POVO QUER RESPOSTAS

Moradores do Guarujá protestam contra ‘minidique gambiarra’ na zona sul de Porto Alegre

Comunidade cobra prefeitura por informações sobre intervenção provisória no bairro e cronograma da solução definitiva

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Com cartaz 'IPTU em dia, precisamos de respostas', moradores cobram proteção contra novas cheias no Guarujá
Com cartaz ‘IPTU em dia, precisamos de respostas’, moradores cobram proteção contra novas cheias no Guarujá | Crédito: Marcelo Ferreira

Com faixas dizendo “IPTU em dia”, “precisamos de respostas” e “minidique gambiarra”, dezenas de moradores se reuniram neste sábado (15) na praça Zeno Simon, no bairro Guarujá, zona sul de Porto Alegre. Dois anos depois da enchente de 2024, a comunidade voltou à orla do Guaíba, que novamente está em cota de atenção, para cobrar da prefeitura informações sobre as intervenções feitas no local e medidas capazes de proteger a região de uma nova inundação.

A reportagem do Brasil de Fato percorreu a orla e verificou que, no entorno da saída do arroio Guarujá e ao longo de parte da praça, foi construído um cordão de terra e pedras, com cerca de 30 cm e chegando a 50 cm de altura em alguns trechos. Ao lado dos montes de terra, estão bags de areia, e a praça, recém-reformada, ficou tomada por terra, pedras e marcas da movimentação de máquinas.

Em determinado ponto, o chamado minidique termina, enquanto a praça segue sem estrutura semelhante. Moradores questionam a capacidade de proteção da intervenção e temem que, em uma nova cheia, a água desfaça os montes de terra e espalhe barro pela praça, pelas ruas e pelas casas do bairro.

Uma parte da intervenção teve resultado no problema específico de drenagem das ruas Jacipuia e arredores, uma das áreas mais baixas do bairro. Quando o Guaíba subia, a água retornava pelos bueiros e provocava alagamentos antes mesmo de avançar sobre as ruas. Nesse ponto, o bloqueio da saída da drenagem evita o refluxo, enquanto uma bomba móvel devolve ao Guaíba a água acumulada nas ruas.

‘A gente não sabe o que foi feito aqui’

Morador do Guarujá e um dos organizadores da manifestação, Ricardo Santana Pereira explica que a mobilização surgiu a partir das intervenções realizadas na região. “Esse ato, ele se inicia na falta de comunicação da prefeitura, né? A gente não sabe o que foi feito aqui. Essa obra emergencial, a gente precisa ter dados, e a gente não tem esses dados, a gente não tem informação”, afirma Pereira.

A preocupação também alcança os planos de longo prazo para o bairro. “A população precisa saber do que está sendo feito aqui. A gente precisa de dados, de informação. A gente quer saber sobre o projeto final, o projeto definitivo”, reforça.

Estrutura instalada na praça Zeno Simon envolve o arroio Guarujá e é chamado de “minidique gambiarra” pelos manifestantes
Estrutura instalada na praça Zeno Simon envolve o arroio Guarujá e é chamado de “minidique gambiarra” pelos manifestantes | Crédito: Marcelo Ferreira

Durante o ato, moradores criticaram ainda o cancelamento de uma reunião extraordinária da Comissão de Urbanização, Transportes, Habitação e Regularização Fundiária (Cuthab), que seria realizada no CTG Roda de Chimarrão, no próprio Guarujá, no início de agosto, para tratar do plano de proteção contra inundações.

Enquanto aguardam respostas, a comunidade acompanha os níveis da água e as previsões meteorológicas em grupos de mensagens. “Isso é normal aqui dos moradores”, disse, apontando para o Guaíba em nível elevado. “Então eu tenho um grupo que vem aqui na hora, avisa: ‘Ó, o nível tá desse jeito’. É uma situação muito ruim, é muito difícil viver assim.”

‘Desde a enchente perdemos tudo’

Aos 88 anos, Vera Mari Pinto também foi à praça participar da mobilização. A casa da família foi atingida em 2024. “Desde a enchente perdemos tudo, não nos recuperamos ainda. Agora vem outra enchente e cadê o prefeito? Ele não aparece pra dizer, dar um alento pra gente”, afirma Pinto.

Ao observar a intervenção, a moradora demonstra preocupação com a terra colocada na praça. “Nós pagamos os impostos, então queríamos que o nosso prefeito apareça e converse e diga o que que tá acontecendo aqui. Porque tu olhando aqui, o que que é? Barro. Aqui a praça linda que tinha, cadê? Acabaram com a praça, passaram máquina, máquina e máquina”, critica.

O medo reaparece sempre que os rios sobem. “A gente passa dia e noite cuidando disso pelo medo”, conta.

Pinto afirma que votou no prefeito Sebastião Melo (MDB). “Eu gostava desse nosso prefeito, eu votei nele, mas depois da enchente ele nos abandonou, com certeza absoluta.”

Prefeitura pediu cancelamento de reunião

Presente no ato, o vice-presidente da Cuthab e proponente da reunião prevista para ocorrer no Guarujá, vereador Jonas Reis (PT), afirma que o encontro foi cancelado a pedido da prefeitura.

“Marcamos uma reunião aqui no CTG para a prefeitura vir prestar explicações e dizer se vai ter um projeto ou não específico de proteção contra as enchentes. E a prefeitura pediu para desmarcar porque tinha um outro compromisso e não poderia. A gente tentou remarcar, não quiseram. Parece que não querem vir aqui conversar”, afirma Reis.

