“Eu não sei como é que é viver sem ter coração de estudante.” Foi com essas palavras que a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia Antunes Rocha iniciou a fala diante de cerca de mil pessoas que lotaram o auditório do Centro de Convenções da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Mineira de Montes Claros, Cármen Lúcia recorreu à música “Coração de Estudante”, de Milton Nascimento, carioca de nascimento e mineiro de coração, ao iniciar, na manhã de sexta-feira (14), a palestra “Democracia, Autonomia e Participação: o Futuro da Universidade Pública”. A atividade integrou o lançamento do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2028-2035 da UFSM. Na ocasião, a ministra também recebeu o título de Doutora Honoris Causa da universidade.
Após falar sobre a relação com a educação ao longo da trajetória, Cármen Lúcia defendeu a importância de fortalecer a democracia a partir dos laços sociais, da convivência e do diálogo. Ao citar uma pesquisa realizada em 2025, a ministra observou que as principais preocupações apontadas pela população brasileira foram, nesta ordem, segurança pública, trabalho, saúde e educação. A democracia, destacou, sequer apareceu entre as prioridades mencionadas.
Para a ministra, no entanto, essas preocupações estão diretamente relacionadas à questão democrática. “Se a gente pensasse, primeiro, em educação para a democracia, talvez a gente não tivesse tantas preocupações com, por exemplo, o que foi colocado em primeiro lugar, que era exatamente a segurança pública”, avaliou.
Aos 72 anos, Cármen Lúcia relembrou a experiência da geração que viveu a ditadura militar e afirmou saber o que significa estar em um país sem democracia. Recordou ter realizado uma prova de Direito Constitucional em um período em que o Congresso Nacional estava fechado por determinação do então presidente da República.
“O que a gente quer é que as novas gerações não precisem viver preocupadas com isso, mas ocupadas apenas em cada vez mais fortalecer a semente democrática que foi plantada na década de 80”, afirmou.
A ministra também recorreu a um dos quatro pilares da educação propostos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco): “aprender a conhecer”. O conceito integra o relatório “Educação: um tesouro a descobrir”, apresentado em 1996 pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, presidida por Jacques Delors.
Ao abordar o princípio, Cármen Lúcia destacou que o aprendizado precisa acompanhar as transformações da sociedade e ocorrer ao longo de toda a vida. “Nós temos que aprender todos os dias. Nós não somos donos de verdades. A vida muda, o povo muda, os conceitos mudam, as experiências mudam”, destacou.
A troca entre gerações e a disposição para compreender as mudanças do próprio tempo também fazem parte desse processo. Nessa perspectiva, a ministra defendeu a universidade como espaço de pluralidade, diálogo e construção coletiva do conhecimento, no qual professores e estudantes aprendem uns com os outros.
“A universidade vem como um espaço de universos, não de um universo. Não é espaço de dogmas, não é espaço apenas para ministrar aulas como se alguém fosse o dono da verdade, que ninguém é. Professor aprende com o estudante e o estudante aprende o que a gente sabe”, ressaltou.
A garantia da dignidade humana também apareceu na fala sobre educação. Cármen Lúcia lembrou que a Constituição Federal de 1988 consolidou a educação como um direito fundamental. Para ela, o ambiente educacional deve assegurar tanto a igualdade em dignidade quanto o direito às diferenças e às identidades individuais.
Esse caráter libertador da educação, segundo a ministra, ajuda a explicar por que a vida universitária é, muitas vezes, alvo de cerceamentos. Para Cármen Lúcia, o conhecimento produzido nesses espaços ultrapassa os limites da própria universidade e impulsiona transformações na sociedade.
“A universidade é inquieta, a universidade é transgressora dentro do direito, porque ela propicia a criação de culturas, o refazimento das culturas”, declarou.
Ao destacar a relação entre universidade e cultura, Cármen Lúcia definiu esta última como “a alma de um povo exposta na forma de conhecimento, criação, descoberta e arte” e defendeu uma presença cada vez maior da sociedade na vida universitária.
Entre máquinas e relações humanas
Com um jeito descontraído de contar causos e recorrer a situações do cotidiano, Cármen Lúcia arrancou risadas da plateia em diferentes momentos da palestra. O tom bem-humorado, no entanto, serviu para abordar uma preocupação que atravessou a fala: a presença cada vez maior da tecnologia no cotidiano e os impactos sobre a liberdade, a convivência e a capacidade de fazer escolhas.
Ao falar sobre relações mediadas pelas telas, a ministra contrapôs a ampliação das possibilidades de comunicação ao enfraquecimento dos vínculos mais próximos. Para ela, estar conectado não significa necessariamente estar acompanhado. “Isto não é ser solidário, é ser solitário”, resumiu.

