Saberes do terreiro

Do Nordeste ao Cerrado, tradições do teatro popular brasileiro se encontram em Brasília 

Festival gratuito reúne mestres e artistas de Pernambuco, Ceará, São Paulo e DF entre 15 e 29 de agosto

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Maciel Salú e Lucas dos Prazeres apresentam Abaeté: Uma Celebração Afro-Indígena Brasileira na abertura do festival, neste sábado (15)
Maciel Salú e Lucas dos Prazeres apresentam Abaeté: Uma Celebração Afro-Indígena Brasileira na abertura do festival, neste sábado (15) | Crédito: Raissa Azeredo

Brasília se transforma em ponto de encontro de diferentes tradições do teatro popular brasileiro a partir deste sábado (15). Artistas, mestres e mestras de Pernambuco, Ceará, São Paulo e do Distrito Federal participam da 6ª edição do Festival Brasileiro de Teatro de Terreiro, que ocupa o Centro Tradicional de Invenção Cultural, na 813 Sul, até 23 de agosto.

Com entrada gratuita, o festival reúne apresentações, rodas de conversa e atividades que aproximam teatro, circo, mamulengo, palhaçaria, bois e ritmos tradicionais. A proposta é colocar em diálogo manifestações como Cavalo-Marinho, Mamulengo, Bumba-meu-boi e Maracatu com companhias e experiências contemporâneas das artes cênicas.

Realizado pelo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, o encontro reúne artistas de diferentes gerações e territórios e coloca o terreiro no centro da criação artística. Além de ser um cenário para as apresentações, ele aparece como espaço de memória, celebração, convivência e transmissão de saberes.

A proposta do festival é também voltar os olhos para produções que surgem fora dos espaços tradicionalmente associados ao teatro nacional, valorizando manifestações construídas no chão, nas ruas, nos quintais, nos roçados e nos territórios populares.

Entre os convidados nacionais estão Maciel Salú e Lucas dos Prazeres, Mestra Nice Teles e Mestre Manoelzinho Salustiano, de Pernambuco; Mundu Rodá e Cia. Terreiro Encantado, de São Paulo; e Trupe Motim, do Ceará.

Brasília também entra nesse encontro com produções próprias. Mamulengo Presepada, Cia. Udi Grudi, Orquestra Alada Trovão da Mata, Tamá Freire, Maria Villar e Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro estão entre os representantes do Distrito Federal.

Heranças afro-indígenas abrem o festival

A abertura, neste sábado (15), às 20h, fica por conta dos pernambucanos Maciel Salú e Lucas dos Prazeres, com Abaeté: Uma Celebração Afro-Indígena Brasileira.

O espetáculo parte do encontro entre dois artistas negros de famílias quilombolas e leva ao teatro referências das heranças africanas e indígenas presentes em suas trajetórias. Cantos de Jurema e Candomblé, aboios e composições próprias compõem a montagem.

“Criamos o Abaeté com o intuito de trazer nossas músicas para o teatro. Lucas tem uma ligação muito forte com a cultura de matriz africana e indígena, assim como eu”, explica Maciel.

“Eu e Lucas somos dois artistas negros, de dois quilombos. Isso é muito forte dentro do Abaeté, com cantos de Jurema, do Candomblé, aboios, além de composições nossas”, acrescenta.

Outra tradição que atravessa a programação é o Cavalo-Marinho. O grupo paulista Mundu Rodá realiza, na segunda-feira (17), uma aula-espetáculo e lança o livro O Cavalo-Marinho da Mata Norte de Pernambuco – Da boca da noite até quebrar a barra do dia.

A publicação é resultado de mais de duas décadas de pesquisa de campo junto a mestres e brincadores da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Segundo Juliana Pardo, integrante do grupo e uma das autoras, esse percurso também atravessa a criação artística da companhia.

“A aula-espetáculo nasce justamente desse percurso, onde nós buscamos mostrar como as tradições cênicas atravessam o nosso fazer artístico, compartilhando com o público nossos modos de criação de cenas, personagens, máscaras, músicas e corporalidades”, afirma.

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Grupo paulista Mundu Rodá integra a programação do festival com aula-espetáculo e apresentação de A Donzela Guerreira | Crédito: Divulgação Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro

Cultura popular atravessa territórios e cria raízes no DF

Se o festival traz a Brasília manifestações e artistas de diferentes regiões do Brasil, parte dessas tradições já faz parte da própria história cultural da capital.

