CAMPESINATO EM LUTA

‘Tarefa inacabada’: movimentos do campo discutem unidade diante do avanço do agronegócio

Seminário do MPA reuniu MST, Contag, Apib e MAB para debater soberania alimentar, território, políticas e tecnologias

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Representantes de movimentos sociais participaram do 2º Seminário do Campesinato, nesta sexta-feira (14), em Brasília
Representantes de movimentos sociais participaram do 2º Seminário do Campesinato, nesta sexta-feira (14), em Brasília | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

O avanço do agronegócio, as mudanças tecnológicas, a disputa por território e a necessidade de ampliar a organização política dos trabalhadores do campo estiveram no centro do debate entre movimentos sociais nesta sexta-feira (14), em Brasília. A discussão ocorreu durante o “2º Seminário – Processos e Perspectivas do Campesinato no Brasil no Século 21″, organizado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

Com representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e do MPA, a mesa “Perspectivas para o campo brasileiro a partir das diferentes estratégias de organização e lutas sociais no campo” debateu os desafios e as formas de atuação dos movimentos. 

A atividade também buscou identificar convergências e possibilidades de articulação em torno da soberania alimentar, do acesso à terra, da agroecologia e da defesa dos territórios. Ao longo do debate, os participantes discutiram ainda as transformações nas disputas no campo, incluindo a concentração de terras, o avanço do agronegócio, a influência do capital financeiro, o impacto das redes sociais e da inteligência artificial, a permanência da juventude no campo, as políticas públicas e os efeitos das mudanças climáticas.

Soberania alimentar

Representante da direção nacional do MST, Ceres Hadich afirmou que as mudanças na dinâmica econômica do campo levaram o movimento a aumentar a compreensão sobre a reforma agrária. Segundo ela, a Reforma Agrária Popular passou a incorporar a produção de alimentos, a agroecologia, a cooperação e a participação da sociedade como elementos da estratégia do movimento.

Para ela, a soberania alimentar precisa ser tratada como uma questão política, e não apenas como uma discussão sobre produção agrícola. “Ressignificar a luta pela soberania alimentar como uma luta central e urgente é fundamental. O sistema do alimento é político, então precisamos politizar esse debate. Comer e se alimentar são atos políticos, porque a estrutura agrária do país produz desigualdades, pobreza, racismo e violência”, argumentou.

A dirigente do MST relacionou a discussão sobre alimentação à estrutura fundiária e à autonomia dos povos do campo. Para ela, o acesso à terra e aos bens da natureza está diretamente ligado à capacidade de produzir alimentos e construir soberania.

Ela também defendeu que essa disputa alcance setores da sociedade que não participam diretamente de movimentos populares. Para ela, a defesa da reforma agrária e da produção de alimentos precisa ser incorporada como uma questão de interesse coletivo.

“A gente precisa associar o nosso conceito prático e teórico-prático da Reforma Agrária Popular ao cuidado com as pessoas, com a natureza e com a produção de alimentos. E isso precisa ser assimilado pela sociedade, porque quem tem que nos ajudar a defender essa luta é o conjunto da classe e da sociedade”, defendeu.

Encontro reúne lideranças de diferentes organizações para discutir os desafios enfrentados pelas populações rurais no país
Encontro reúne lideranças de diferentes organizações para discutir os desafios enfrentados pelas populações rurais no país | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Informação e mudanças climáticas

A transformação tecnológica apareceu como uma das preocupações apresentadas por Marcos Vinícius Dias Nunes, vice-presidente e secretário de Relações Internacionais da Contag. Para ele, a expansão das redes sociais mudou a relação dos movimentos com suas bases, que passaram a receber informações em grande volume e nem sempre pelos canais das próprias organizações.

Nunes afirmou que, em algumas comunidades, os trabalhadores chegam a ter mais informações do que os próprios dirigentes. O desafio, segundo ele, é compreender quais conteúdos estão circulando e preparar os movimentos para disputar esse espaço. “As pessoas estão conectadas no WhatsApp, Facebook e Instagram. Essa informação está chegando. Como é que a gente se prepara para lidar com essa situação? Para dialogar com as pessoas, precisamos saber o que elas estão recebendo e o que estão conversando”, questionou.

Ele também relacionou o avanço da inteligência artificial à concentração de informação e poder. Segundo ele, organizações de direita já utilizam essas ferramentas para organizar ações, planejar estratégias e processar dados, enquanto os movimentos sociais ainda precisam aumentar sua capacidade de uso dessas tecnologias. “Quem tem mais informação, tem mais dinheiro e concentra o poder”, afirmou.