O vereador também critica as estruturas instaladas no bairro. “Estão fazendo paliativos, colocar aqui, como o senhor observa, sacos de areia, uma espécie de saibro aqui, umas pedras, mas a população está com muito medo”, diz.

Reis atribui diretamente ao governo Melo a falta de uma estrutura permanente e estima em cerca de R$ 20 milhões o investimento necessário para uma casa de bombas e um dique na orla.

“Um desrespeito do prefeito, que foi bem votado no bairro, não mandou pra cá orçamento pra fazer uma casa de bombas e um dique na orla, que é fundamental. Isso já foi reivindicado há mais de seis anos”, critica. “Se precisa de R$ 20 milhões aqui, a prefeitura não pode dizer que não tem dinheiro.”

Cobrança por cronograma

A covereadora Tássia Amorim, do mandato Giovani Culau e Coletivo (PCdoB), também participou da manifestação. “Os reparos que a gente tem visto sendo feitos são, na nossa opinião, todos paliativos, nada estrutural, nada que de fato resolva o problema aqui do Guarujá e do restante da Zona Sul e do Extremo Sul da cidade”, afirma Amorim.

Ela cobra também a definição de prazos. “A gente precisa ter um cronograma também, não basta ficar apenas na promessa”, disse, manifestando apoio à mobilização. “É preciso denunciar o descaso, porque a falta de respostas também é um descaso para uma população que busca por elas”, acrescenta.

Comunidade relata medo de uma nova inundação e diz acompanhar diariamente o nível do Guaíba
Comunidade relata medo de uma nova inundação e diz acompanhar diariamente o nível do Guaíba | Crédito: Marcelo Ferreira

Dmae diz que barreiras chegam no fim de agosto

A manifestação ocorre dois meses depois de a prefeitura apresentar estudos para um sistema de proteção contra cheias no Guarujá e na Serraria. Na reunião de 16 de junho, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) apresentou três alternativas para uma obra definitiva: construção de um muro, elevação da avenida Guaíba ou elevação da praça Zeno Simon.

Para o período anterior à obra permanente, foi apresentado um plano emergencial com barreiras móveis, bloqueio de canais e bombeamento. O material exibido aos moradores mostrava o sistema Flexmac DT, da Macaferri, com imagens da tecnologia em uso no Canadá e na Indonésia. Na ocasião, o Dmae informou que seria possível montar cerca de 1,5 km de barreiras com 2 metros de altura em até 48 horas.

Sistema Flexmac DT apresentado pela prefeitura em junho como parte da solução emergencial para o Guarujá
Sistema Flexmac DT apresentado pela prefeitura em junho como parte da solução emergencial para o Guarujá | Crédito: Reprodução/Prefeitura de Porto Alegre

Questionado pelo Brasil de Fato, o Dmae informou que essas barreiras móveis estarão disponíveis para uso somente no final de agosto. Segundo o departamento, as técnicas utilizadas na estrutura provisória da praça Zeno Simon foram adotadas em julho, antes da chegada dos novos materiais.

Sobre uma chuva intensa em 27 de julho, moradores relatam que sacos usados no bloqueio do arroio Guarujá precisaram ser abertos por trabalhadores do Dmae para retomar o escoamento do curso d’água, depois que as bombas de drenagem não deram conta da vazão.

Questionado sobre o episódio, o órgão informou que Porto Alegre registrou naquele dia média de 18 mm de chuva a cada dez minutos, índice acima da projeção utilizada para implantação das redes. Segundo o departamento, “o sistema provisório não gerou nenhum impacto negativo na operação do sistema” e a solução adotada tem desempenho considerado “satisfatório até o momento”. O Dmae destacou ainda que a área mais baixa do Guarujá, no entorno das ruas Jacipuia e Oiampi, não sofreu alagamentos causados pela elevação do Guaíba. A resposta não confirmou diretamente se os sacos precisaram ser abertos.

Em resposta às reclamações sobre falta de informações, o Dmae afirma que mantém “diálogo permanente com a comunidade”. O departamento cita dois seminários sobre inundações, oito reuniões técnicas, um seminário de soluções e visitas à região. Segundo o órgão, a programação será mantida, com novos encontros “sempre que houver novidades relevantes a serem compartilhadas com a população”.

Obra definitiva segue sem prazo

A proteção permanente do Guarujá permanece em fase de estudos. Segundo o Dmae, o próximo passo é confirmar a viabilidade técnica das alternativas e elaborar os respectivos orçamentos. A estimativa preliminar, segundo a prefeitura, é de cerca de R$ 300 milhões. Atualmente, porém, a obra não possui fonte de recursos definida nem previsão para começar.

Sem uma nova reunião marcada, os moradores pretendem ampliar a mobilização. Pereira conta que o grupo seguirá fazendo pressão pelas redes sociais e organizando novos atos. Uma das iniciativas em discussão é levar a cobrança diretamente à frente da prefeitura para exigir uma data de reunião e explicações sobre o futuro da proteção contra cheias no Guarujá.

“O provisório, ele pode melhorar. E é isso que a gente vai atrás agora”, afirma Pereira. “A gente vai continuar na luta porque é um direito nosso.”

Editado por: Katia Marko

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