Coreia do Sul

Coreia do Sul quer acelerar retomada do comando militar após Trump reduzir exercícios conjuntos

Após financiar 90% da maior base dos EUA no exterior, Coreia do Sul decide antecipar metas de independência militar

No audio source provided.
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung.
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung. | Crédito: Lee Jin-man / POOL / AFP

O presidente da Coreia do Sul quer que o país recupere rapidamente das mãos dos EUA o controle operacional de suas próprias forças armadas em caso de guerra. Lee Jae Myung, que tratou do tema nesta terça-feira (18), também está disposto a promover avanços na aquisição de submarinos nucleares. 

O anúncio do governo local tem a ver com uma decisão tomada no domingo (16) pelo governo Donald Trump, que confirmou que instruiu o Pentágono a “reduzir substancialmente” os exercícios militares conjuntos desta semana com o país asiático, conhecido como Ulchi Freedom Shield (UFS, na sigla em inglês).

Os anúncios dos mandatários têm a ver com uma história jamais resolvida entre as Coreias do Sul e do Norte. Desde a Guerra da Coreia, que terminou em 1953 com um armistício, os dois países jamais assinaram um tratado formal de paz. O que significa dizer que, tecnicamente, ambos seguem em guerra. 

Em razão desse contexto, os Estados Unidos mantêm tropas na Coreia do Sul. O país asiático exerce o controle de suas próprias forças armadas em tempos de paz desde 1994, mas o controle operacional em tempos de guerra — a autoridade para dirigir as tropas em caso de retomada dos combates — permanece com os EUA. Essa estrutura é liderada pelo comandante do Comando de Forças Combinadas Coreia-EUA, cargo tradicionalmente ocupado por um general quatro estrelas estadunidense.

No final de semana, Trump argumentou que os exercícios militares custam caro e que seria preciso revisar a viabilidade. Ainda segundo o republicano, a Coreia do Norte, liderada por Kim Jong-un, manteria uma excelente relação com o próprio Trump. Por fim, Trump se queixa de que a Coreia do Sul teria ajudado pouco na empreitada contra o Irã. 

O argumento financeiro, porém, não pesa para Washington. É na Coreia do Sul que fica a maior base militar estadunidense fora do território nacional, em Pyeongtaek. A estrutura, conhecida como Campo Humphreys, teve um custo de US$ 10,8 bilhões, mas 90% do valor foi pago pelos sul-coreanos. O acordo vale até 2030. A queixa sobre os custos também tinha sido usada como justificativa em 2018, quando Trump, no primeiro mandato, suspendeu exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul. 

Na época, o gesto foi interpretado como um aceno diplomático para Kim Jong-un. Ao ser questionado sobre o tema na última segunda-feira (17), Trump mencionou que teria conversado com o líder norte-coreano e que Kim teria respondido à decisão, mas não deu mais detalhes. “Estou tornando tudo muito mais seguro. Kim Jong-un sempre me tratou com muito respeito. Eu o entendo, ele me entende”, disse o republicano a jornalistas.

Apesar de a decisão estremecer, momentaneamente, a relação entre Washington e Seul, ela pode caminhar em um sentido já desejado há tempos pelo presidente sul-coreano, cujo mandato termina em 2030. Internamente, Lee deseja que a meta seja restabelecida para 2028, o que poderá ser discutido durante uma reunião consultiva com os EUA, que será realizada em outubro. 

A recuperação do controle operacional em tempos de guerra deveria ter acontecido ainda em 2021, mas vem sendo sucessivamente adiada. Agora, o governo liberal da Coreia do Sul se vê perto das condições ideais para alcançar a retomada. Trump, por seu lado, aplica à Coreia do Sul uma lógica semelhante àquela que vem aplicando a países da Otan: livrar os Estados Unidos das responsabilidades militares, flexibilizando apoios e transferindo o exercício do papel de defesa para os próprios países, que se veem mais pressionados a inflar gastos militares. 

A dúvida sobre o futuro diz respeito a quais seriam os benefícios logrados pelos EUA no gesto diplomático a Pyongyang, cuja aproximação militar com a Rússia e a China só avança. Além do mais, o estímulo ao controle majoritário do próprio poder de força pode levar a Coreia do Sul a avançar no debate sobre o desenvolvimento de armas nucleares, que tem aprovação de 80% da população, segundo uma pesquisa do Instituto Asan, publicada em fevereiro.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter