Eleições 2026

Contraste de programas: Lula fala mais em cultura e saúde; Flávio Bolsonaro cita mais segurança e facções criminosas

Levantamento analisa 15 palavras-chave nas propostas dos candidatos e expõe visões opostas para o país

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Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fl´ávio Bolsonaro (PL).
Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) | Crédito: Ricardo Stuckert/PR/Redes sociais

Um levantamento feito pelo Brasil de Fato, usando 15 palavras-chave para compreender os programas de governo dos candidatos à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), mostra que Cultura e Segurança são os termos mais usados pelos presidenciáveis, respectivamente.

As quinze palavras analisadas pelo Brasil de Fato foram: agronegócio, cultura, direitos humanos, educação, facções criminosas, feminicídio, indígena, LGBTQIA+, presídios, racismo, reforma agrária, saúde, segurança, soberania e trabalhadores.

As palavras mais citadas no programa de Lula, dentre as selecionadas, são: indígena (17), trabalhadores (9), direitos humanos (7), educação (42), saúde (47), cultura (86), soberania (31).

No projeto de Flávio Bolsonaro, as palavras que mais aparecem são: feminicídio (4), facções criminosas (9), agronegócio (7), presídios (6) e segurança (9).

De acordo com o levantamento, Lula usou a palavra cultura e variações como “aparelhos culturais” por 86 vezes em seu plano de governo. No documento de Flávio Bolsonaro, ela aparece apenas em 11 oportunidades. Em diversos trechos, o termo é utilizado para complementar expressões, como “cultura do mercado”.

Em ambas propostas, o petista afirma que “a cultura é uma dimensão estratégica da nossa luta pela democracia, pela soberania, pela justiça social e pela sustentabilidade ambiental. A cultura é o campo privilegiado da disputa de valores, visões de mundo e o lócus onde fermentarão as condições necessárias para a consolidação de um projeto de nação que considere todos os brasileiros e brasileiras e que seja sustentável em relação à natureza”.

Em três páginas, o programa de Lula celebra conquistas de seu governo na área da cultura e traz propostas para o setor, como o desenvolvimento de um programa de “formação de plateia”. Um dos focos do documento é a integração entre cultura e educação.

“Avançaremos na integração da cultura com a educação, por meio de políticas como o programa Mais Cultura nas Escolas e a ação Arte e Cultura na Educação de Tempo Integral. Queremos consolidar atividades artísticas integradas ao currículo que estimulem a criatividade, a capacidade crítica e o letramento digital, democratizando o acesso da juventude à produção e ao repertório cultural”, aponta o plano de governo de Lula.

Em seu projeto, Flávio Bolsonaro dedica apenas dois parágrafos para a Cultura. No primeiro, teoriza sobre o conceito. “A miscigenação e a construção de um país de imigrantes e de múltiplas culturas são motivos de orgulho, e é essa memória que celebraremos, com a preservação do nosso patrimônio histórico, dos centros históricos às obras e acervos que contam quem somos, hoje deteriorados por falta de cuidado.”

No segundo parágrafo, surge uma proposta genérica, sem contextualização ou apresentação de dados e metas. “Aperfeiçoaremos as leis de incentivo, corrigindo distorções e favorecendo o desenvolvimento de outros polos regionais.”

Segurança

A fixação da extrema direita e de Flávio Bolsonaro com a ideia de segurança pública e temas similares se reflete no programa do candidato. Nas 76 páginas do documento, existem dois eixos temáticos apenas para tratar dessas pautas.

Nos eixos “Brasil Sem Medo” e “Segurança Pública”, Flávio Bolsonaro usa e abusa de frases de efeito, ao melhor estilo policialesco, para chamar a atenção para o tema. “Mais presídios, menos bandidos soltos”, “auxílio para as famílias das vítimas, não dos bandidos” e “menos verbo, mais verbas” são algumas expressões.

Flávio Bolsonaro dedica cinco páginas de seu programa para falar de segurança pública e chama de “blá-blá-blá ideológico” o projeto da esquerda para o setor. Seguindo a agenda estadunidense, o presidenciável da extrema direita afirma que declarará “guerra ao crime organizado. PCC, CV, milícias e todas as outras facções serão declaradas como organizações narcoterroristas.”

