ARTIGO

O ocaso do capitalismo tal como o conhecemos

O modo de produção vive uma crise prolongada, marcada por estagnação, precarização, autoritarismo e desagregação social

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Formação de um sistema monetário diversificado é uma tendência histórica inevitável
É possível e desejável criar uma nova moeda internacional como alternativa ao dólar dos Estados Unidos? | Crédito: jcomp/Freepik

Quero comentar muito brevemente a obra do grande sociólogo alemão Robert Kurz, Dinheiro sem Valor: linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política, de 2012, publicado pela Antígona Editores Refractários, de Portugal.  

O núcleo da verdadeira profecia de Kurz é o seguinte: o capitalismo, em sua busca por eficiência, está destruindo a própria base que o sustenta – o trabalho que gera valor. 

Como ele mesmo demonstra com base nos Grundrisse de Marx, este processo é irreversível e leva à “autodissolução lógica” do sistema capitalista.

Kurz parte da crítica da economia política de Marx, mas radicaliza sua leitura. Para ele, o capitalismo se baseia na produção de valor, e o valor é constituído por trabalho abstrato, trabalho humano indiferenciado, medido em tempo. 

O dinheiro, em sua forma clássica, funcionava como equivalente geral dessa substância. Representava, de modo fetichista, o valor produzido pelo trabalho. 

Devemos lembrar sempre que o dinheiro, nos seus primórdios, igualmente não representava “valor”, mas apenas “laço simbólico”, como nos ensinou Karl Polanyi.  

Já no capitalismo, o dinheiro deixa de ser apenas um meio de troca ou um símbolo de status. Ele passa a ser a forma visível do valor abstrato. Uma nota de dinheiro ou um saldo bancário representam, no fundo, uma quantidade de tempo de trabalho humano generalizado que pode ser reivindicada no mercado.

A tese central do livro é que, com a terceira revolução industrial, baseada na microeletrônica, na automação e na digitalização, a produção capitalista passa a eliminar cada vez mais o trabalho vivo do processo produtivo. 

Ora, se o valor depende do trabalho abstrato, a automação corrói a própria substância do valor. O resultado é uma situação inédita: o capital continua a existir como relação social, mas o dinheiro deixa de ter lastro em valor real.

Daí o título do livro. Vivemos sob um regime de “dinheiro sem valor”, uma vez que o dinheiro já não representa quantidades crescentes de trabalho abstrato, mas que continua a circular como se representasse.

Financeirização como sintoma, não como causa

Um dos pontos mais importantes do livro é a recusa em tratar a financeirização como mera especulação ou desvio do capitalismo produtivo. Para Kurz, o crescimento descomunal do capital fictício (ações, títulos, derivativos, dívida pública e privada, bitcoin) é a resposta estrutural à estagnação da acumulação real.

Como o investimento produtivo já não consegue valorizar o capital na mesma escala, o capital migra para a esfera financeira, onde tenta simular valorização sem produção de valor (sem trabalho humano).  

Os mercados financeiros passam a operar como uma gigantesca máquina de criação de “capital fictício”, na expressão sugerida por Marx, mas agora em escala historicamente inédita.

A crise de 2008, nessa leitura, não foi uma crise bancária comum. Ela revelou que o sistema financeiro havia se desconectado de sua base real de valor. As injeções de liquidez promovidas pelos Estados (sobretudo por Obama) e bancos centrais – o chamado “quantitative easing” – não resolveram o problema. 

Apenas criaram mais dinheiro sem valor, papel pintado, adiando o colapso e aprofundando a contradição.

Automação e o colapso da modernização

Kurz retoma aqui a tese que desenvolvera em O Colapso da Modernização (1991). A automação, vista pelo marxismo tradicional como promessa de libertação do trabalho, aparece no capitalismo como força destrutiva. 

Repito: força destrutiva.  

Ao reduzir a necessidade de trabalho vivo, aparecem diversas dificuldades estruturais: diminui a massa global de valor produzida, reduz a base de extração de mais-valia, gera desemprego estrutural crescente, enfraquece o poder de compra das massas, torna impossível sustentar os sistemas de seguridade social e o próprio Estado.

