O argentino Fernando Cerimedo, apontado como um dos principais estrategistas digitais da direita e da extrema direita latino-americana, foi detido nesta terça-feira (18) na Bolívia, em meio à investigação sobre um ataque a tiros contra a analista política Nadia Beller. A prisão ocorreu no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando Cerimedo se preparava para deixar o país.
Segundo a polícia boliviana, o consultor é investigado por possível participação no atentado. Beller foi atingida por três disparos na noite de segunda-feira (17), na porta de um hotel. Os autores do ataque teriam se passado por entregadores de comida. A polícia trabalha com diferentes hipóteses e afirmou que Cerimedo e a vítima teriam tido um conflito de natureza sentimental. O argentino nega qualquer envolvimento no crime. O Brasil de Fato busca mais informações com sua defesa, e o texto será atualizado caso haja retorno.
A detenção coloca novamente no centro do debate uma figura que, nos últimos anos, passou a ocupar espaço estratégico na articulação política e digital da direita latino-americana. Cerimedo ganhou notoriedade na Argentina ao trabalhar na comunicação da campanha presidencial de Javier Milei, em 2023, e tornou-se responsável por parte da estratégia digital e pela organização de fiscais eleitorais da candidatura.
Antes disso, porém, seu nome já havia adquirido projeção no Brasil. Em novembro de 2022, poucos dias depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL), Cerimedo protagonizou uma live que espalhou informações falsas sobre as urnas eletrônicas. O conteúdo, apresentado como um suposto levantamento técnico sobre a votação, foi amplamente compartilhado por apoiadores do então presidente brasileiro.
A atuação aproximou o argentino do núcleo bolsonarista e ajudou a consolidar sua imagem como uma espécie de “guru” da comunicação digital da extrema direita regional. Reportagem publicada em 2023 pela Agência Pública e republicada pelo Brasil de Fato mostrou como Cerimedo havia se transformado em uma referência para grupos de direita na América Latina, articulando comunicação política, redes sociais e estratégias de desinformação.
Da campanha de Milei ao bolsonarismo
Cerimedo construiu sua trajetória a partir da comunicação digital. É um dos fundadores do portal ultradireitista La Derecha Diario e comandou empresas voltadas à publicidade, tecnologia e estratégia política. A estrutura corporativa montada em Buenos Aires ajudou a ampliar sua atuação para além da Argentina.
Na campanha de Milei, Cerimedo assumiu papel relevante na estratégia de comunicação e no controle da estrutura eleitoral do então candidato. A aproximação ocorreu em meio à construção da imagem de Milei como outsider da política argentina e à utilização intensa das redes sociais como instrumento de mobilização.
A relação com o Brasil se aprofundou após a eleição de 2022. Cerimedo recebeu Eduardo Bolsonaro na Argentina e chegou a organizar um encontro entre o deputado e Milei, antes de o argentino se tornar presidente. Naquele período, o consultor já havia se apresentado como um defensor do bolsonarismo e passou a explorar sua conexão com a família do ex-presidente brasileiro.
A live sobre as urnas brasileiras, contudo, seria o episódio que colocaria seu nome no radar das autoridades brasileiras. O material apresentado por Cerimedo sustentava, sem evidências, que determinados modelos de urnas teriam favorecido Lula. A transmissão alcançou centenas de milhares de visualizações e foi disseminada por apoiadores de Bolsonaro.
A ‘rota da desinformação’ investigada pela PF
A atuação de Cerimedo no episódio das urnas não ficou restrita à esfera política. Em 2024, documentos da Polícia Federal citados pelo jornalista Jamil Chade apontaram o argentino como integrante do chamado “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”, investigado no contexto da tentativa de golpe de estado após a eleição de Lula.
Segundo a investigação, Cerimedo teria recebido materiais produzidos por integrantes do grupo e utilizado sua estrutura de comunicação para ampliar a circulação das falsas alegações sobre o sistema eleitoral. A PF identificou relações entre o argentino, o major da reserva Angelo Martins Denicoli e outros envolvidos na produção e disseminação dos conteúdos.
A investigação descreveu uma cadeia de produção e distribuição de informações falsas que passava pela elaboração de supostas análises sobre as urnas, pelo envio do material a Cerimedo e, posteriormente, pela publicação de uma live destinada a alcançar um público maior. O conteúdo era então reproduzido em diferentes canais, ampliando sua capacidade de circulação.
A apuração apontou ainda que arquivos relacionados às alegações falsas sobre as urnas estavam armazenados em uma pasta criada por Cerimedo e que havia conexões entre esse material e outros atores investigados. O objetivo, segundo a apuração, era criar e amplificar uma narrativa de fraude eleitoral que desse sustentação à contestação do resultado de 2022.
As alegações apresentadas na transmissão foram posteriormente desmentidas. Os registros oficiais do Tribunal Superior Eleitoral não apontaram qualquer fraude no resultado da eleição de 2022, e informações utilizadas para sustentar a tese de irregularidade nas urnas foram classificadas como falsas.
Uma rede que ultrapassa fronteiras
A trajetória de Cerimedo ajuda a ilustrar como a extrema direita latino-americana passou a operar de forma cada vez mais conectada. Em vez de limitar sua atuação a uma campanha nacional, o consultor expandiu sua rede para diferentes países e combinou atuação política, comunicação digital e produção de conteúdo.
O próprio Cerimedo assumiu, em entrevista publicada pelo Brasil de Fato e parceiros em 2023, que havia se apropriado do papel de consultor da direita latino-americana. Naquele momento, já havia construído uma estrutura com empresas de publicidade, tecnologia, sites e cursos voltados ao marketing político.
Sua influência também esteve associada ao uso de contas falsas e estratégias destinadas a impulsionar artificialmente determinados conteúdos nas redes sociais. O objetivo declarado era interferir no funcionamento dos algoritmos e aumentar a visibilidade das mensagens de seus clientes.
A experiência brasileira se tornou, assim, parte de um modelo político que atravessou fronteiras. A mesma rede de comunicação que ajudou a impulsionar Milei na Argentina esteve conectada ao ecossistema bolsonarista no Brasil e, posteriormente, à atuação política na Bolívia.
Antes da detenção, Cerimedo também atuava como consultor do presidente boliviano Rodrigo Paz. O governo do país afirma que ele não integrava formalmente a estrutura estatal e que sua atuação ocorria como assessor externo.
