Movimentos negros do Distrito Federal reuniram, nesta segunda-feira (17), 25 candidaturas negras de sete partidos no 1º Encontro de Candidatos e Candidatas Negras do Campo Democrático do DF. Realizado no Teatro dos Bancários, em Brasília, o encontro colocou no centro do debate as dificuldades enfrentadas por pessoas negras para conquistar espaço, recursos e condições de competitividade dentro das próprias estruturas partidárias.
A articulação reúne candidaturas do PT, Psol, PCdoB, Rede Sustentabilidade, PDT, PSB e PV. São seis nomes que disputam a Câmara dos Deputados, 18 candidatos à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e uma candidatura à vice-governadoria, de Dora Gomes (PV), na chapa encabeçada por Leandro Grass (PT).
O encontro buscou construir uma agenda comum entre candidaturas e movimentos negros. A principal cobrança dirigida aos partidos foi para que o compromisso com a representação racial não termine no registro das candidaturas, mas se traduza em recursos, comunicação, tempo de campanha e condições para que pessoas negras possam disputar mandatos.
A crítica apareceu de forma direta na fala de Dora Gomes. Para ela, a candidatura só ganha efetividade quando se transforma em mandato e, consequentemente, em capacidade de decisão sobre políticas públicas. “Candidatura é presença, mandato é poder de decisão. É no mandato que a gente prioriza os projetos, que é onde a gente pode transformar esses projetos em políticas públicas de verdade, que transforma a vida do povo”, afirmou.
Ela também criticou a falta de estrutura oferecida pelos partidos às candidaturas negras e cobrou que as legendas não utilizem os nomes apenas para cumprir as regras eleitorais. “A gente precisa de estrutura, de orçamento. Os partidos precisam entender que não podem aceitar a nossa candidatura apenas para cumprir a lei de cotas. A gente precisa de estrutura de comunicação”, criticou.
A candidata também questionou a distribuição dos recursos durante a campanha e afirmou que o acesso tardio ao financiamento compromete a igualdade na disputa eleitoral. “Recurso pulverizado não produz igualdade. Recurso que chega tardio não produz igualdade nas eleições. Então não basta ter orçamento e entregar para a gente 20 dias antes das eleições. A gente precisa estar atento a essa conversa com os nossos partidos”, destacou.

Espaço e representação
Para Brenna Vilanova, coordenadora estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), o encontro busca dar espaço a candidaturas que, segundo ela, ainda enfrentam obstáculos para chegar aos locais onde são definidas as políticas públicas.
“É para que a gente consiga, de fato, apresentar as candidaturas que são sempre muito excluídas, estão sempre ausentes nos debates e nos lugares também que nos interessam, que é administrar o poder público, administrar onde vai discutir as políticas públicas”, afirmou.
A dirigente também defendeu que a articulação não termine com o período eleitoral e que as demandas apresentadas pelos movimentos sejam incorporadas ao trabalho dos futuros mandatos. “Hoje a gente está aqui conversando, discutindo as nossas demandas e se comprometendo também para além de estar candidato, mas também garantir que as nossas demandas sejam discutidas e votadas no Parlamento”, destacou.
O professor da Universidade de Brasília (UnB) Nelson Inocêncio, que participou da abertura do encontro, aumentou o debate para a trajetória histórica da população negra na política institucional. Ao recuperar diferentes momentos de mobilização, ele afirmou que a sub-representação permanece apesar de a população negra ser maioria no país.
“É fundamental que a gente perceba a necessidade não só de estimular as candidaturas negras, porque a questão da sub-representação continua existindo. Essa sub-representação perdura, apesar de nós sermos a maioria da população desse país”, afirmou.
Para ele, a atuação política do movimento negro não se restringe à denúncia do racismo, mas também envolve a elaboração de propostas e a disputa por políticas públicas. “É um profundo equívoco quando se pensa o movimento negro apenas como protesto. Óbvio que o movimento negro é protesto, é denúncia, mas o movimento negro também é propositivo. A luta pelo Parlamento passa por isso também, passa por essa escuta, por esse entendimento do que nós estamos exigindo, do que nós estamos reivindicando”, destacou.
Agenda de compromisso
Durante o encontro, organizações e movimentos negros apresentaram a Agenda de Compromisso das Candidaturas Negras do Distrito Federal, documento elaborado para as eleições de 2026. A agenda reúne propostas prioritárias e estabelece compromissos públicos que as candidaturas são chamadas a assumir, com metas relacionadas à formulação de políticas públicas, garantia de recursos e participação dos movimentos negros nos espaços de decisão.
A construção do documento é assinada pelo Afuana – Vivências LGBTI+ de Matriz Africana, Articulação Nacional de Psicólogas Negras e Pesquisadoras (ANPSinep), Clube Social Negro de Brasília (CSNB), Coletivo Yaa Asantewaa, Movimento Negro Unificado (DF e Entorno) e Nosso Coletivo Negro.
Entre os compromissos, a agenda prevê atuação em áreas como educação, saúde, trabalho e renda, cultura, segurança pública, direitos das mulheres negras, moradia, territórios negros e participação política. O documento também estabelece que as candidaturas que aderirem devem incorporar as propostas à atuação parlamentar ou executiva, manter canais permanentes de diálogo com os movimentos responsáveis pela elaboração e prestar contas sobre o cumprimento dos compromissos.
Um dos princípios apresentados no documento é a garantia de recursos para políticas de igualdade racial. A Agenda também estabelece que o enfrentamento ao racismo precisa ultrapassar discursos e ações pontuais. “O enfrentamento consequente do racismo estrutural não se realiza por meio de retórica, discursos ocasionais ou iniciativas fragmentadas. Ele exige a institucionalização de políticas públicas permanentes”, afirma o documento.
No eixo dedicado aos compromissos das candidaturas, o documento estabelece ainda a necessidade de priorizar recursos para políticas de promoção da igualdade racial, institucionalizar o diálogo com organizações e coletivos do movimento negro e criar mecanismos de acompanhamento dos resultados das políticas públicas. A Agenda de Compromisso das Candidaturas Negras do Distrito Federal completa está disponível neste link.
A representante do Coletivo Afuana, Mukaíla Manika, afirmou que a adesão ao documento também deve ser acompanhada pela cobrança dos eleitores durante a campanha e nos futuros mandatos. “Estamos vendo o DF tomado por uma direita extremamente racista, então nós queremos agora construir, reconstruir uma democracia em que pessoas negras tenham voz e poder de decisão. Cobrem seus candidatos que assinam o compromisso, para ter uma luta e uma campanha antirracista”, afirmou.

