Eleições 2026

Candidaturas negras devem ter condições de disputa para além do registro eleitoral, defende articulação lançada no DF

Evento nesta segunda (17) reuniu sete partidos, cobra recursos, estrutura para campanhas e lançou agenda de compromisso

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Candidaturas e representantes de movimentos negros participaram do encontro realizado no Teatro dos Bancários, em Brasília
Candidaturas e representantes de movimentos negros participaram do encontro realizado no Teatro dos Bancários, em Brasília | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Movimentos negros do Distrito Federal reuniram, nesta segunda-feira (17), 25 candidaturas negras de sete partidos no 1º Encontro de Candidatos e Candidatas Negras do Campo Democrático do DF. Realizado no Teatro dos Bancários, em Brasília, o encontro colocou no centro do debate as dificuldades enfrentadas por pessoas negras para conquistar espaço, recursos e condições de competitividade dentro das próprias estruturas partidárias.

A articulação reúne candidaturas do PT, Psol, PCdoB, Rede Sustentabilidade, PDT, PSB e PV. São seis nomes que disputam a Câmara dos Deputados, 18 candidatos à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e uma candidatura à vice-governadoria, de Dora Gomes (PV), na chapa encabeçada por Leandro Grass (PT).

O encontro buscou construir uma agenda comum entre candidaturas e movimentos negros. A principal cobrança dirigida aos partidos foi para que o compromisso com a representação racial não termine no registro das candidaturas, mas se traduza em recursos, comunicação, tempo de campanha e condições para que pessoas negras possam disputar mandatos.

A crítica apareceu de forma direta na fala de Dora Gomes. Para ela, a candidatura só ganha efetividade quando se transforma em mandato e, consequentemente, em capacidade de decisão sobre políticas públicas. “Candidatura é presença, mandato é poder de decisão. É no mandato que a gente prioriza os projetos, que é onde a gente pode transformar esses projetos em políticas públicas de verdade, que transforma a vida do povo”, afirmou.

Ela também criticou a falta de estrutura oferecida pelos partidos às candidaturas negras e cobrou que as legendas não utilizem os nomes apenas para cumprir as regras eleitorais. “A gente precisa de estrutura, de orçamento. Os partidos precisam entender que não podem aceitar a nossa candidatura apenas para cumprir a lei de cotas. A gente precisa de estrutura de comunicação”, criticou.

A candidata também questionou a distribuição dos recursos durante a campanha e afirmou que o acesso tardio ao financiamento compromete a igualdade na disputa eleitoral. “Recurso pulverizado não produz igualdade. Recurso que chega tardio não produz igualdade nas eleições. Então não basta ter orçamento e entregar para a gente 20 dias antes das eleições. A gente precisa estar atento a essa conversa com os nossos partidos”, destacou.

Dora Gomes defendeu mais estrutura partidária e recursos para ampliar a competitividade das candidaturas negras
Dora Gomes defendeu mais estrutura partidária e recursos para ampliar a competitividade das candidaturas negras | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Espaço e representação

Para Brenna Vilanova, coordenadora estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), o encontro busca dar espaço a candidaturas que, segundo ela, ainda enfrentam obstáculos para chegar aos locais onde são definidas as políticas públicas.

“É para que a gente consiga, de fato, apresentar as candidaturas que são sempre muito excluídas, estão sempre ausentes nos debates e nos lugares também que nos interessam, que é administrar o poder público, administrar onde vai discutir as políticas públicas”, afirmou.

A dirigente também defendeu que a articulação não termine com o período eleitoral e que as demandas apresentadas pelos movimentos sejam incorporadas ao trabalho dos futuros mandatos. “Hoje a gente está aqui conversando, discutindo as nossas demandas e se comprometendo também para além de estar candidato, mas também garantir que as nossas demandas sejam discutidas e votadas no Parlamento”, destacou.

O professor da Universidade de Brasília (UnB) Nelson Inocêncio, que participou da abertura do encontro, aumentou o debate para a trajetória histórica da população negra na política institucional. Ao recuperar diferentes momentos de mobilização, ele afirmou que a sub-representação permanece apesar de a população negra ser maioria no país.

“É fundamental que a gente perceba a necessidade não só de estimular as candidaturas negras, porque a questão da sub-representação continua existindo. Essa sub-representação perdura, apesar de nós sermos a maioria da população desse país”, afirmou.

Para ele, a atuação política do movimento negro não se restringe à denúncia do racismo, mas também envolve a elaboração de propostas e a disputa por políticas públicas. “É um profundo equívoco quando se pensa o movimento negro apenas como protesto. Óbvio que o movimento negro é protesto, é denúncia, mas o movimento negro também é propositivo. A luta pelo Parlamento passa por isso também, passa por essa escuta, por esse entendimento do que nós estamos exigindo, do que nós estamos reivindicando”, destacou.

Agenda de compromisso

Durante o encontro, organizações e movimentos negros apresentaram a Agenda de Compromisso das Candidaturas Negras do Distrito Federal, documento elaborado para as eleições de 2026. A agenda reúne propostas prioritárias e estabelece compromissos públicos que as candidaturas são chamadas a assumir, com metas relacionadas à formulação de políticas públicas, garantia de recursos e participação dos movimentos negros nos espaços de decisão.

A construção do documento é assinada pelo Afuana – Vivências LGBTI+ de Matriz Africana, Articulação Nacional de Psicólogas Negras e Pesquisadoras (ANPSinep), Clube Social Negro de Brasília (CSNB), Coletivo Yaa Asantewaa, Movimento Negro Unificado (DF e Entorno) e Nosso Coletivo Negro. 

