Fogueiras acesas e tambores ecoando. No piristil, casa de religião de vodu, danças e cantos reavivam a memória de uma noite que mudou o rumo da humanidade. Foi apenas em 2025 que o dia 14 de agosto, dia do histórico Congresso do Bwa Kayiman, foi decretado feriado nacional pelo Estado haitiano. Talvez por isso, sua celebração continua discreta, quase escondida, como se tamanho legado precisasse ser tratado com cuidado e sem alardes. Não apenas nesta data comemorativa, mas sim todos os dias, preservando o sentido verdadeiro do que foi uma ruptura profunda com o sistema colonial no Haiti.
Na madrugada do 14 de agosto de 1791, cerca de 200 negros escravizados ou mawons (quilombolas), vindos de toda a região norte da ilha, se reuniram no bosque de Morne Rouge, a oito quilômetros da cidade do Cap Français (hoje Cabo Haitiano). Uma cerimônia religiosa e política foi conduzida por Dutty Boukman e Cécile Fatiman, sacerdotes vodu e lideranças da região. Um porco foi sacrificado ao chamar a força e o respaldo dos ancestrais. Todos os presentes tomaram seu sangue e, convidados por Boukman a “ouvir a liberdade falando no coração de todos”, fizeram um mesmo juramento.
Uma semana depois, na noite do 22 para o 23 de agosto, milhares de escravizados, em diversas fazendas, colocaram fogo nos canaviais e assassinaram seus donos, numa insurreição simultânea e incrivelmente coordenada. A revolta não demorou em se espalhar para o resto do país e rapidamente se tornou revolução.
A execução de Boukman pelos franceses, em novembro, não adiantou em nada na tentativa de reverter o processo em curso. A princípios de 1792, um terço da ilha já estava sob controle do povo negro. Em 1804, depois de 13 anos de sangue derramado e de uma luta incessante que permitiu derrotar os maiores exércitos europeus, Haiti se tornava o primeiro país independente do Caribe, a primeira república negra do mundo, marcando o início da libertação de toda a América Latina.
O congresso político
Sabemos que a versão da história que atravessa o tempo costuma ser a dos vencedores. Mas a Revolução Haitiana se tornou a exceção que confirma a regra. A nação que se libertou não ficou com a hegemonia da narrativa, e o que sabemos dos acontecimentos costuma passar por algum filtro (neo)colonial que tende a diminuir a importância dos fatos e, neste caso, o nível de organização e inteligência da insurreição.
Daquela noite do Bwa Kayiman, frequentemente tratada como uma mera cerimônia religiosa ou mística — demonizada pelo cristianismo —, pouco se sabe e menos ainda se entende. É como se o levante geral dos dias seguintes fosse coincidência ou fruto do acaso. No entanto, a leitura mais atual dos historiadores haitianos é que aquele encontro tinha muito menos a ver com qualquer deus do que com a necessidade de organizar a revolta. Em outras palavras, foi, antes de tudo, um congresso político e revolucionário, do qual cada um dos 200 delegados saiu com tarefa de articulação territorial e data marcada para a ação direta.
Mesmo assim, os mistérios permanecem e alimentam as dúvidas ou a imaginação de quem se debruça sobre o tema. Porque organizar um evento desse alcance num contexto de privação de liberdade é, no mínimo, desafiador — sem falar das condições de comunicação e deslocamento daquela época. “Parece mesmo impossível, não é!”, admira-se Bedouby Norbert, historiador e educador popular. “Porque, mesmo hoje, com internet, com meios de transporte, sabemos que reunir 200 delegados numa assembleia não é algo fácil! Isso demanda um mínimo de condições e logística. Naquela época, as pessoas não eram livres. Os escravizados não podiam sair das fazendas. E mesmo os mawons não podiam circular livremente. Então, é uma questão fundamental para nós entender como eles conseguiram fazer isso.”
Desde a própria convocação para o congresso, Dutty Boukman, cocheiro instruído e influente, com amplo conhecimento da região, cumpriu um papel fundamental. Assim como os negros mawons ou libertos, que conseguiam adentrar as plantações para passar recados. “Os mawons viviam escondidos nos morros. Mas, à noite, costumavam descer para se abastecer. Eles saqueavam as plantações. Mas também aproveitavam para se comunicar com os escravizados, principalmente nos momentos de rituais ou dança que eles tinham”, explica Norbert.
