A Rua dos Aflitos, na Liberdade, região central de São Paulo, virou um palco vibrante de celebração da memória negra e indígena durante a Jornada do Patrimônio 2026, que aconteceu no último sábado (15) e domingo (16). Entre rodas de samba e ritos ancestrais, o público pôde conhecer de perto a história da Capela dos Aflitos, que está prestes a reabrir suas portas após passar por um processo de restauração.
Quem caminha pelo asfalto da região nem sempre imagina que pisa sobre uma história de dor e fé. O pesquisador Wesley Vieira explica que ali funcionava o antigo “circuito de punição” da São Paulo colonial: os condenados saíam da cadeia, passavam pela tortura no pelourinho e seguiam até o Largo da Forca, onde hoje fica a Praça da Liberdade.
Construída em taipa de pilão, a pequena Capela dos Aflitos é a única testemunha material desse período que ainda resta de pé. Wesley destaca que o apagamento desse passado escravocrata não foi um acidente, mas uma tentativa da ideologia paulista de recontar sua fundação, ignorando a existência da escravidão.
O silêncio sobre esse chão só começou a ser quebrado de verdade em 2018, quando a obra de uma galeria comercial vizinha causou rachaduras na capela. Geovanna Perez, vice-presidente da União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unamca), conta que a associação nasceu justamente dessa mobilização popular para proteger o patrimônio e a memória negra e indígena do território.
Durante as escavações arqueológicas provocadas pelo embargo da obra, foram encontrados fragmentos de 11 corpos na sacristia e quatro sepultamentos originais no velário. Isso indicou que o cemitério ainda existia debaixo dos prédios e nunca havia sido totalmente transferido para a Consolação.

Geovanna Perez enfatiza que essas descobertas mudaram a perspectiva sobre o local. Foram achadas contas de vidro azuis e esferas de argila na boca e sobre a cabeça de alguns esqueletos, sinalizando que as pessoas eram enterradas com rituais de matriz africana. “Isso desmistifica a ideia de que era apenas uma vala comum. As pessoas escolhiam ser sepultadas ali pela ritualística de importância ofertada a elas”, afirma.
Para a pesquisadora, a capela resiste há mais de dois séculos pela força da sociabilidade e resistência. Ela defende que a memória intangível é o que mantém o espaço vivo, permitindo compreender como as populações vindas da África e os povos indígenas se reorganizaram para resistir até os dias de hoje.
Um dos maiores símbolos dessa devoção é Chaguinhas, o soldado negro executado em 1821. O padre José Enes, responsável pela capela, conta que a tradição dos devotos baterem três vezes na porta de madeira da capela, lembrando as três vezes que a corda da forca arrebentou, continua levando os fiéis ao local em busca de milagres.

O restauro da capela, assinado pelo arquiteto Igor Carollo, buscou modernizar a estrutura sem apagar sua essência. Enes explica que o processo foi metodológico e científico, optando por “intervenções tímidas que respeitassem a materialidade original de barro e madeira do templo”.
Na festa deste final de semana, essa ancestralidade tomou as ruas. No sábado (15), o público participou de vivências de Jongo e danças da Guiné-Conacri, encerrando com uma grande roda de samba com o Coletivo Samba da Madrinha Eunice e o BaTuQ do Glicério.
Já no domingo (16), a celebração contou com congada, percussão e o tradicional Samba de Bumbo Paulista, reforçando o território como um espaço de troca de saberes e memória viva. O evento foi uma união entre a prefeitura, a Unamca e o Museu dos Aflitos.
Geovanna Perez explica que o projeto agora é consolidar o Museu dos Aflitos como um “museu de território”. Diferente dos museus tradicionais, ele não se limita a um prédio, mas dialoga com toda a Baixada do Glicério e a Liberdade, preservando as histórias contadas pelas pessoas que vivem ali.
O próximo passo é a construção do Memorial dos Aflitos, que deve abrigar o acervo arqueológico e os resultados das pesquisas sobre os remanescentes humanos. Para Geovanna, o memorial é essencial para desmistificar a visão de que a região é apenas um local violento, revelando sua rica produção cultural.
A reabertura da capela, prevista ainda para este mês de agosto, marca um momento de vitória para os fiéis e pesquisadores que aguardavam ansiosos.