O capitalismo, portanto, não morre por falta de produtividade, mas por excesso de produtividade, diz Kurz. 

As forças produtivas ultrapassam as relações sociais capitalistas, mas estas continuam a impor a forma valor, o trabalho abstrato e o dinheiro. 

O resultado não é a transição automática para uma sociedade emancipada, e sim uma crise prolongada, marcada por estagnação, precarização, autoritarismo (neofascismo) e desagregação social.

Todos nós, hoje, somos testemunhas destes fenômenos negativos e trágicos no âmbito do capitalismo mundial. 

O ocaso do capitalismo 

Kurz não anuncia uma derrocada imediata, mas descreve o que chama de ocaso da modernização. O capitalismo não consegue mais cumprir sua promessa histórica de integrar as populações ao trabalho assalariado, ao consumo e à cidadania moderna. 

O que se observa é uma espécie de capitalismo zumbi, que sobrevive artificialmente por meio de crédito, bolhas financeiras, guerra (muita guerra) e gestão da crise.

Nesse cenário, as categorias clássicas da esquerda (pleno emprego, redistribuição, desenvolvimento) perdem sentido. Eis aí, um dos pontos sensíveis da esquerda do Brasil e mundial. 

Para Kurz, qualquer tentativa de retornar a um “capitalismo produtivo” ou a um “socialismo do trabalho” está condenada, porque o trabalho abstrato como base da riqueza social está historicamente superado. 

A saída não pode ser a defesa do trabalho, mas a abolição da forma valor, do dinheiro e do trabalho como mediação social. Estes são, pois, os novos desafios para a esquerda – nos quatro cantos do mundo conhecido. 

A noção de “crise prolongada” em Robert Kurz não designa uma recessão passageira nem uma fase difícil do ciclo econômico. Trata-se de uma condição estrutural duradoura, decorrente da corrosão da base de valor do capitalismo. 

Quando o trabalho abstrato – substância essencial do valor – é progressivamente eliminado pela automação e pela digitalização, o capital perde sua capacidade de se expandir de forma dinâmica e de integrar as populações ao circuito do trabalho e do consumo. 

O resultado não é um colapso súbito, mas uma estagnação crônica, pontuada por crises financeiras, políticas e sociais que se sucedem sem resolução. 

Modernização zero, agora é só gestão de crise 

Kurz descreve essa situação como um processo de decadência prolongada, no qual o capitalismo deixa de funcionar como máquina de modernização e passa a operar como sistema de gestão da crise. 

Ele identifica quatro sintomas centrais:

1. Estagnação

A estagnação a que Kurz se refere não é apenas baixo crescimento, mas a incapacidade estrutural de retomar a acumulação real baseada em trabalho produtivo. 

Desde os anos 1970, as taxas de crescimento das economias centrais declinam. A financeirização – com bolhas, dívida pública e privada e capital fictício – funciona como substituto artificial da valorização real. 

O crescimento obtido é cada vez mais frágil, dependente de estímulos monetários e endividamento, sem gerar prosperidade de base ampla. 

Hoje, esse diagnóstico aparece sob os termos de estagnação secular ou crise de produtividade. Mesmo com a revolução digital, diz Kurz, os ganhos de produtividade não se traduzem em expansão do valor, porque eliminam trabalho vivo.

2. Precarização

Sem a capacidade de integrar as massas ao emprego estável, o capitalismo contemporâneo generaliza formas precárias, informais e intermitentes de trabalho. 

A “uberização”, os contratos de zero hora (o trabalhador é chamado eventualmente, por demanda), o trabalho por plataforma, a perda de direitos trabalhistas, o desemprego estrutural juvenil e o crescimento do precariado são expressões concretas daquilo que Kurz chamou de colapso da sociedade do trabalho. 

O trabalho assalariado, que já foi o principal mecanismo de integração social, deixa de cumprir essa função. Em seu lugar, surgem formas de subsistência instáveis, sem proteção social e sem horizonte de melhoria. 

Quem entre nós, hoje, desconhece ou ignora essa dura realidade social? 