Cármen Lúcia também chamou atenção para a influência dos algoritmos sobre decisões cotidianas, desde o que assistir e ler até padrões de consumo e aparência. De forma descontraída, contou que se incomoda quando plataformas oferecem conteúdos apresentados como sugestões feitas especialmente para ela. O problema, ponderou, está no risco de que a facilidade das recomendações reduza gradualmente o exercício da escolha e do pensamento crítico.
“Esse é um desafio nosso: saber que a máquina está a nosso serviço e não nós a serviço da máquina”, alertou.
A preocupação, segundo a ministra, ganha ainda mais relevância diante do volume de informações recebido diariamente e da dificuldade de avaliar criticamente tudo o que circula pelas telas. Nesse cenário, defendeu uma educação baseada no diálogo, na palavra e na convivência como caminho para preservar a autonomia humana.
“Eu acho que esse é um desafio nosso hoje: educar pelo diálogo, educar pela palavra, pela prosa e retomar o gosto de prosear, o gosto de estar com a outra pessoa”, defendeu.
Ao encaminhar o fim da palestra, Cármen Lúcia retomou a defesa dos vínculos humanos e relacionou essa dimensão à própria construção democrática. “Não há máquina […] que substitua o dia que você, ao invés de receber um presente, recebe a presença do ser amado na sua vida”, disse.
A ministra encerrou recuperando uma referência dos anos de luta pela redemocratização do país.
“Eu continuo acreditando que, se nós todos abrirmos os nossos braços com os abraços, nós construímos um país muito melhor, livre, justo e solidário para todas as pessoas, nós e os que vierem depois de nós. Eu continuo acreditando no ser humano e é por isso que nós continuamos brigando pela democracia brasileira”, afirmou.
Doutora Honoris Causa
Após a palestra, Cármen Lúcia recebeu o título de Doutora Honoris Causa da UFSM. A distinção é concedida a pessoas que tenham se destacado por contribuições relevantes às ciências, às artes ou à cultura. No caso da ministra, a universidade reconheceu a trajetória e atuação no direito constitucional, na educação e na defesa das instituições democráticas do país.
Ao apresentar o currículo da agraciada, o pró-reitor de Planejamento da UFSM, Vinicius Garcia, destacou o significado da homenagem também a partir da presença das mulheres nos espaços de decisão. Cármen Lúcia recebeu o título durante a gestão de Martha Adaime, primeira mulher a ocupar o cargo de reitora na história da UFSM.
A partir do encontro simbólico entre as duas trajetórias, Garcia ressaltou como a presença feminina em espaços historicamente ocupados por homens amplia as possibilidades para outras gerações.
“Uma menina que vê uma mulher no Supremo Tribunal Federal passa a habitar simbolicamente um país um pouco diferente daquele em que esse lugar lhe parecia impossível. Uma estudante que encontra uma mulher na ciência, na magistratura, na gestão pública ou na universidade recebe uma mensagem silenciosa, mas poderosa: esses lugares também lhe pertencem”, destacou Garcia.
Para o pró-reitor, uma das funções da universidade é justamente ampliar esses horizontes e contribuir para que diferenças de origem, gênero, condição econômica, raça ou território não determinem até onde uma pessoa pode chegar.
“Não se trata de tornar todos iguais. Trata-se de garantir que nossas diferenças não sejam convertidas em desigualdades de dignidade, de voz ou de oportunidade”, acrescentou.
O título foi entregue pela reitora Martha Adaime. Após receber a honraria, Cármen Lúcia agradeceu à comunidade universitária e à sociedade de Santa Maria e afirmou receber o reconhecimento como um compromisso de continuidade na defesa dos direitos humanos e da democratização do acesso à educação.
“Preciso que todas as brasileiras e brasileiros tenham igual possibilidade de ingressar nas universidades, permanecer nas universidades e seguir adiante. A universidade não é apenas uma porta de entrada para o presente. É uma porta de entrada para caminhadas para o futuro”, declarou.
Ao encerrar a cerimônia, Martha ressaltou a trajetória da ministra e a atuação em defesa das instituições democráticas. Para a reitora, a presença de Cármen Lúcia na UFSM representava mais do que uma homenagem institucional, ao aproximar valores que também orientam a universidade pública, como liberdade, pensamento crítico, produção de conhecimento e construção da cidadania.
“Firmeza pode caminhar ao lado da sensibilidade. Ocupar um espaço de poder pode ser, antes de tudo, uma oportunidade de servir. Recebê-la é, portanto, mais do que uma honra institucional. É uma oportunidade de celebrar uma trajetória que inspira, uma mulher que abriu caminho, uma brasileira que dedicou sua vida ao fortalecimento das instituições no nosso país”, concluiu a reitora.