Ainda de acordo com o documento, um eventual governo de Flávio Bolsonaro “vai apoiar e sancionar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos”. Ainda com a finalidade de combater o tráfico de drogas, o candidato do PL diz que pretende “criar o Sistema Nacional de Fronteira, uma tropa de elite do Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira, equipada com armas de guerra, inteligência e tecnologia, responsável por criar um paredão na fronteira.”

Presídio é uma palavra que aparece seis vezes no plano de governo de Flávio Bolsonaro. Facções criminosas é uma expressão que surge em nove oportunidades no documento.

Em seu projeto, Flávio Bolsonaro afirma que criará mais cinco presídios de segurança máxima. Em junho de 2026, o Brasil chegou a uma população carcerária de 965 mil pessoas. As cinco novas unidades prisionais integrariam um complexo chamado “Treva”, que seria análogo ao “modelo adotado por El Salvador”.

Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele aumentou a população carcerária do país de 20 mil para 110 mil pessoas. Salvadorenhos têm sido presos sem acusação formal, apenas por suspeita de ligação com facções criminosas. Entidades de direitos humanos e órgãos internacionais denunciam os julgamentos coletivos de réus, que acabam com condenações coletivas, sem especificar os crimes cometidos por cada pessoa.

Em seu programa, Lula dedica três páginas para a discussão sobre segurança pública. Mais uma vez, o presidente apresenta uma relação do que foi realizado por seu governo. Os petistas destacam a chamada PEC da Segurança Pública, em tramitação no Congresso, e a Lei Antifacção, que foi sancionada em 2026.

“Consolidaremos o Sistema de Inteligência de Segurança Pública e Justiça Criminal, modernizaremos o Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública) e o Infoseg (Sistema de Dados das Forças de Segurança do Brasil) e ampliaremos as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs)”, promete Lula.

O petista não se compromete com a construção de novos presídios, mas sim com a integração e apoio. “Seguiremos apoiando os estados para implementar padrões nacionais de gestão, monitoramento e modernização das penitenciárias estaduais.”

Outros temas

Outra diferença entre os candidatos que chama a atenção é que Lula cita a palavra “educação” 42 vezes em seu projeto para o país. Flávio Bolsonaro, apenas nove. O petista versa sobre esse tema em quase quatro páginas do documento. Já o candidato do PL fala da página 34 até a 36 de seu documento, com citações pontuais em outros trechos, como o vale-creche, que aparece na página 21.

Em busca do voto feminino, setor que a extrema-direita tem tido dificuldades desde 2018, Flávio Bolsonaro investiu em um plano de governo que busca o diálogo frequente com as mulheres.

Apesar desse espírito, Flávio Bolsonaro cita a palavra feminicídio apenas quatro vezes e trata do tema em um parágrafo, no qual apresenta sua proposta. “Os agressores das mais de meio milhão de mulheres com medida protetiva no Brasil serão monitorados pelas autoridades com o uso de tornozeleiras eletrônicas (lei que já está em vigor e foi sancionada por Lula). Vamos endurecer a lei e obrigar assassinos e agressores de mulheres a cumprir integralmente suas penas.”

No programa de Lula, a palavra aparece em apenas duas oportunidades. “O Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio permanecerá como guia central de nossa estratégia de enfrentamento à violência contra mulheres. Com a parceria dos três poderes da República, em menos de seis meses de vigência do pacto, já foram sancionadas dez leis e editados cinco decretos para ampliar a capacidade do Estado de enfrentar a violência contra a mulher. Criamos o Centro Integrado Mulher Segura e aceleramos o tempo para expedição de Medidas Protetivas de Urgência, que caiu de 16 para 3 dias”, detalha.

Ambos os candidatos também não falam muito sobre outra mazela social que aflige o país: o racismo. Termo que aparece em três oportunidades no programa de governo de Lula e nenhuma vez no documento de Flávio Bolsonaro.

Lula, no documento entregue ao TSE, afirma de forma genérica sobre racismo: “Manteremos o combate ao racismo no centro de nossa estratégia de desenvolvimento, pois não é possível compreender nem superar as desigualdades brasileiras sem enfrentar a questão racial como dimensão estruturante da sociedade.”

Editado por: Rodrigo Gomes

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