No limite

Expansão do Aterro Sanitário de Brasília deve observar tratamento de chorume e impactos no Rio Melchior, alerta especialista

Projeto deve prolongar vida útil do empreendimento por mais 18 anos; área atual se esgota em menos de um ano

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Aterro Sanitário recebe os rejeitos produzidos no DF e se aproxima do limite da área atualmente em operação
Aterro Sanitário recebe os rejeitos produzidos no DF e se aproxima do limite da área atualmente em operação | Crédito: Divulgação SLU

Com vida útil estimada até junho de 2027, o Aterro Sanitário de Brasília (ASB), em Samambaia, região administrativa do Distrito Federal, caminha para uma expansão que pode garantir mais 18 anos de operação. O projeto prevê uma nova área de aproximadamente 60 hectares, mas ainda terá o Relatório de Impacto Ambiental Complementar (RIAC) analisado por uma comissão recém-criada pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram).

O Ibram informou ao Brasil de Fato DF que a comissão não iniciou os trabalhos e, por isso, ainda não definiu metodologia, cronograma ou quais aspectos técnicos e ambientais serão avaliados. Também não há informações sobre eventuais exigências que poderão resultar da análise.

O Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU), responsável pelo aterro, afirma que a nova área já possui Licença de Instalação (LI) e que o planejamento prevê sua disponibilização em compatibilidade com o esgotamento da área atualmente utilizada.

A expansão ocorre em meio a questionamentos sobre a capacidade da infraestrutura ambiental existente para suportar o aumento da operação, especialmente em relação à geração e ao tratamento de lixiviado, conhecido como chorume, e aos impactos sobre o Rio Melchior.

Para o professor da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Celso dos Reis Gomes, doutor em desenvolvimento sustentável, a análise precisa ir além da necessidade de aumentar a vida útil do aterro.

“Uma ampliação dessa dimensão não pode ser analisada apenas sob o ponto de vista da disponibilidade física de área ou da necessidade imediata de prolongar a vida útil do aterro”, afirmou o especialista em tecnologia ambiental e recursos hídricos.

Segundo Gomes, devem ser considerados fatores como segurança geotécnica e hidrogeológica, capacidade dos sistemas de impermeabilização, drenagem e tratamento de chorume, manejo das águas pluviais, estabilidade dos maciços e monitoramento ambiental.

Estudo ambiental original tem 20 anos

O processo de expansão é anterior à criação da atual comissão. Segundo o SLU, o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) original foram elaborados em 2006.

Questionada sobre a necessidade do relatório complementar, a autarquia afirmou que “a documentação foi atualizada para contemplar as informações necessárias à continuidade do processo de licenciamento ambiental”.

O projeto executivo da ampliação foi apresentado ao SLU em novembro de 2021 e contempla as Etapas 3 e 4. A última corresponde ao coroamento do aterro sobre as células anteriores. O documento também prevê a interligação dos sistemas de drenagem de gases e lixiviados. O SLU informou que essa concepção não foi alterada.

O projeto prevê ainda impermeabilização, drenagem e monitoramento geotécnico e ambiental. O documento afirma que a alternativa construtiva escolhida foi considerada “mais conservadora” diante de “problemas pretéritos” registrados durante a implantação e operação da Etapa 1.

Tratamento de lixiviado está entre os pontos que exigem atenção na expansão, segundo especialista ouvido pelo Brasil de Fato DF
Tratamento de lixiviado está entre os pontos que exigem atenção na expansão, segundo especialista | Crédito: Adobe Stock

Chorume

Um dos principais pontos de atenção levantados por Paulo Celso é a capacidade da estrutura existente de lidar com a geração de chorume após a expansão.

“Quanto maior a massa de resíduos aterrados e a área operacional, maior tende a ser a geração de gases e de chorume, especialmente durante os períodos chuvosos”, explicou.

Segundo o pesquisador, eventuais deficiências na impermeabilização, drenagem, armazenamento ou tratamento podem representar risco de contaminação do solo, das águas subterrâneas e do Rio Melchior.

“Em síntese, a questão central não é saber se existe espaço físico para ampliar o aterro, mas se o Distrito Federal dispõe, hoje, de um sistema de tratamento de lixiviados plenamente licenciado, cientificamente validado, permanentemente auditado e rigorosamente fiscalizado para suportar o aumento expressivo da carga poluidora que inevitavelmente decorrerá dessa expansão”, afirmou.

O SLU afirma que o manejo e o tratamento do lixiviado já fazem parte da operação regular do aterro e que existe contrato vigente para o serviço. Segundo a autarquia, com o encerramento progressivo da área atual, a geração de chorume nesse espaço tende a diminuir, enquanto a futura contratação contemplará tanto a área existente quanto a nova.

Para Gomes, a integração das estruturas exige comprovação de que redes de drenagem, reservatórios, lagoas de acumulação e a unidade de tratamento conseguem suportar o aumento da carga, inclusive em períodos de chuvas intensas ou diante de falhas operacionais.

Rio Melchior

Para Paulo Celso, a situação do Rio Melchior é “o ponto mais sensível de todo o processo de licenciamento ambiental”.

O pesquisador afirma que a bacia já está submetida a elevada pressão e defende que a expansão seja avaliada considerando os impactos cumulativos sobre o rio, as águas subterrâneas, a geração futura de lixiviados e os riscos relacionados ao tratamento e lançamento dos efluentes.

“Não basta verificar se determinados parâmetros atendem aos limites de lançamento estabelecidos na licença ambiental. É necessário avaliar o efeito acumulado de todas as cargas lançadas na bacia”, afirmou.

Segundo Gomes, além do efluente proveniente do aterro, o Melchior recebe efluentes tratados das estações de tratamento de esgoto de Samambaia e Melchior e de instalações industriais. Para ele, é necessário avaliar se o rio possui capacidade para receber novos aportes sem comprometer sua qualidade ambiental.

Especialista alerta que a análise da expansão deve considerar os impactos cumulativos sobre o Rio Melchior, que já recebe diferentes cargas de efluentes
Especialista alerta que a análise da expansão deve considerar os impactos cumulativos sobre o Rio Melchior, que já recebe diferentes cargas de efluentes | Crédito: Angelo Pignaton/Agência CLDF

Mais 18 anos

Apesar dos alertas, Paulo Celso avalia que a expansão pode ser necessária no curto prazo para garantir a continuidade da destinação adequada dos rejeitos. Porém, a medida não resolve o problema estrutural da gestão de resíduos. “Na prática, apenas prolonga a vida útil do empreendimento”, resume.

O pesquisador defende que a ampliação seja acompanhada de medidas para reduzir o volume destinado ao aterro, como coleta seletiva, fortalecimento das cooperativas de catadores, reciclagem, logística reversa e aproveitamento dos resíduos orgânicos. O SLU afirma que também desenvolve ações e avalia alternativas e tecnologias para reduzir a quantidade de rejeitos encaminhados à disposição final.

“A questão estratégica é outra: qual modelo de gestão de resíduos o Distrito Federal pretende construir para que, dentro de poucos anos, a sociedade não esteja novamente debatendo a necessidade de uma nova expansão do aterro?”, questionou Gomes.

Enquanto a área atual se aproxima do limite previsto para junho de 2027, ainda não há data divulgada para o início das obras da expansão. O SLU informou que o processo está em fase interna e, por isso, não divulgou custo nem cronograma. Já a comissão do Ibram ainda realizará sua primeira reunião antes de definir como e em quanto tempo será feita a análise do relatório complementar.


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Editado por: Clivia Mesquita

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