Começou oficialmente neste domingo a corrida para o Palácio do Planalto. Em São Bernardo do Campo (SP), berço de sua liderança política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reuniu uma multidão no Estádio 1º de Maio, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e do candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT).
Lula usava o chapéu de panamá que virou sua marca. O acessório é necessário por conta da radioterapia feita para tratar um câncer de pele.
“Sou muito agradecido porque Deus sempre foi muito generoso comigo. Deus fez vocês e vocês fizeram o Lula ser o que ele é. Portanto, obrigado a vocês, trabalhadores e trabalhadoras desse país, que um dia tiveram consciência de apostar em um igual. A quantidade de diploma mostra o conhecimento, mas a inteligência é saber utilizar esse conhecimento em benefício de quem e para quem”, disse o presidente.
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político Adriano Oliveira avalia que as escolhas dos locais para o lançamento oficial das candidaturas são um ato simbólico, de pouca influência sobre o desdobramento das campanhas. Ainda assim, ele elogia Lula por retornar à sua história e pelos temas sobre os quais escolheu discursar.
“Falou de segurança pública e fez um aceno, através da mulher Janja, aos evangélicos. Além disso, frisou a questão da soberania. É importante destacar que eu não conheço nenhuma eleição presidencial brasileira em que as relações internacionais foram temas de campanha”, afirma.
Apesar da multidão reunida, a cientista política Luciana Santana pondera que a ameaça de uma volta do bolsonarismo não está enterrada. “A eleição será competitiva, é uma eleição que é desafiadora para Lula”, diz. “A gente sabe que existe uma calcificação do eleitorado, e isso é algo ainda a ser desvencilhado pelas candidaturas, principalmente a de Lula, que é a candidatura de esquerda mais representativa.”
As convenções da direita
No Rio de Janeiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reuniu apoiadores em comício em Copacabana, na zona sul da capital fluminense. Em seu discurso, lamentou a ausência do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que segue preso em regime domiciliar. “Homem honesto, incorruptível”, disse o candidato, vestindo a clássica camiseta “Meu partido é o Brasil”.
Ronaldo Caiado (PSD) foi para o centro-oeste, Romeu Zema (Novo) ficou com sua base em Minas Gerais, e Renan Santos (Missão) escolheu o Largo do São Francisco, no centro de São Paulo, onde o MBL tem certa inserção.
Neste ano, Adriano Oliveira avalia que o tema das relações internacionais será um ponto de dificuldade para Flávio Bolsonaro, que tentou mostrar uma suposta abertura para dialogar com os Estados Unidos. “Nesse âmbito, o Lula leva vantagem, porque vai mostrar toda a discussão, todo o conflito com Donald Trump, em especial por causa do tarifaço.”
Santana considera que o ato de Flávio ficou aquém das expectativas dele e explicitou os pontos sensíveis da candidatura. “O pai está preso em prisão domiciliar. Existe uma campanha muito negativa, muito mais de ataques do que uma campanha propositiva. E talvez isso traga menos incentivo para as pessoas estarem na rua nesse momento”, afirma.
Caiado aproveitou para reforçar sua vinculação com a segurança pública, uma das maiores preocupações do eleitorado brasileiro, e Renan Santos se apresenta como antissistema. Ambos discursos, segundo Oliveira, sem grandes surpresas.
O especialista alerta que o desempenho de Renan Santos pode surpreender, mesmo sem tempo de horário eleitoral gratuito. O motivo seria a repercussão nas redes sociais. “O discurso antissistema encontra reverberação no eleitorado. A questão é se ele vai conseguir chegar a 10% do eleitorado. E eu não duvidaria. Esse discurso encontra aderência nos eleitores brasileiros”, alerta.
Ao mesmo tempo, o desempenho de Renan Santos pode dividir votos de Flávio e ampliar as chances de Lula vencer no primeiro turno, segue Oliveira.
Já sobre Caiado e Zema, o especialista considera que erraram pela demora em se afastarem do bolsonarismo. “Talvez eles pudessem ter se tornado competitivos. Repito, talvez, porque o bolsonarismo é muito consolidado no eleitorado brasileiro, e uma parcela do eleitorado que não gosta do Lula acredita que só um Bolsonaro pode derrotar o presidente Lula. Então, ele cria um mecanismo e esse mecanismo fortalece a polarização”, explica.
O futuro do progressismo
Embora os elogios ao discurso contundente de Lula, que acerta ao comparar seu governo com o de Bolsonaro, Oliveira avalia que “falta futuro ao PT”. “Não pode abrir mão de modo algum de falar sobre o seu passado, mostrando que está ao lado dos trabalhadores brasileiros, dos empreendedores brasileiros, ao lado dos pobres. Todavia, não pode abrir mão de falar do futuro, e ele vai falar de futuro, por exemplo, com a questão do fim da escala 6×1. Essa é uma agenda de futuro”, pontua.
A cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), concorda e pontua que hoje existe uma nova reconfiguração do mundo do trabalho. “A gente fala do fim da escala 6×1, mas a gente também fala desse processo que ficou intitulado na academia como uberização, porque não é só sobre aplicativo de Uber, mas sobre essa nova configuração que a gente tem de vários serviços, como também falar sobre a questão do empreendedorismo”, avalia.
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