Ainda resta conceber os dias ou semanas de caminhada clandestina que muitos fizeram, atravessando diversas paisagens, para chegar na hora certa no lugar certo… e depois retornar ao seu território para informar os demais companheiros das orientações a seguir. Ocultar esta parte da história seria pensar que a abolição da escravidão, aprovada pela França em 1794 — e, vale lembrar, revogada oito anos depois por Napoleão Bonaparte —, foi um presente generoso da burguesia branca e não uma conquista. Bedouby Norbert esboça um sorriso: “A verdade é que, quando decretaram a abolição, a imensa maioria dos negros já tinha se libertado!”.
Uma revolução anticolonial e humanista
No fim, se o rito religioso esteve ao centro do processo e do congresso, ele precisa também ser entendido na sua dimensão de resistência política e cultural, de vínculo com a ancestralidade e com as gerações futuras. O vodu, assim como a língua crioula, é um alicerce da cultura haitiana e um guardião da sua memória.
Nenhum escrito original permite certificar com exatidão o que foi dito na noite do congresso, mas a força da tradição oral permitiu, mesmo dois séculos depois, preservar dentro da sabedoria popular a essência da ideologia revolucionária. Pois as pessoas ali reunidas não estavam movidas por um sonho de liberdade individual, mas sim por um compromisso com a libertação de todos os seres humanos. Neste sentido, mais do que uma luta pela independência de um país, a Revolução Haitiana representou um rompimento cultural profundo com o sistema capitalista, colonial e escravagista dominante.
Assim, o silenciamento da sua história pode ser uma consequência desse radicalismo. Muito se lê e se estuda, em escolas mundo afora, sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, promulgada pela Revolução Francesa. Muito menos se conhece sobre os princípios do Bwa Kayman, pactuados ao redor da fogueira, no dia 14 de agosto de 1791. Mas, enquanto a primeira se contentava em promulgar direitos para homens brancos, os combinados feitos pelos delegados haitianos carregavam uma visão verdadeiramente universal, de liberdade, tolerância, respeito e solidariedade.
Na ausência de documento físico, esses acordos foram transmitidos oralmente de geração em geração, tornando-se prática, muitas vezes transformados em ditados ou conselhos de avós, em modos de ser e agir, porém sempre associados ao marco histórico do congresso. Foi apenas em 2009 que um minucioso trabalho de resgate dessa memória foi realizado pelo escritor e pesquisador Pierre Michel Chery (1956-2024). Meses de investigação aos quatro cantos do país, especialmente em meio rural e camponês, lhe permitiram destacar 12 grandes princípios.
Princípios, vale destacar, que não só nasceram naquela noite, mas que a antecederam e a tornaram possível, colocando o Bwa Kayiman numa temporalidade e cosmologia mais ampla. “Muitos princípios da vida dos haitianos, muitas regras que os haitianos têm na maneira de organizar suas vidas, provêm das linhas que os escravizados definiram antes mesmo de terem quebrado as correntes em 1791”, explica o escritor num artigo publicado em 2009, no qual destaca a diferença radical de visão do mundo que os escravizados opuseram aos europeus.
“Assim, reunimos 12 entre os maiores princípios que continuam vivos na tradição haitiana, para mostrar qual foi a base ideológica que levou ao Bwa Kayiman, mas também qual foi a visão da vida abordada naquela cerimônia. Esses 12 princípios são 12 respostas diretas, 12 respostas que geram embate com as ideias que circulavam na época sobre a vida em geral”, conclui.
“Os doze princípios do Bwa Kayiman”, fundamento da cultura e do pensamento revolucionário, popular, político e religioso haitiano:
1- Cada pessoa é uma pessoa. Ninguém é mais do que outro.
2- Cada um tem lugar debaixo do céu azul.
3- Se tem para um, tem para dois. Lembre-se de quem está atrás.
4- Cada um tem sua maneira de rezar. Respeite a maneira de rezar de cada um.
5- O que não sabemos é maior do que a gente.
6- Não há nada na vida que não tenha regra. É a regra que dá o equilíbrio da vida.
7- Não desfaça o equilíbrio da vida sem razão. Quem desloca os elementos coloca todo mundo em perigo.
8- Quanto mais aprende, mais sabe como respeitar o equilíbrio da vida.
9- Não coma o a comida do esquecimento.
10- Lembre-se sempre: o ferro corta o ferro! Atrás do morro, tem morro! Não faça escorrer o sangue do inocente! Não dê carga a um irresponsável.
11- Cuidado! O inimigo do Bwa Kayiman pode vir com qualquer nome e qualquer roupa para se vingar.
12- Miséria é o herdeiro esquecer que os escravos fizeram o Bwa Kayiman para que as pessoas que servem a deus não sejam amontoadas no meio dos bichos.
