ARTIGO

Todo mês de agosto, Montes Claros (MG) se torna o coração do mundo!

Uma homenagem aos 185 anos dos ternos dos Catopês, Marujos e Caboclinhos, o DNA das Festas de Agosto

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Há 185 anos, as Festas de Agosto de Montes Claros celebram a cultura popular, a tradição e a fé
Há 185 anos, as Festas de Agosto de Montes Claros celebram a cultura popular, a tradição e a fé | Crédito: Iuri Guilherme Santos Leite

Na música “Ponte Cigana”, composição de Gústia (Alexandre Toledo) e Ildeu Braúna (Ildeu de Jesus Lopes), tem um verso certeiro que diz: “Não chega ser um pontinho preto no mapa, mas quando a gente se afasta, o coração pede pra voltar.” Essa música representa o sentimento de todos os montes-clarenses que têm suas raízes fincadas no chão rachado do Norte de Minas Gerais, mas que não vivem mais por lá.

As poucas e distantes memórias de uma infância, que não são só minhas, são de uma geração inteira, em que as Festas de Agosto, respectivamente, os ternos de Catopês, Marujos e Caboclinhos, eram uma tradição popular no sentido mais literal da palavra. Quem tivesse a possibilidade assistia às festas ao vivo na região central da cidade. Porém, a tradição não se resumia aos cortejos de rua. Era de costume, nas escolas, no mês de agosto, os alunos criarem seus próprios acessórios referentes aos grupos, com tinta, recortes e as fitas coloridas. Não era apenas um passatempo, era educação e cultura como alternativa às mazelas sociais.

Há 185 anos, as Festas de Agosto de Montes Claros celebram a cultura popular, a tradição e a fé. Apesar de ainda não serem consideradas Patrimônio Imaterial da União, nem mesmo feriado municipal, nesse período a cidade se torna o centro de uma das maiores manifestações culturais do Norte de Minas Gerais.

Os ternos de Catopês, Marujos e Caboclinhos saem às ruas sob céu de fitas coloridas e o vibrado das caixas em couro que anunciam a passagem das guardas que atravessam a cidade em cortejos. Um espetáculo para quem acompanha de perto. Para quem desfila, no caso, congadeiros, é um momento de afirmação, um ato de resistência, memória e manutenção da ancestralidade que demarca a perseverança. Essa manifestação cultural é uma herança do povo negro, dos povos originários, imigrantes, que habitavam a região. Dos trabalhadores que colocaram cada tijolo na construção de Montes Claros. É um festejo que, na sua raiz, foi construído pelo povo trabalhador, hoje com outras faces, mas os mesmo recortes sociais. 

Ancestralidade, orgulho e pertencimento

Se fosse para definir as Festas de Agosto de Montes Claros, ousaria usar três palavras: ancestralidade, orgulho e pertencimento.

Se fosse para definir as Festas de Agosto de Montes Claros, ousaria usar três palavras: ancestralidade, orgulho e pertencimento. Proporcionalmente, em grande escala, em abundância, assim como são as comidas típicas regionais, o arroz com pequi, a carne de sol, o tropeiro, suco de coquinho, manga e mais.

Há poucos documentos que registram o surgimento das primeiras manifestações em Montes Claros. Entretanto, a oralidade e a sabedoria do povo catrumano são a fonte mais legítima que existe. Quem vive a história conta sobre ela.

Esse artigo tem como inspiração momentos de diálogo e escuta com o Mestre Zanza Júnior, Mestre do Primeiro Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário de Montes Claros. Em suas falas, ele sempre traz para a reflexão uma característica fundamental das Festas de agosto, que é a diversidade dos povos, seus saberes e sua identidade cultural. 

Mestre Zanza Júnior não nos deixa esquecer a memória e o legado de seu pai, o saudoso Mestre Zanza, fundador da Associação dos Grupos de Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros.

Tradição secular

Catopês, Marujos e Caboclinhos são, por si só, um acontecimento secular. Esses ternos, que, apesar de serem notados por muitos somente em agosto, os grupos, com uma sabedoria ancestral e coletiva, atuam o ano inteiro, por meio da Associação dos Grupos de Catopês, Marujos e Caboclinhos. Fundada em 1987 pelo Mestre Zanza, que nos deixou no ano de 2021. Atualmente, a associação é dirigida por Mestre Guga, do 1º Grupo de Marujada.

