcionam como delegacias e são destinados ao cuidado das mulheres vítimas de violência.

Para Lina Faria, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e especialista em violência, esses centros são os mais bem preparados para acolher as mulheres. No entanto, ela cobra que esses centros façam um trabalho de integração com os profissionais de saúde da Atenção Primária para identificar situações de risco vivenciadas pelas mulheres e a necessidade de encaminhamentos.

Além disso, ela cobra uma mudança estrutural dos currículos dos cursos de saúde e especialmente nos de medicina. “Os currículos devem contemplar as diferenças nas condições que constituem o processo saúde-doença e valorizar o pensamento social, que é fundamental para formar trabalhadores capazes de compreender e intervir nos determinantes que aprofundam as desigualdades”, defende.

Ciclo de violência

A cartilha de orientações do Observatório do Feminicídio do estado do Rio de Janeiro observa que os casos de feminicídio dificilmente ocorrem de forma isolada e são consequência de uma série de agressões.

Romper esse ciclo é uma das principais dificuldades das mulheres, que muitas vezes não conseguem reconhecer situações de abuso ou não conseguem enxergar caminhos para se afastar da relação. Afinal, não é simples imaginar que alguém que amamos possa nos fazer tão mal.

O início vem com o aumento das discussões e cobranças. Em seguida, ocorrem agressões físicas, verbais e psicológicas. Quando a poeira baixa, é comum o agressor se arrepender, pedir desculpas e prometer mudar. O momento dá uma sensação de reconciliação, mas as mudanças não ocorrem, e o ciclo recomeça.

Editado por: Vivian Virissimo

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