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Heterossexuais são maioria dos diagnósticos tardios de HIV, aponta estudo em Porto Alegre

Levantamento no Hospital Nossa Senhora da Conceição analisou dez anos de internações e questiona testagem por risco

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Fachada do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, referência no atendimento a pessoas vivendo com HIV desde a década de 1980
Fachada do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, referência no atendimento a pessoas vivendo com HIV desde a década de 1980 | Crédito: GHC/Divulgação

Um estudo conduzido no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, mostrou que 84% dos pacientes que descobriram estar infectados pelo HIV apenas quando a doença já estava em estágio avançado eram heterossexuais. A pesquisa, publicada na revista científica AIDS Research and Treatment, foi realizada por pesquisadores da Escola de Medicina David Geffen, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), em parceria com a equipe do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC) e teve financiamento do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos.

O levantamento analisou 1.615 pacientes atendidos no HNSC em estado grave de saúde relacionado ao HIV entre 2015 e 2024. Desse total, 407 pessoas, o equivalente a 25%, descobriram ser portadoras do vírus somente durante essa mesma internação, sem qualquer diagnóstico prévio.

Perfil dos diagnósticos tardios

Entre os pacientes recém-diagnosticados, 49% eram homens que se identificavam como heterossexuais. Segundo o estudo, a maioria desse grupo estava empregada, era casada ou vivia em união estável e tinha filhos. As mulheres heterossexuais representavam 35% dos casos, também majoritariamente mães. Já as pessoas de minorias sexuais ou de gênero, população historicamente priorizada em campanhas de prevenção e rastreio do HIV, somaram apenas 10% do grupo.

As internações que levaram ao diagnóstico tardio tiveram como causas mais frequentes tuberculose, pneumonia por um fungo oportunista (pneumocistose), toxoplasmose cerebral e pneumonia bacteriana. De acordo com os pesquisadores, essas infecções costumam se instalar apenas quando o sistema imunológico já está seriamente comprometido pela ação do vírus.

Fatores de risco tradicionais não explicam a maioria dos casos

O estudo verificou ainda que 24% dos pacientes analisados apresentavam algum dos fatores de risco comumente usados para orientar a testagem, como uso de crack ou cocaína, uso de drogas injetáveis, situação de rua, histórico de encarceramento ou exercício de trabalho sexual. Isso significa que os outros 76% não tinham nenhum desses fatores documentados em prontuário.

Para os autores da pesquisa, essa distribuição indica que grande parte das pessoas que chegam ao hospital já em estágio avançado da doença não se enquadra nos perfis tradicionalmente associados a maior vulnerabilidade ao HIV, o que, na avaliação deles, compromete a eficácia de estratégias de testagem baseadas exclusivamente nesses grupos.

Porto Alegre lidera mortalidade por aids entre capitais

O cenário identificado pelo estudo se soma a um dado já registrado pela vigilância epidemiológica municipal: Porto Alegre é hoje a capital brasileira com a maior taxa de mortalidade por aids, de 20,2 óbitos a cada 100 mil habitantes, cerca de três vezes a média nacional, segundo boletim epidemiológico da prefeitura divulgado em março deste ano. O Serviço de Infectologia do HNSC atua no atendimento a pessoas vivendo com HIV desde 1985 e integra, atualmente, estudos internacionais voltados à cura funcional da infecção.

Limites da testagem por grupos de risco

Ao longo de décadas, as políticas públicas de testagem de HIV no Brasil e em outros países priorizaram populações consideradas de maior vulnerabilidade, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo. Essa lógica, segundo os autores do estudo, foi importante para conter a epidemia entre esses grupos, mas não tem sido suficiente para identificar precocemente a infecção em parcelas heterogêneas da população.

Os pesquisadores argumentam que a diversidade de perfis encontrada entre os pacientes diagnosticados tardiamente no HNSC evidencia que depender apenas da triagem por grupo de risco pode deixar de fora uma parcela significativa de pessoas com HIV, o que, na leitura deles, reforça a necessidade de ampliar o acesso à testagem para além desses recortes.

Propostas para ampliar o rastreamento

A partir dos resultados, os autores do estudo defendem a adoção de estratégias de testagem que não dependam de o paciente se enquadrar em um perfil de risco específico. Entre as propostas está a testagem de rotina no modelo “opt-out” em serviços de saúde em geral, pela qual o exame de HIV passaria a ser oferecido automaticamente a todas as pessoas atendidas, cabendo a elas recusar caso não queiram realizá-lo, em vez do modelo atual, no qual o paciente precisa solicitar o teste.

Os pesquisadores também recomendam a testagem baseada em sintomas, com oferta do exame sempre que o paciente apresentar quadros clínicos compatíveis com infecções oportunistas, além da ampliação do autoteste e da testagem em farmácias, como forma de levar o acesso ao diagnóstico para além do ambiente hospitalar.

Limitações reconhecidas pelos pesquisadores

Os próprios autores do estudo apontam limitações na pesquisa. Por ter sido realizada em um único hospital, os resultados podem refletir um perfil de casos mais graves, não necessariamente representativo do que ocorre em unidades básicas de saúde ou na comunidade em geral. Os pesquisadores ressaltam ainda que, como os dados têm origem em prontuários e fichas de triagem preenchidas no momento do atendimento, informações sensíveis como uso de drogas, orientação sexual ou situação de rua podem estar subnotificadas, uma vez que dependem do quanto cada paciente se sentiu à vontade para compartilhá-las com a equipe de saúde no momento da internação.

Editado por: Vivian Virissimo

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