Neste domingo (16), 47 anos depois de subir em um palanque improvisado com uma mesa de bar, no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo (SP), para falar a milhões de trabalhadores em greve, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou para casa para lançar oficialmente sua candidatura, na disputa pelo seu quarto mandato presidencial.
Desde as primeiras horas do dia, o Estádio 1º de Maio, o Primeirão, como é carinhosamente conhecido, foi tomado por milhares de pessoas trajando as cores do PT. Muito antes do horário previsto para o início do ato, as arquibancadas já estavam tomadas com bandeiras do PT. Um bandeirão do Brasil tremulava, aguardando a presença do presidente da República.
Dos prédios ao redor do estádio, janelas exibiam bandeiras do Brasil e do Partido dos Trabalhadores. E as sacadas se tornaram camarotes privilegiados. Antes da chegada de Lula ao palco, no entanto, muitos se revezaram ao microfone, e as falas revelam o tom que a campanha do presidente Lula à reeleição deverá tomar.
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Candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet (PSB) afirmou que o evento de lançamento da campanha “é um ato de legítima defesa da democracia e da soberania”. “Agora não vamos deixar darem um passo atrás. É passo à frente. Declaramos estado permanente de campanha”, apontou a ex-ministra do Planejamento.
Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente e também candidata ao Senado, apontou o bolsonarismo como o principal adversário nessa campanha e disse que o período eleitoral será importante para “desmascarar as falsidades e as barbaridades que são ditas”. A ausência de um projeto claro da extrema direita também foi lembrada: “Nós temos muito pra mostrar para o povo, e eles não têm nada. É um projeto de morte”, disse.
Já o presidente estadual do PT, Kiko Seleghini, uma das poucas figuras que transitavam entre os militantes no gramado do Primeirão, coberto com placas plásticas para preservar sua estrutura, destacava que aquele local era “um recinto sagrado para os trabalhadores do Brasil. Foi aqui que os trabalhadores se mobilizaram contra a opressão da ditadura militar, contra a crise econômica que arrochava salários”.
Para Seleghini, a posição do PT durante a campanha eleitoral não tem a ver com radicalismo. “A gente defende a nossa agenda de governo. Quem está radicalizando é a candidatura da extrema-direita, que não tem agenda pro país, não tem proposta, e resume a campanha dele ao debate mentiroso, se escondendo o tempo inteiro, atacando e inventando teorias da conspiração contra o país”, considerou.
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A chegada de Lula
O presidente Lula subiu ao palco por volta das 11h da manhã, ao lado da primeira-dama, Janja da Silva, o vice, Geraldo Alckmin (PSB), acompanhado de Lu Alckmin e do candidato ao governo do Estado de São Paulo Fernando Haddad (PT).
Lula indicou que o plano de governo de sua campanha à reeleição será revelado em dez dias, mas adiantou alguns pontos que devem constar no documento, entre eles, educação, com o mote das escolas em tempo integral, a soberania na exploração dos minerais críticos e a defesa dos direitos das mulheres.
Para pedir respeito à vida das mulheres, o presidente citou algumas das mulheres que passaram por sua vida, com destaque para dona Lindu, sua mãe, segundo Lula, “responsável por tudo o que eu sou na vida”; e dona Marisa, ex-companheira do presidente, falecida em 2017. Ela também foi lembrada por Janja como figura central da trajetória de Lula e do Partido dos Trabalhadores.
Em tom nostálgico, Lula lembrou também de outras figuras que marcaram sua vida e a do Partido dos Trabalhadores, a exemplo de Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Hollanda, Antônio Cândido, Marco Aurélio Garcia, Chico Mendes, Margarida Alves, entre outros, ressaltando que “homens não são medidos por sua época, mas pelo seu caráter e dignidade”.
Já por volta do meio-dia, Lula disse que precisava almoçar e queria que ninguém no Primeirão ficasse com fome. Encerrou o ato prometendo lutar contra a extrema-direita e deixou um ar de esperança no estádio, que acompanhou o povo que tentava escapar do sol escaldante de São Bernardo do Campo.
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A batalha só está começando
O historiador Valério Arcary acompanhou do gramado do Primeirão o discurso de Lula. Para ele, “essa é uma longa marcha da esquerda brasileira, que começou aqui no ABC, mas agora estamos diante da batalha mais dramática em quase meio século. A extrema-direita já se impôs em quase toda a América do Sul”, disse.
“Na Casa Branca há uma liderança imperialista, impiedosa. O Brasil está cercado. E Lula é o instrumento de luta para defender a nação diante de um mundo capitalista cada vez mais cruel”, completou Arcary.
Adriana de Paula Almeida Rosa, 64 anos, se emocionou com o ato. “Houve vários momentos que foram realmente de uma emoção muito grande para mim, imagino pra ele”, contou. Sobre a campanha, disse que será uma batalha difícil, mas “ele tem como enfrentar”, apontou.
Mesmo tom adotado por Maradona, 50 anos, que é professor de escola pública na cidade de Extrema, em Minas Gerais. Bisneto de um metalúrgico, ele relata: “Me tocou de forma muito pessoal. A gente sabe que tá vivendo um episódio histórico do Brasil”.
Maradona também acredita que “a campanha não vai ser fácil”. “As pesquisas mostram que o presidente Lula está na frente. Acreditamos nas pesquisas, mas temos que trabalhar dia a dia, conversar com os amigos, as amigas de trabalho, orientarmos os nossos familiares, vencer no voto a voto”, conta.

Protagonismo da juventude
Um destaque da fala do presidente foi o protagonismo da juventude. E talvez uma das maiores representações desse foco de Lula é a candidata a deputada federal pelo PT Luna Zarattini. A ex-vereadora de São Paulo afirmou que “a história do Brasil, a história da democracia, se confundem com a história do presidente Lula”. “O presidente Lula tem 80 anos, mas esses 80 anos não são nunca um impeditivo para ele poder apontar para o futuro. Ele selou um pacto pela democracia, pela soberania, pelas mulheres e pela juventude”, completou.
Na saída do Primeirão, milhares de pessoas se espremiam para deixar o estádio, levando nos sorrisos a esperança de que Lula seja o responsável por barrar a interferência estrangeira na nossa soberania, pela defesa dos direitos das mulheres e dos trabalhadores brasileiros, embalados pelo Rap do Silva, novo jingle da campanha, que lembra das façanhas de mais um “Silva”, que falava à multidão, em um estádio em São Bernardo do Campo.