A crise climática também foi apontada como um desafio para a agricultura familiar. Nunes criticou a dificuldade de acesso dos agricultores aos recursos destinados ao enfrentamento dos impactos climáticos e defendeu que os movimentos acompanhem a execução dessas políticas.

“Existe muito dinheiro nesse negócio, mas esse dinheiro não chega para nós, não chega para os assentamentos, não chega para quem mais precisa. Quem é mais atingido são os nossos agricultores familiares. Então, para nós, essa também é uma pauta que precisamos nos debruçar”, criticou.

Espaço político e mineração

O coordenador executivo da Apib, Dinaman Tuxá, criticou a política de coalizão do governo federal e afirmou que, apesar da criação do Ministério dos Povos Indígenas e de avanços, os movimentos indígenas enfrentam dificuldades para avançar em pautas relacionadas aos territórios e aos direitos dos povos originários.

Tuxá defendeu que os povos indígenas ocupem espaços de decisão em diferentes áreas do Estado, e não apenas no Ministério dos Povos Indígenas. Para ele, as políticas relacionadas aos povos originários devem ser tratadas de forma transversal. “A agricultura familiar também discute educação, discute saúde, soberania, orçamento. Por que nós temos que estar dentro da caixinha? Nós queremos discutir a política de Estado de forma estruturada e ocupar todos os espaços de decisão”, defendeu.

Ele também criticou decisões relacionadas à mineração em terras indígenas e ao marco temporal e afirmou que o movimento indígena prepara novas mobilizações na capital para pressionar contra medidas que consideram ameaças aos territórios. 

“O negócio está acontecendo de forma muito rápida. Ontem, o Supremo Tribunal Federal sinalizou e decidiu que o Brasil está sendo aberto para a mineração. Então, nós estamos com uma semana de luta e vamos trazer mais indígenas nas próximas semanas”, afirmou Tuxá, em referência à decisão do STF que confirmou, nesta quinta-feira (13), o prazo de 24 meses para o Congresso regulamentar a participação dos povos indígenas nos resultados da exploração mineral em seus territórios.

Escala 6×1 e organização

Beto Palmeira, do MPA, durante debate sobre organização política e mobilização social
Beto Palmeira, do MPA, durante debate sobre organização política e mobilização social | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Na avaliação de Beto Palmeira, da direção do MPA, a mobilização em torno da escala 6×1 mostra que pautas podem avançar quando conseguem mobilizar setores para além das organizações tradicionais. Ele citou o episódio para defender maior autonomia política e capacidade de organização dos trabalhadores.

“O governo não queria. Não foi pelas organizações clássicas da classe operária que veio essa pauta. Foram organizações que não estão no padrão clássico e que conseguiram colocá-la. O governo teve que aceitar por uma questão que a sociedade pautou”, argumentou.

O dirigente também apontou uma disputa em torno da imagem do campo e criticou a apropriação do termo “agro” pelo agronegócio. Para ele, os movimentos precisam disputar não apenas o modelo de produção, mas também a forma como o campo é apresentado à sociedade.

“Não é apenas seguir produzindo de forma agroecológica. É como disputar o imaginário, como pensar o instrumento da cultura e da comunicação para disputar isso: o agro é negócio, o agro é veneno, o agro mata. Então, que agro nós queremos? Nós somos agroecologia, somos agrofloresta”, criticou.

Ao projetar os próximos passos, ele defendeu que a organização política dos movimentos precisa se traduzir em mobilização.

“A tarefa inacabada do campesinato brasileiro é nos constituirmos para além de uma categoria social explorada, resistente, uma força política organizada, consciente de seus interesses históricos e capaz de escutar a sociedade. É necessário ter Lula, é necessário ter um presidente do Senado, é necessário ter um Congresso nosso. Mas isso não é suficiente. A ideia é combinar a disputa institucional com a presença nas ruas e nos territórios”, defendeu.

Seminário

O Seminário “Processos e Perspectivas do Campesinato no Brasil no Século XXI” finaliza neste sábado (15) com debates sobre “Tendências do campesinato para o próximo período”. A atividade reúne representantes de 19 estados do país e tem como objetivo aprofundar a reflexão estratégica sobre a realidade do campo brasileiro, suas transformações recentes e os caminhos para a construção de um projeto popular.

“Nos últimos anos temos vivenciado mudanças profundas e estruturantes na construção da soberania alimentar e do abastecimento, não só no nosso país, mas também no mundo. A partir dessa compreensão, reunimos dirigentes de todos os estados onde o movimento está organizado para apontar os passos necessários e possíveis para o fortalecimento do campesinato, do ponto de vista da resistência e do enfrentamento ao agronegócio e ao modelo que temos no campo brasileiro hoje”, destaca Isabel Ramalho, da coordenação do MPA.


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Editado por: Flavia Quirino

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