Entre os compromissos, a agenda prevê atuação em áreas como educação, saúde, trabalho e renda, cultura, segurança pública, direitos das mulheres negras, moradia, territórios negros e participação política. O documento também estabelece que as candidaturas que aderirem devem incorporar as propostas à atuação parlamentar ou executiva, manter canais permanentes de diálogo com os movimentos responsáveis pela elaboração e prestar contas sobre o cumprimento dos compromissos.

Um dos princípios apresentados no documento é a garantia de recursos para políticas de igualdade racial. A Agenda também estabelece que o enfrentamento ao racismo precisa ultrapassar discursos e ações pontuais.  “O enfrentamento consequente do racismo estrutural não se realiza por meio de retórica, discursos ocasionais ou iniciativas fragmentadas. Ele exige a institucionalização de políticas públicas permanentes”, afirma o documento.

No eixo dedicado aos compromissos das candidaturas, o documento estabelece ainda a necessidade de priorizar recursos para políticas de promoção da igualdade racial, institucionalizar o diálogo com organizações e coletivos do movimento negro e criar mecanismos de acompanhamento dos resultados das políticas públicas. A Agenda de Compromisso das Candidaturas Negras do Distrito Federal completa está disponível neste link.

A representante do Coletivo Afuana, Mukaíla Manika, afirmou que a adesão ao documento também deve ser acompanhada pela cobrança dos eleitores durante a campanha e nos futuros mandatos. “Estamos vendo o DF tomado por uma direita extremamente racista, então nós queremos agora construir, reconstruir uma democracia em que pessoas negras tenham voz e poder de decisão. Cobrem seus candidatos que assinam o compromisso, para ter uma luta e uma campanha antirracista”, afirmou.

Representantes de candidaturas e movimentos negros durante a entrega da carta-compromisso com diretrizes para a atuação política
Representantes de candidaturas e movimentos negros durante a entrega da carta-compromisso com diretrizes para a atuação política | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

O professor Nelson Inocêncio recuperou uma das palavras de ordem históricas do Movimento Negro Unificado: “Se poder é bom, negro também é poder”. A partir da frase, ele destacou a trajetória de mobilização do movimento negro pela ocupação dos espaços institucionais.

Inocêncio citou a Convenção Nacional do Negro pela Constituinte, em 1986, a Marcha Zumbi dos Palmares, em 1995, e a Conferência de Durban, em 2001, como momentos de organização política que contribuíram para levar reivindicações da população negra ao Estado.

Para o professor, a formulação de políticas de ação afirmativa deve ser compreendida como resultado da mobilização do movimento negro, e não como uma concessão institucional. “É necessário que, ao pensarmos políticas, a gente pense nesse principal protagonista, que é o movimento negro, porque existem textos falando sobre ações afirmativas, mas que muitas vezes ignoram que isso não foi dádiva, foi conquista”, destacou.

Políticas públicas

As falas do encontro relacionaram a presença negra no Legislativo à formulação de políticas em áreas como educação, moradia, saúde, cultura, trabalho e segurança alimentar. A deputada federal Erika Kokay (PT) defendeu que o recorte racial esteja presente na elaboração das políticas públicas.

“Não basta não ser racista, é preciso que sejamos antirracistas. Não é permitido que nós tenhamos qualquer política sem ter um recorte da igualdade de direitos, da igualdade racial. Não dá para pensar a política cultural, a política de geração de emprego e renda, a política de habitação, qualquer política que seja, sem que esta política tenha a interseccionalidade”, afirmou.

Candidato ao governo do Distrito Federal, Leandro Grass (PT) também apresentou compromissos relacionados à agenda antirracista. Durante o encontro, ele defendeu a inclusão do recorte racial em políticas públicas de diferentes áreas. “Que a gente tenha o recorte racial na política de moradia, na política de saúde, para fazer reparação histórica na capital do país”, afirmou.

A senadora Leila do Vôlei (PDT) também participou do encontro e relacionou a baixa presença de pessoas negras e mulheres no Congresso Nacional às desigualdades que permanecem na sociedade brasileira. Para ela, ampliar a representação exige organização coletiva entre as candidaturas.

“Se fortaleçam uns nos outros, porque a gente só vai chegar juntos quando a gente verdadeiramente entender que um sozinho não tem uma força maior do que esse coletivo que está sendo proposto aqui”, destacou.

Participantes do encontro se reuniram para discutir representação política e políticas de enfrentamento ao racismo no DF
Participantes do encontro se reuniram para discutir representação política e políticas de enfrentamento ao racismo no DF | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Memória

O encontro também foi marcado por homenagens à ativista e servidora pública Roseli Faria e ao intelectual Mário Lisboa Theodoro. A homenagem foi apresentada por Dalila Negreiros, do Nosso Coletivo Negro do DF, uma das organizações responsáveis pela articulação.

Segundo ela, a iniciativa dá continuidade a uma mobilização realizada pelo movimento negro desde 2018 para apoiar candidaturas negras. Ela destacou as dificuldades enfrentadas por essas candidaturas para obter financiamento e espaço dentro das estruturas partidárias.

“As candidaturas negras, via de regra, têm mais dificuldade de se lançar, recebem menos apoio financeiro dos partidos e têm mais dificuldade de se considerar elegíveis. E a gente está aqui hoje para dizer que nós apoiamos essas candidaturas”, afirmou.

Ao falar sobre as homenagens, Dalila destacou a trajetória de Roseli Faria e Mário Lisboa Theodoro como referência para a atuação política da população negra no Distrito Federal. “São duas pessoas que abriram o caminho para nós. São duas pessoas que amavam o povo negro, que amavam a política, que acreditavam que a política devia ser feita do povo e para o povo”, destacou.


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Editado por: Flavia Quirino

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