O professor Nelson Inocêncio recuperou uma das palavras de ordem históricas do Movimento Negro Unificado: “Se poder é bom, negro também é poder”. A partir da frase, ele destacou a trajetória de mobilização do movimento negro pela ocupação dos espaços institucionais.
Inocêncio citou a Convenção Nacional do Negro pela Constituinte, em 1986, a Marcha Zumbi dos Palmares, em 1995, e a Conferência de Durban, em 2001, como momentos de organização política que contribuíram para levar reivindicações da população negra ao Estado.
Para o professor, a formulação de políticas de ação afirmativa deve ser compreendida como resultado da mobilização do movimento negro, e não como uma concessão institucional. “É necessário que, ao pensarmos políticas, a gente pense nesse principal protagonista, que é o movimento negro, porque existem textos falando sobre ações afirmativas, mas que muitas vezes ignoram que isso não foi dádiva, foi conquista”, destacou.
Políticas públicas
As falas do encontro relacionaram a presença negra no Legislativo à formulação de políticas em áreas como educação, moradia, saúde, cultura, trabalho e segurança alimentar. A deputada federal Erika Kokay (PT) defendeu que o recorte racial esteja presente na elaboração das políticas públicas.
“Não basta não ser racista, é preciso que sejamos antirracistas. Não é permitido que nós tenhamos qualquer política sem ter um recorte da igualdade de direitos, da igualdade racial. Não dá para pensar a política cultural, a política de geração de emprego e renda, a política de habitação, qualquer política que seja, sem que esta política tenha a interseccionalidade”, afirmou.
Candidato ao governo do Distrito Federal, Leandro Grass (PT) também apresentou compromissos relacionados à agenda antirracista. Durante o encontro, ele defendeu a inclusão do recorte racial em políticas públicas de diferentes áreas. “Que a gente tenha o recorte racial na política de moradia, na política de saúde, para fazer reparação histórica na capital do país”, afirmou.
A senadora Leila do Vôlei (PDT) também participou do encontro e relacionou a baixa presença de pessoas negras e mulheres no Congresso Nacional às desigualdades que permanecem na sociedade brasileira. Para ela, ampliar a representação exige organização coletiva entre as candidaturas.
“Se fortaleçam uns nos outros, porque a gente só vai chegar juntos quando a gente verdadeiramente entender que um sozinho não tem uma força maior do que esse coletivo que está sendo proposto aqui”, destacou.

Memória
O encontro também foi marcado por homenagens à ativista e servidora pública Roseli Faria e ao intelectual Mário Lisboa Theodoro. A homenagem foi apresentada por Dalila Negreiros, do Nosso Coletivo Negro do DF, uma das organizações responsáveis pela articulação.
Segundo ela, a iniciativa dá continuidade a uma mobilização realizada pelo movimento negro desde 2018 para apoiar candidaturas negras. Ela destacou as dificuldades enfrentadas por essas candidaturas para obter financiamento e espaço dentro das estruturas partidárias.
“As candidaturas negras, via de regra, têm mais dificuldade de se lançar, recebem menos apoio financeiro dos partidos e têm mais dificuldade de se considerar elegíveis. E a gente está aqui hoje para dizer que nós apoiamos essas candidaturas”, afirmou.
Ao falar sobre as homenagens, Dalila destacou a trajetória de Roseli Faria e Mário Lisboa Theodoro como referência para a atuação política da população negra no Distrito Federal. “São duas pessoas que abriram o caminho para nós. São duas pessoas que amavam o povo negro, que amavam a política, que acreditavam que a política devia ser feita do povo e para o povo”, destacou.
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