É o caso do mamulengo. Ligado principalmente à tradição nordestina, o teatro popular de bonecos encontrou espaço no Distrito Federal ao longo das décadas.

Criador do Mamulengo Presepada e brincante há 45 anos, Chico Simões lembra que bonequeiros já circulavam por Brasília desde o início da construção da cidade. Nas ruas e feiras, e posteriormente nas escolas, a manifestação foi ganhando espaço e novos brincantes.

Hoje, Brasília tem mais de 20 grupos de mamulengo. É um número expressivo de uma brincadeira que é tradição muito no Nordeste, mas que está também agora em Brasília”, afirma.

O Mamulengo Presepada representa o DF na programação neste domingo (16), às 18h, com “O Romance do Vaqueiro Benedito”.

Do Cerrado nasce uma mitologia própria

O Distrito Federal também chega ao encontro com uma experiência criada a partir de seu próprio território. Um dos eixos da sexta edição é o Teatro Cerratense, conceito desenvolvido pelo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro a partir da invenção de uma mitologia própria para Brasília.

Nesse universo, a capital deixa de aparecer apenas como centro administrativo e político para se tornar território de personagens, histórias e seres fantásticos. As criações surgem do encontro entre referências da cultura popular, o Cerrado e as experiências de quem vive e produz arte na cidade.

Mestre do Seu Estrelo, Tico Magalhães afirma que o Festival Brasileiro de Teatro de Terreiro foi criado para reunir o que define como “feituras dramatúrgicas do povo brasileiro”.

“São teatros que têm a cultura popular como um território sagrado e que, por meio de seus fazeres, dão continuidade a essa arte milenar e ancestral”, afirma.

A edição reúne apresentações locais e nacionais de grupos e artistas que são referência no Teatro Popular. Durante o festival, o Seu Estrelo apresenta duas rodas. Na sexta-feira (21), o grupo leva ao público a “4ª Roda, O Amor é um Rio sem Margem”.

No sábado (22), apresenta a “7ª Roda, No Reinado do Vice-Versa ou O Funeral da Saudade”, criação que amplia a mitologia do Calango Voador e incorpora 14 novas figuras ao universo fantástico desenvolvido pelo grupo.

Personagens da mitologia criada pelo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro ganham cena na 7ª Roda, No Reinado do Vice-Versa ou O Funeral da Saudade
Personagens da mitologia criada pelo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro em cena | Crédito: Rafaela da Silva

Festival termina no Paranoá

A programação principal na 813 Sul segue até 23 de agosto. O encerramento será realizado no sábado seguinte, dia 29, quando o festival deixa o Plano Piloto e segue para o Paranoá.

Às 20h, a Orquestra Alada Trovão da Mata realiza uma roda no Ilê Axé Oyá Bagan. A mudança de território integra a proposta do festival de fazer da circulação por diferentes espaços de Brasília uma forma de encontro e construção comunitária.

Artistas do DF na programação

16 de agosto (domingo), às 18h
Mamulengo Presepada – O Romance do Vaqueiro Benedito

20 de agosto (quinta-feira), às 19h
Roda de conversa Figurinagem Popular, com Mestre Manoelzinho Salustiano (PE), Mestra Tamá Freire (DF) e Maria Villar (DF)

21 de agosto (sexta-feira), às 20h
Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro – 4ª Roda ou O Amor é um Rio sem Margem

22 de agosto (sábado), às 20h
Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro – 7ª Roda: No Reinado do Vice-Versa ou O Funeral da Saudade

23 de agosto (domingo), às 18h
Cia. Udi Grudi – Udi Grudi em Conserto

29 de agosto (sábado), às 20h
Orquestra Alada Trovão da Mata – encerramento no Ilê Axé Oyá Bagan, no Paranoá

Serviço

6º Festival Brasileiro de Teatro de Terreiro

Data: de 15 a 23 de agosto, com encerramento especial em 29 de agosto

Local: Centro Tradicional de Invenção Cultural – SEPS 813 Sul, Brasília

Entrada: gratuita, com retirada de ingresso no dia anterior a cada apresentação (link aqui)


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Editado por: Clivia Mesquita

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