3. Autoritarismo

Kurz compreendeu que, quando o capitalismo não consegue mais integrar pela via do trabalho e do consumo, o Estado tende a substituir o consenso pela coerção (o outro nome da violência e do autoritarismo). 

O desmonte do Estado de bem-estar social caminha lado a lado com o fortalecimento de um Estado penal, securitário e autoritário.

A ascensão da extrema direita, o endurecimento das políticas migratórias, a militarização da segurança pública, a vigilância digital e o retorno de discursos nacionalistas e racistas não são aberrações. São respostas políticas à desintegração social. 

O autoritarismo neoliberal contemporâneo – que combina ortodoxia econômica com repressão política – confirma a intuição de Kurz de que a crise do valor produz uma crise da democracia e da legitimidade.

4. Desagregação social

O quarto sintoma é a fragmentação dos laços sociais. Sem perspectiva de futuro, sem estabilidade no trabalho e sem confiança nas instituições, as sociedades se digladiam, perdem coesão e mergulham em formas destrutivas de subjetividade. 

Kurz vê nisso o esgotamento da subjetividade moderna, forjada pelo trabalho assalariado. 

Hoje, observamos o aumento da solidão, dos transtornos mentais, das “mortes por desespero” (suicídio, overdose, alcoolismo), da desconfiança nas instituições, da disseminação de teorias conspiratórias e da fragmentação política em bolhas identitárias e culturais. 

A guerra cultural permanente é também sintoma de uma sociedade que não consegue mais se reproduzir simbolicamente.

A atualidade da análise de Kurz

Olhando para o presente, é difícil não reconhecer que Kurz acertou em cheio na descrição dos sintomas. 

A crise financeira de 2008 não foi superada, foi administrada por meio de injeções massivas de liquidez, que geraram novas bolhas e acentuaram a desigualdade. 

A pandemia de Covid-19 revelou a fragilidade das cadeias globais, a precariedade do trabalho essencial e o autoritarismo latente dos Estados. 

A inflação pós-pandemia, as guerras, a crise climática e a instabilidade geopolítica compõem um cenário de policrise – exatamente a “crise prolongada” que Kurz anteviu.

Contudo, é preciso fazer uma ressalva. Kurz não previu um colapso automático e imediato. Ele insistia que o capitalismo poderia sobreviver longamente como capitalismo zumbi, sustentado por capital fictício, intervenção estatal e repressão. 

Essa sobrevivência, porém, não significa vitalidade. 

Ao contrário, é uma agonia administrada, em que as contradições se aprofundam sem apontar para uma saída emancipatória. O capitalismo contemporâneo continua a existir, mas já não cumpre as promessas de progresso, integração e bem-estar que o legitimaram historicamente.

Basta verificar o que ocorre hoje nos Estados Unidos de Trump e na visível decadência da velha Europa, já quase irreversível nas bases em que se encontra.

Nesse sentido, a análise de Kurz continua atual não porque previu a agonia do capitalismo, mas porque descreveu com precisão a natureza da crise atual. 

A tarefa teórica e prática, para Kurz, não é defender o trabalho, o crescimento ou o Estado de bem-estar, mas superar a forma valor. Algo que, até agora, nem a esquerda tradicional nem os movimentos sociais conseguiram formular de maneira consequente.

A obra de Kurz, “Dinheiro sem Valor”, é uma das análises mais instigantes da crise contemporânea. 

Ao tratar a financeirização e a automação como sintomas da crise do valor, Kurz oferece uma chave teórica que vai além das explicações moralizantes sobre especulação ou das propostas keynesianas de regulação. 

Sua obra força o leitor a encarar a possibilidade de que o capitalismo não está apenas em crise, mas diante de um limite histórico interno. Um limite que, no entanto, não garante emancipação, e sim coloca a humanidade frente ao desafio de construir, conscientemente, uma sociedade para além do trabalho, do dinheiro e do valor – algo que o marxismo tradicional ainda não estudou com força e objetividade. 

Como se vê, o marxismo está inadimplente neste crucial quesito. 

Talvez da China venha algo novo. Mas isso é outro papo, para outra ocasião. 

*Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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