Mestre Zanza, nosso farol. Uma referência que deixou o legado irretocável, marcado pela autoridade dada pela história. A memória de Mestre Zanza é um norte, um lastro. É preciso outro texto só para falar sobre ele.

185 anos não é pouca coisa. No livro “Montes Claros: sua história, sua gente, seus costumes”, do médico, folclorista e historiador cultural montes-clarense Hermes de Paula, no capítulo “Festas de Agosto”, ele documenta: “A mais antiga notícia sobre o assunto é datada de 23 de maio de 1839, quando ‘Marcelino Alves pediu licença pra tirar esmolas para as festas de Nossa Senhora do Rosário e Divino Espírito Santo, que pretendia fazer nesta freguesia’. Nessa não se especificam as festas, mas, quando se comemorou a coroação de Dom Pedro II, em 8 de setembro de 1841, depois do cortejo ou passeata, com a efígie do imperador, foram permitidos vários divertimentos durante três dias: ‘Catopês, cavalhadas, volantis e quaisquer outros divertimentos que não ofendam a moral pública’.” Em termos de registros oficiais, esse é um dos principais dados que existem. A ausência de dados e informações nos ensina a importância de registrar para não deixar morrer. O apagamento fisico e simbolico do povo negro é uma artimanha cruel do racismo estrutural.  

Esse livro do Hermes de Paula é uma obra fiel sobre Montes Claros em toda sua conjuntura histórica. Em 2025, a Editora Unimontes publicou uma nova edição preservando a autoria do escritor. Está disponível para download gratuito no site da editora. Encerro esse parágrafo fazendo um convite para a leitura da obra. É uma aula de história em detalhes sobre a cidade.

Mudanças históricas

Um outro elemento curiosamente relevante é que, no surgimento dos grupos, apenas homens podiam integrar os ternos. Hoje, as mulheres são parte das guardas, inclusive em espaços de direção, como é o caso do Terno de Caboclinhos, liderado pela Cacicona Socorro. Bem como Janine Silva, mulher, catopezera, que é uma liderança reconhecida da Associação. Ela foi uma das responsáveis pelo roteiro e pesquisa do documentário oficial produzido pela Associação, “Festas de Agosto em Montes Claros – Ritos, Tradição, Religiosidade e Ancestralidade”, lançado em maio de 2026.

Esse compromisso social que a Associação e os ternos assumiram, abrindo espaços para as mulheres, reflete a consciência de quem acompanha o tempo, entendendo as mulheres como protagonistas. Antes da intelectualidade academicista e branca falar sobre feminismo, o povo de tradição já estava à frente.

 As cores, as penas, as fardas e estandartes, os capacetes de fitas, o canto e as danças são características originais de cada grupo

As cores, as penas, as fardas e estandartes, os capacetes de fitas, o canto e as danças são características originais de cada grupo, com aspectos que conectam a regionalidade e a fé. Da mesma forma, constituem-se como uma expressão singular do congado, dos reinados e irmandades, identidade cultural no Brasil.

Esses festejos homenageiam Nossa Senhora do Rosário, reconhecida como protetora de negros que foram escravizados e seus descendentes. São Benedito, um santo de pele negra, sendo também uma figura de devoção às irmandades negras e afro-brasileiras. O Divino Espírito Santo, representando o Espírito Santo.

A cultura de um povo é a maior riqueza que ele possui. Escolher invisibilizar e não investir é matar. Há quem tenha medo do povo empoderado de sua história, essa invisibilidade são feridas abertas dos 350 anos de escravidão contra povo negro.

As Festas de Agosto de Montes Claros são as veias desse território, abençoado pela Serra do Mel, que sofre não pelo sol que brilha mais forte, mas pelo isolamento social, econômico e, sobretudo, político e coronelista.

Não à toa, começo essa memória dizendo que, em agosto, Montes Claros se torna o coração do mundo, porque quem carrega a força do pequizeiro reconhece que é a cultura que nos mantém vivos. A energia que descrevo ao longo deste registro  não se encerra quando o último terno desfila, mas cria, naquele instante, a expectativa do próximo ano. 

Vida longa às Festas de Agosto de Montes Claros, à Associação dos Catopês, Marujos e Caboclinhos. Máximo respeito aos que se foram, saúde e sabedoria aos que seguem firmes levantando os mastros e trazendo brilho nos olhos dos norte-mineiros.

Iuri Guilherme Santos Leite é comunicador político e social, graduando em marketing. Nascido em Montes Claros, norte de Minas Gerais, atualmente reside em Belo Horizonte.

Editado por: Lucas Wilker

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